terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


CAPÍTULO XV
QUEM POSSO ACEITAR?

            Deixei a maior polêmica de todas por último. Desde cedo ouvi ao final de todas as pregações a maravilhosa frase: “Quem quer aceitar a Jesus?”. Era o momento mais emocionante dos cultos. A hora da conversão. O mágico instante onde o ouvinte é tocado pelo poder do Espírito Santo e vem ao altar, muitas vezes em prantos, para aceitar a Cristo. Será que nós que o aceitamos ou Ele que nos aceita?

            Acho que a discussão é bem longa. Passaríamos pelas trincheiras do Arminianismo e o seu livre arbítrio e colidiríamos com o Calvinismo e sua eleição pela graça. Igrejas se dividem por causa disso. Perde-se ou não a salvação? Nós escolhemos andar com Deus ou Ele nos escolhe para o passeio? Aceitar a Cristo é uma frase de efeito, claro. Aceitamos ou não o que nos é oferecido. Se interpretarmos a mensagem como uma campanha publicitária onde o produto é a salvação, faria total sentido. Eu não creio nisso. Creio que somos escolhidos e que nada pode mudar o que Deus pensa a meu respeito, até porque o Criador me fez; logo, me conhece.

            Tudo bem, não aceitamos a Jesus. Contudo, aceitamos ou não pessoas. E o que aceitamos também nos divide. Os limites da aceitação dogmática são muito variáveis. Lembro a história ocorrida em um Congresso Mundial de Mulheres Batistas. Em uma mesma mesa estavam as líderes de departamento feminino de vários países. As irmãs da Alemanha criticavam com olhares fulminantes a vaidade das americanas, suas joias, suas roupas extravagantes, sua maquiagem pesada. Criticavam, enquanto se esbaldavam em seus copos de cerveja, fato esse também observado com toda a rejeição pelas irmãs da terra do Tio Sam. Enquanto isso, as brasileiras clamavam o sangue de Jesus e desejavam ardente e secretamente em seus corações que essas varoas estrangeiras se convertessem.

            Não apenas divergimos fora das fronteiras. Dentro do mesmo país, há perspectivas diferentes em relação ao que se é aceito. Em uma mesma cidade, em um mesmo bairro, em uma mesma rua, há igrejas completamente diferentes professando a fé evangélica. A cada desavença, uma nova igreja é formada. Há quem seja adepta do cuspe de Cristo. Outra do espirro cristão. Outra da tosse cristã. Outra do soluço cristão. Enfim, muita gente doente. Doente por querer ser completamente diferente. Pior. Isso é altamente contagioso.

            Pessoas são diferentes. Nossas igrejas, em sua esmagadora maioria, não sabe lidar com a pluralidade. Estamos prontos para receber um homossexual? Eles podem ser aceitos? Será que Deus os aceita? Devemos expulsá-los de nossas congregações sob o pretexto de contaminarem a santidade da casa do Senhor? Ou eles precisarão viver escondidos, muitas vezes de si mesmos, regendo coral, tocando na banda, pregando, pastoreando, sendo obrigado a se casar para a sociedade cristã o aceitar? Conheço incontáveis casos que provam que se esconder por trás de um paletó ou de uma conduta heterossexual ilibada geralmente acaba muito mal.

            São mulheres feridas por não receber atração recíproca. Mães que criam seus filhos enquanto os pais saem de madrugada para encontros amorosos com garotos de programa. Arriscam-se em ilicitudes, pois não querem que suas verdades sejam reveladas. Casam para manter a aparência. Durante o namoro, um homossexual pode mascarar uma heterossexualidade sob o pretexto do “Escolhi esperar”, inibindo qualquer tipo de contato mais íntimo com a parceira. Nada de beijos ardentes, até porque não há nada esquentando dentro dele. Sem ousadia porque é pecado. Não. Definitivamente não é por isso.

            A luta que eles enfrentam é constante. Negar-se a si mesmo não é fácil. Renunciar seus desejos, mesmo os fundamentados na relação comumente aceita é uma tarefa das mais árduas. Imagine quando esses desejos são socialmente condenados e biblicamente abomináveis. O apóstolo São Paulo, escrevendo aos Romanos, onde a homossexualidade era pungente até mesmo nas alcovas reais, fala de recompensa pelo erro da torpeza dos homens que se inflamam em sua sensualidade com outros homens. Uma recompensa mais parecida com castigo, diga-se de passagem. A maldição de ser diferente.

            Há várias questões a serem abordadas sobre esse tema. Nascer homossexual ou desenvolver a homossexualidade? O Criador fez homem e mulher. Então por que existem gays? Em 1999, o pesquisador americano Bruce Bagemihl fez um levantamento amplo e descobriu que nada menos que 450 tipos de mamíferos e aves têm hábitos homossexuais, em maior ou menor grau. Isso vai desde espécies que se exibem para indivíduos do mesmo sexo até aquelas que de fato formam casais homossexuais, chegando até a cuidar de filhotes juntos, passando, é claro, pelas relações sexuais.
             Em seu livro, Bagemihl derruba teorias que afirmam que a homossexualidade surge por falta de opção ou porque os animais se confundem. Para ele, os animais homossexuais são assim por um motivo muito simples: porque apreciam o fato de ter parceiros do mesmo sexo que eles. Outros indícios sugerem, no entanto, que a orientação sexual da pessoa é definida no útero materno. Em mamíferos, o sexo do bebê é definido pelo pai, que traz o cromossomo X ou Y para o filho. No entanto, há um senão aí, como lembra Carlos C. Alberts, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis. Entre 4 a 8 semanas depois da fecundação, a mãe grávida libera um hormônio sexual no embrião – hormônio que só vai ter efeitos mesmo durante a adolescência.
            É essa substância que, segundo alguns pesquisadores, seria responsável pela orientação sexual da pessoa. Se a combinação entre sexo do embrião e hormônio bater, o indivíduo será heterossexual. Se não, será gay. Por exemplo, um embrião do sexo feminino que receber hormônio feminino vai crescer e passar a ter atração por homens. Se o embrião feminino, no entanto, receber hormônio masculino, as chances de virar homossexual são maiores. É difícil afirmar que esse mecanismo, sozinho, possa controlar toda a complexidade que é o comportamento sexual humano. E, por isso, as bases biológicas da homossexualidade seguem sob debate.
            Claro, são estudos científicos. Teorias. Nada prova nada. Pesquisas também mostraram que dentre as pessoas que nasceram durante o cerco de Stalingrado, na Rússia, na Segunda Guerra Mundial, 30% assumiram ser homossexuais na vida adulta. Mães que durante a gestação sofreram fortes pressões emocionais, estresses ou risco de vida teriam uma tendência maior a ter filhos gays? Pode ser uma explicação? Será? Deveremos indicar então chá de camomila para as gestantes e evitar que o mundo vire um arco-íris?
           Vamos para as igrejas. Já vi homossexuais passarem por sessões e mais sessões de descarrego, a fim de expulsar as pombas-gira dos seus corpos. Eles manifestavam, mudavam o tom de voz, colocavam a mão pra trás, faziam o “show” que os demônios gostam. Logo após a imposição de mãos, eles paravam. Bebiam água, sentavam. Pedíamos para dar “glórias a Deus”. Eles repetiam. Choravam até, como o rosto no chão. Clamavam. Agradeciam a Deus. Testemunhavam que estavam libertos. Passavam mais alguns meses na igreja. Não suportavam a pressão. Não conseguiam. Vou ser bem sincero. Uma ínfima quantidade de pessoas consegue. Ou fingem conseguir. Abandonam a prática da homossexualidade, mas será que deixam de ser gays?
             Creio que podem conseguir viver sem namorar com pessoas do mesmo sexo. Alguns até se casam com alguém do sexo oposto. Assumem uma vida heterossexual. Tem filhos. Constituem família tradicional. Mas será que deixam de ser gays? O Criador fez homem e mulher. Ser gay é estar no meio disso. A questão é qual o lado será mais forte? O externo ou o interno? O biológico ou o emocional? Como lidamos com quem passa por essa batalha?
            O que a igreja deve fazer? Jesus transforma. Esse é o discurso. Ou seja, Jesus transforma. Entenderam? Não são os pastores que devem martirizá-los ao exigir uma metamorfose urgente, forçando a borboleta a entrar novamente no casulo. A borboleta já está voando. E não falo no sentido pejorativo. Dizer à borboleta para voltar ao casulo é trancá-la no armário. Escutaremos o barulho, das unhas arranhando a porta, dos socos desesperados, mas insistiremos em mantê-los aprisionados até que mudem?
            Felizmente, querido leitor, não concordo com isso. Se é Cristo quem transforma, vamos deixar o Mestre agir. E enquanto não há essa ação, até porque talvez nem aconteça, vamos continuar amando. Por que apedrejar se também temos nossos pecados? Por que punir, se também merecemos punição? Se queremos misericórdia, que haja misericórdia para todos. Inclusive para os diferentes. Na verdade, se nós nos aceitamos, por que não aceitar a todos? E se Deus quiser salvar um gay, vamos discutir a respeito disso no céu? Vamos exigir a expulsão do homossexual do coral celestial? Eu vou ser bem sincero. Eu ia ficar na minha. Caladinho. E agradecer por estar com Cristo na glória.
            Quero externar meus incômodos. Perdi um grande amigo por ele preferir manter uma imagem incólume, por medo de não ser aceito. E querem saber? Ele não seria aceito mesmo. Foi uma das mentes mais brilhantes com a qual já tive o prazer de conviver. Um mestre, um pai espiritual. Um mentor, como costumava chama-lo. Um amigo confidente, para o qual contava todos os meus devaneios, falhas, erros, pisadas na bola. Ele não me julgava. Ele me entendia. E dizia: os crentes são implacáveis. As igrejas matam os imperfeitos, pois fazem com que eles tenham que vestir armaduras perfeitas, pesadas demais, impossíveis de ser carregadas. O verdadeiro gigante está dentro de nós. Logo, ele tem que cair por dentro e não por fora.
            Ele tinha que subir aos púlpitos. Pregar. Levar o Evangelho. Almas se rendiam aos pés do Senhor. E ele amava isso. Ele amava a igreja. Ele amava as pessoas. Contudo, mantinha uma vida dupla. Jekyll and Hide. Eu nunca soube se ele gostava mais de um do que do outro. Os dois coexistiam. Ele teria que escolher. Se escolhesse o altar, para nós, seus admiradores, seria magnífico. Continuaríamos sendo alimentados por ele. Cresceríamos em conhecimento. Sugaríamos até a última gota da sua sabedoria. Contudo, se escolhesse a segunda opção, seria massacrado, triturado, destruído por uma grande parte dos evangélicos. Talvez apenas os poucos amigos de verdade, onde me incluo, ficasse do seu lado. Ou talvez ninguém. Ele estaria feliz? Não sei. Não sei qual dos dois trazia mais prazer à sua vida. Nunca saberei a resposta.
            Ele escolheu não escolher. Ficou com os dois. Acabou esfaqueado, assassinado, morto. Um matou o outro. Os dois, dentro dele, se mataram. Foi cruel. Deus sabe. A escolha mais difícil sempre é a não escolha. Levar a vida com a barriga. Deixar pra amanhã. Não quero ser juiz de nada, pois não conseguiria nem sequer me julgar.
            Foi muito por isso que eu resolvi escrever este livro. Ainda me angustio com o desfecho dessa história. Passei a viver todos os dias intensamente e amar muito mais todas as pessoas. Aprendi a não exigir nada que as pessoas não possam me dar. Nenhum tipo de falso agrado é bem vindo. Nenhum sacrifício sem amor. A vida é tão rápida. Decidi aceitar a vida. E fazer o melhor que posso com ela. Misturar meus bons e maus momentos no liquidificador da minha existência e tomar, de uma vez só. Respirar no final e dizer: como é gostoso. Como a vida é gostosa! Aceitar os quilos a mais, mas querer perdê-los também. Aceitar a ausência capilar, sem me esquecer de colocar vez por outra um chapéu elegante ou um boné para parecer mais jovem. Viver e não ter a vergonha de ser feliz, como diz o poeta. Quem posso aceitar? Querem mesmo saber? Se você começar deixando de rejeitar, já é um bom começo.