sábado, 26 de dezembro de 2015

CAPÍTULO XII

PRISÃO PERPÉTUA OU PENA DE MORTE?


            Até que ponto alguém, que cometeu as maiores atrocidades que um ser humano jamais cometeria, como homicídios triplamente qualificados, sequestros, estupros e outros crimes onde são constatados quadros de crueldade extrema, pode receber direito à liberdade por bom comportamento, fundamentado na hipótese de que esses criminosos tem um "encontro com Deus" e se tornam "evangélicos"? Se Deus perdoa, será que agimos errado quando desejamos que esses espécimes permaneçam enclausurados para nossa maior segurança?

            Sei que pode ser absurdo para quem prega o amor e o perdão tocar nesse tipo de assunto. Oferecer a outra face é a sugestão de Jesus. Pois bem. Analisemos a seguinte questão. Alguém que tem a coragem, digo a covardia, de pegar uma criança de 5 anos de idade, raptá-la, violentar a inocente e indefesa garotinha, sodomizá-la e depois estrangular e retirar-lhe a vida, impiedosamente, tem condições de ser regenerado e viver como qualquer cidadão? 

            Ah! Mas você pode afirmar: Deus apaga o passado, pastor! Sim, ele apaga. E que maravilha esse poder regenerador. No que tange às infinitas misericórdias do Senhor, o céu pode ainda ser morada de um assassino contumaz, desde que este se arrependa de seus pecados e se converta.  Não ao cristianismo religioso, mas ao propósito de vida cristão. Mudança. O Espírito Santo tem o poder de transformar a mais vil das criaturas num verdadeiro servo de Deus. Isso é inquestionável. Até mesmo serial killers podem ser salvos e viver uma experiência maravilhosa com o Senhor.




            Agora me respondam: por que, pelo simples fato de alguém com essas características se afirmar cristão, precisamos orar para que saia da cadeia e viva em liberdade? Se Deus lança nossos pecados no mar do esquecimento e coloca a placa “proibido pescar”, a justiça deve também absolver esses criminosos “recuperados” e os devolver ao convívio da sociedade? Peço perdão, meus amigos, mas não consigo ser falso. Sinceramente, desejo o contrário.

            Desejo, do fundo do coração, que pessoas desse naipe literalmente mofem na cadeia, convertidos ou não. Onde está o amor, pastor? Está exatamente aí. O amor também está presente na correção, na justiça. Os defensores dos direitos humanos pensam por acaso nas prisões perpétuas que os pais das inúmeras vítimas vão ter que enfrentar todo santo dia, sem conseguir dormir, sem conseguir comer, sem ter forças para viver? 

            Sempre aparece algum testemunho de homicidas, bruxos, estupradores, pedófilos, posando de santos e se intitulando pastores, missionários ou conferencistas. Por sinal, ser um conferencista traz mais status, uma intelectualidade, tal como os PHDs que palestram em congressos científicos. Não se sabe nem mesmo onde congregam, mas já são convidados como porta-vozes do evangelho, personificações da metamorfose espiritual. Os antes degenerados sobem aos púlpitos e vomitam seus contos, muitas vezes fictícios ou hiperbólicos, sem apresentar provas de seus indecorosos feitos.

            Lembro-me de um ex bruxo que afirmava ter atirado no peito do próprio filho com uma escopeta, sem que o matasse, nem que fosse preso por isso. Eu chamaria a polícia para levá-lo como réu confesso. O mesmo feiticeiro, no mesmo testemunho, disse ter injetado sangue de bode nas veias. Ora, se eu sofrer um acidente e precisar de uma transfusão de sangue e utilizarem um sangue de tipo não compatível com o meu tipo sanguíneo, minhas hemácias serão aglutinadas, destruídas e rapidamente estarei morto. Imaginem agora se for sangue de bode. Se eu não consigo acreditar nisso, vou crer em alguma outra palavra dita por uma figura dessa laia?

            Desculpem aos que creem, mas eu não consigo. Onde está o laudo médico? Outro dia, um apareceu dizendo que tinha morrido e ressuscitado e contando seu testemunho nas igrejas. Mostrou o atestado de óbito? Não. Hora da morte com assinatura de um médico? Não. Não adianta jogar conversa fora. Usar as igrejas como oportunidade de negócios, sem pensar na dor que essas criaturas geraram às famílias é no mínimo irresponsável.

            Coloco-me no lugar da mãe que vê sua filha morta ao ser jogada de um edifício, pelo simples fato da madrasta não aguentar o choro compulsivo da criança. Ponho-me no lugar de um pai, que vê seu filho ser arrastado pelo asfalto (que Deus nos proteja), enquanto o seu carro tomado de assalto é acelerado pelas ruas, não importando quem está gritando do lado de fora. Ouço os gritos do menino, as batidas da sua pequena cabeça no chão quente, dos ossos sendo quebrados na rota de fuga de marginais. Você pode ouvir, meu irmão? Pode ouvir os gritos da menina que é tirada do parquinho de diversões por um maníaco, que lhe oferecera um sorvete e ao invés de refrescar e adoçar a boca da inocente, usa uma corda para amarrá-la, tira-lhe as roupas, usando a pequenina blusa como mordaça e acaba com a curta vida daquele ingênuo ser. Não tem como ouvir os gritos, não é? Estamos extasiados com os gritos de glórias a Deus que esse estuprador convertido brada vestido com seu paletó fino e seus sapatos de couro de cobra.  

            Grito! Meu grito é de revolta. Enquanto as famílias lamentam perpetuamente a perda do ente querido, aqueles que causaram todo o sofrimento viajam de avião pelo mundo inteiro, contando suas desgraçadas façanhas e como tiveram suas vidas transformadas. É triste. Por que não prisão perpétua para eles? Ou não seria melhor a pena de morte para os que não tem pena diante da morte?

            Que absurdo, pastor? Você é a favor da pena de morte? Claro que não. Contudo, vejamos um caso. Imagine que você deixa sua filha em casa, com a sua esposa e sai ao trabalho. Quando retorna do serviço, encontra sua casa com a porta da frente aberta e ouve um certo barulho no quarto. Parece um grunhido, como se alguém tentasse dizer algo, mas o som está abafado. Você se aproxima e percebe que na verdade o barulho não vem do quarto dos fundos, mas da cozinha. Sorrateiramente, você passa pela sala e vê uma cena estarrecedora. Sua esposa está caída, agonizando no canto da parede, e sua filhinha está sendo violentada por um homem. Ele está deitado sobre o corpo de sua filha. Distraído com o abuso sexual que está a cometer, o monstro não percebe sua chegada. Logo, você, querido irmão, percebe que há uma faca de cortar carne em cima da mesa. O que você faria?

·         Opção A: vira de costas, não pega a faca, vai à rua, liga para a polícia, espera calmamente a chegada de uma viatura no local e, enquanto isso, dobra os joelhos e faz uma oração para que Deus salve aquela pessoa que provavelmente matará sua mulher e filha?
·         Opção B: pega a faca e, para defender sua família, pula sobre o estuprador e enfia firmemente a lâmina nas costas do desgraçado, até que morra, sem piedade alguma, salvando a vida das duas?

            Quero dizer, querido leitor, que eu escolheria sem titubear a segunda opção. Nesse caso, estaria eu sendo a favor da pena de morte? A realidade é que todos precisam de Deus. Precisam. E muito. E Deus ama, até mesmo os odiáveis. É a graça. Favor imerecido. Por mais que inconscientemente o ódio invada nossos corações, devemos amar também. Entretanto, se esses criminosos querem mudar, mudem por trás das grades. Cumpram suas penas, mesmo que no Brasil a impunidade seja institucionalizada. Não peçam para escapar da prisão, para Deus abrir as cadeias, pois é um absurdo querer se comparar com Paulo e Silas.


            Que eles mostrem o evangelho para os outros presos. Preguem para os familiares que os vão visitar. Paguem pelos crimes que cometeram. Colham aquilo que plantaram. E se um dia, depois de cumprirem a pena em sua totalidade, saírem da prisão, que tentem reparar os erros cometidos. Que façam como Zaqueu, pois a salvação não entrou na vida daquele homem baixinho quando desceu da árvore ou preparou um jantar pra Jesus, mas quando prometeu restituir o que tinha roubado. Que eles não queiram fazer das suas vidas pregressas um espetáculo de fé, mas que sintam vergonha do passado. No céu, o preço já foi pago pelo sangue de Jesus. Aqui na terra, ainda há sangue clamando por justiça. Que a justiça possa ouvir esse clamor.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O dia que conheci Nietzsche

CAPÍTULO X

O DIA QUE CONHECI NIETZSCHE


            A própria palavra cristianismo é já um equívoco. No fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz. Não. Não fui eu quem disse isso. Preciso esclarecer de antemão que não concordo com tudo que aquele que cunhou essa frase afirmava. Apenas procurei entendê-lo. Sempre tive vontade de estudar filosofia. Li um pouco de Kant, ainda na faculdade, sob a influência de um estudante de medicina com o qual fiz alguns estágios extramuros. Contudo, Nietzsche sempre foi a pedra de tropeço de toda a igrejada. Não errei a escrita. Igrejada mesmo, pois não posso chamar o que vejo de igreja.

            Perdoe-me o neologismo, mas a tradição pentecostal clássica sempre foi avessa ao estudo teológico, dando preferência às experiências pessoais. A letra mata. Essa era a afirmação, completamente fora de contexto hermenêutico, usada pelos irmãos do reteté para despretensiosamente desincentivar o estudo bíblico. O problema é que eu tenho uma atração incontrolável pela maçã do conhecimento. Curioso, nunca aceitei a resolução do questionário com um sonoro “porque sim”. Queria saber a razão. A fé não me bastava. Tinha que existir uma justificativa.

            Claro, não falo da fé que salva, mas a que é empurrada goela abaixo nos leigos sob o pretexto de impedir que pesquisem, que se informem, que aprendam sobre tal assunto. Somente era necessário ouvir o sacerdote e aceitar a “Cristo”. Fim. Não é preciso saber. Comer da árvore é proibido. Pode dar indigestão. Pode culminar em sua expulsão do paraíso. Que me expulsem então.

            Sempre criticaram São Tomé, o discípulo incrédulo. Tomé queria apenas ter a sua experiência. Queria tocar nos ferimentos, sentir o cheiro de Jesus, ver o local onde a lança o transpassou. Que crime há nisso? Qual o sacrilégio em exigir provas concretas de milagres? As igrejas neopentecostais se estapeiam, exibindo seus prodígios em shows televisivos. Paralíticos se arrastam ao levantar de cadeiras de rodas, amparados pelos braços por obreiros previamente avisados. São alguns pequenos passos. Enquanto isso, os fiéis gritam sob o comando do “apóstolo”, comemorando o pseudo-milagre, sem ser necessário prova nenhuma.

            Onde estão os exames médicos? E a avaliação de um especialista? Se alguém promete dentes restaurados com ouro após uma oração, seria extremamente necessária a chancela de um odontólogo. Assim como a cura de um câncer precisaria de um laudo de um oncologista. Acompanhar o cotidiano de um ex-paraplégico também seria interessante. Entretanto, isso não é feito. Até porque, se for exigido, é sinal de falta de fé. Crer, sem ver. Que absurdo. Se o milagre é autêntico, por que temer a solicitação de provas? Por que marginalizar os Tomés?

            É que há algumas obscuridades por trás desse processo. O óleo usado para ungir o ventre do doente nos espetáculos de cura inexplicavelmente faz o milagreiro retirar “tumores”, vermes, minhocas e até ratos da barriga do paciente. Por que eu não posso achar que aquele malogrado azeite friccionado possa gerar uma gosma horrenda semelhante ao abcesso? Serão trabalhos de terreiros de macumba os tufos de cabelos regurgitados pelos oprimidos? Vi um vídeo estarrecedor onde uma missionária removia o coração de um senhor, sob o pretexto de que o cardiopata receberia um novo órgão. Isso mesmo que você leu, meu amigo. Ela removeu o coração, tal como o Shang Tsung no Mortal Kombat. Não, não metaforicamente. Ela exibia o bolo de carne. Era, para todos os presentes, um coração. Claro, não perguntaram a um cardiologista. Mas pra que, não é mesmo? Só precisa crer.

            Essa é a questão. Jesus nunca foi exibicionista. Seus milagres não eram midiáticos, apesar da atração popular que provocavam. Na maioria dos casos, o Mestre pedia que o curado não contasse pra ninguém. Seus ensinamentos eram tão fora da caixa, sem a massificação atual, sem interesses escusos que, quando vemos o que ocorre atualmente nas catedrais da fé, ficamos com ânsia de vômito. Igrejas mornas, tal como Laodicéia. Ricas, abastadas, melhores estruturas de som, melhores grupos vocais, instrumentos musicais de última geração, melhores assentos, maior templo, santuário gigante, totalmente climatizado. Porém, Jesus chama essas nem quentes nem frias de pobre, cega, nua, infeliz, miserável. Ou seja, o contentamento não deve estar na estrutura, mas na essência.

            O evangelho se perde então na busca pela glória, na tentação do pináculo do templo. A apresentação de uma dança, peça teatral ou os efeitos de um solo de guitarra bem executado ofuscam o que verdadeiramente importa. O sacerdote rouba a cena. A glória é dele. Depois aparecem com um papo hipócrita de que estão fazendo a obra de Deus. Definitivamente não. São obras humanas, eventos humanos, igreja humana, longe de Deus. Ânsia de vômito é o que me dá. Todos precisam obrigatoriamente se enquadrar no padrão. Os que pensam, refletem, questionam são um risco. Não devem ser questionados. Jamais afrontados. São os donos da verdade. Na verdade, são os donos da Eclésia. A igreja deixa de ser de Deus. Jesus fica de fora, batendo na porta, esperando que alguém ouça, abra, porque ele quer sentar à mesa. Pra que comer com Jesus, se podemos jantar com o governador, o prefeito, o empresário, o cantor famoso, não é mesmo?

            Tolos. Na verdade, tolos são os que os ouvem. Tenho pena das pessoas ignorantes que caem na lábia desses artífices da fé. Esses charlatões, interesseiros, inescrupulosos fazem de tudo para enganar as pobres mentes frágeis. Pior que às vezes penso que de tanto mentirem, acabam acreditando nas suas próprias falácias, numa esquizofrenia tosca. Matam em nome de Deus. Selecionam quem pode e quem não pode estar no seio da congregação.

            Apenas os santos participam da linha de frente. Como saber quem é santo? O que é ser santo? Segundo Nietzsche, no seu livro O Anticristo, “é apenas uma série de sintomas de um corpo empobrecido, enervado e incuravelmente corrompido”. Por que essa revolta com esse filho de pastor luterano? Ele abre a caixa de Pandora e expõe a podridão em que o cristianismo tinha se tornado no século XIX.  Essa podridão viaja pelo século XX e seu fedor ainda é insuportável no século XXI.

            É óbvio que a santidade autêntica significa ser separado, estar disponível para o serviço. Santos são aqueles que se doam, sem receber nada em troca, pelo bem estar dos outros, para servir aos outros. Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, São Francisco de Assis foram santos e nem eram evangélicos. O conceito de santidade da maioria esmagadora das denominações está baseado no vertical, quando a perspectiva deve ser horizontal. Ser santo não é receber recados divinos, usar longas saias, não usar bermudas curtas ou compridas. Não é demonizar tatuagens ou piercings. Não é fazer mortificar o sexo, reprimindo-o e tornando-o o mais abominável dos pecados. Não está no que somos por dentro, mas no que externamos. Ora, o fruto do Espírito Santo é para que os outros saboreiem. O próximo sentirá o sabor do amor, da paz, da alegria, da longanimidade, da mansidão, da bondade, da benignidade e do domínio próprio. Ficará evidenciado.

            Comecei a ler Nietzsche e, mesmo não sendo ateu como ele, concordei com vários tópicos de seus escritos. Não sou ateu, nem cru, nem estou apostatando da fé. Apenas faço minhas suas palavras quando proclama a falência do cristianismo que Jesus pregou. Mataram Jesus, não apenas fisicamente. Mataram o que Jesus representava. Aboliram seus ensinamentos, hierarquizando a igreja. Hoje, não há quem se contente em ser um obreiro ou um diácono. Querem mais. Querem reconhecimento ministerial. Querem aplausos, palmas, vestes no chão para passarem por cima. Sem jumentinho, claro. Preferem um carro luxuoso, com blindagem e seguranças armados para fazer a escolta. Enquanto o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, eles exigem hotel cinco estrelas. Se Jesus não tivesse ressuscitado, acho que seus ossos estariam estremecendo na tumba.

            Nietzsche tem seus absurdos, mas guardei o que me apeteceu. Isso é bíblico. Reter o que é bom. O sagrado passou a ser algo tão fútil. Quem seria digno de subir a um púlpito para ministrar um louvor? Quem seria digno de tomar a santa ceia? Quem seria digno de se batizar nas águas? Que poderia ser canal de Deus? Quem merece ser salvo? Pronto. Atingi a ferida. Essas segregações são estúpidas. Ninguém é digno. Somos alvos da misericórdia de Deus. Sem essas misericórdias somos reduzidos ao pó. Não somos nada. Não somos ninguém. Ele é. Jesus é o cara. Não eu, nem você. O que me faz poder pregar? O desejo de tocar no coração das pessoas, de levar Jesus a elas, de ensinar o que aprendi, de colocar pra fora o que tenho dentro de mim. Não palavras vazias, mas palavras vivas. Vida viva.

            Não estou fazendo apologia ao pecado, defendendo que as pessoas vivam vidas prostituídas, até porque viver assim estaria longe do que é viver. Os mortos vivem assim. Os não regenerados vivem mortos. Quem está vivo que viva. Que nossa preocupação com o outro seja baseada na ajuda e não no julgamento. Ou será que essa trave no nosso olho não tem atrapalhado nossa visão? O fato da casa do vizinho estar suja não me dá o direito de pular o muro, arrombar a porta, pegar a vassoura e fazer uma faxina fantástica sem a autorização do proprietário. Eu posso varrer à vontade a minha sala, o meu quarto. Devo orientar, instruir, exortar. Contudo, não sou responsável pela higiene alheia. Devo me santificar, buscar a santidade de Deus para a minha vida e, quando isso acontecer, vou perceber o quanto de bom eu fiz para todos ao meu redor.

            Deixo-vos com outra frase de Nietzsche. “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos ser aos olhos dos que não sabem voar”. Não que esteja me gloriando, afirmando ser um ser mais elevado. Longe de mim. Não sou elevado de maneira nenhuma. Gosto de voar. Meus pensamentos voam longe. Todavia, como as gaivotas, sempre volto ao ninho. O fato é que não retorno de mãos vazias. Trago algo novo, diferente. Um alimento novo. Provo primeiro, para ver se não contém nenhum veneno. Quando me sinto alimentado com aquilo que achei, divido com meus filhotes. Uns desejarão mais. Outros estarão tão conformados com o alpiste padrão que nem vão querer dar uma bicadinha sequer na nova iguaria. E assim vou vivendo, sabendo que os pensamentos de Deus são mais altos que os meus. Sendo assim, como alcançá-los com os pés no chão?
             

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

                                                        Nietzsche

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O que perdi?

            Perdas. Quem não já passou por isso? Estamos vulneráveis a perdas, por mais que a famigerada Teologia da Prosperidade diga o contrário. As mensagens triunfalistas e assoberbadas tem me revoltado de maneira atroz. Muito pelo fato de presenciar pessoas frustradas dentro das igrejas pelo fato da vitória prometida não se concretizar. E quando não acontecem os milagres, o impossível, a responsabilidade é divina. Ele tinha a obrigação de ter realizado meu sonho. Ele é Deus. Ele pode tudo. Está tudo errado. Enganamo-nos profundamente se imaginamos Deus como o gênio da lâmpada de Aladim. Nós é que devemos servi-lo e não o oposto disso.

            Quantas promessas já foram feitas a mim? Perdi a conta. Profetizaram que iria viajar pelo mundo inteiro a cantar. Perdi minhas esperanças que isso aconteça. Perdi também muitas coisas. Sempre estou perdendo. Perdendo a paciência. Perdendo as forças. Se eu estivesse dentro de um videogame, diria que meu "life" está se esvaindo. Preciso achar a caixinha de primeiros socorros, aquela mesma com a cruz vermelha. Preciso mudar.

            Essa era a intenção de um dos filhos de profetas que estavam com Eliseu. Tudo registrado no sexto capítulo do Segundo Livro dos Reis. O lugar estava estreito demais. Precisavam de um lugar maior.  Sabe quando não cabemos mais dentro de nós mesmos? Pois é. Crescemos e as estruturas encolhem. As roupas já não cabem mais nos bebês. Os sapatos não entram mais nos pés infantis. É a maturidade citada por Paulo à Igreja em Corinto. Quando era menino, falava, sentia, pensava como menino. Porém, crescemos e abandonamos as coisas de menino. O mundo parece um bairro. Queremos ganhar o mundo. Viajar, conhecer outras culturas. Não nos conformamos com nossos limites. Queremos mudar, expandir os horizontes.



            Na verdade, todo crescimento exige mudança. É necessário romper o casulo. Deixar de ser girino. Sair do estágio larvar. Deixar pra trás o exoesqueleto. Trocar de pele. Conseguiram entender? Quando nos sentirmos que não nos cabemos mais, quando nos incomodarmos com toda essa estreita prisão, é hora de mudar. Ficamos presos nas angústias do passado, nas lembranças, na saudade. São situações mal resolvidas. São trapos e faixas, resquícios de morte, que mesmo após ressuscitarmos, continuam cerceando nossos movimentos. Temos que resolver as pendências. Pra ontem.

            Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós. Um dos rapazes do texto bíblico sugeriu a Eliseu: "Vamos cortar madeira". Todos concordaram, inclusive o profeta. Enquanto a alegria da mudança, da casa nova, da renovação nutria o coração dos mancebos e do próprio profeta, surgiu um imprevisto. Aconteceu um acidente. Um dos inexperientes lenhadores perdeu seu instrumento de trabalho. O machado caiu no rio. E agora? O que fazer? Que atitude tomar quando aquilo que parecia simples, fácil, tranquilo, torna-se um problema?

            A única coisa que sabemos fazer é reclamar. Gritar. Esbravejar, mesmo que não tenha nenhum ser humano para nos ouvir.  A nossa atitude diante dessas perdas de machados, dracmas, ovelhas ou até mesmo filhos sempre é de um desespero humano. Aprender a respirar fundo é essencial. Na hora do sofrimento, devemos ter a certeza de que o Criador dos seres humanos nos ouvirá. Não podemos jamais ficar só observando nossos machados caírem no rio. Afundando, afundando, afundando...E não fazermos nada. Não vamos inserir um olhar de paisagem em nosso rosto diante dos prováveis fracassos. Precisamos fazer algo. Nem que seja gritar.

            O descuidado jovem gritou. Deve ter sentado ao lado da árvore ou dos pedaços de madeira cortados anteriormente e chorado. Havia uma outra situação complicada para ser solucionada. O machado era emprestado. Não era dele. O dono era outro. Perder o que é seu é uma coisa. Perder o que não lhe pertence é terrível. Tenho que cuidar bem do que é dos outros. Daí me vem uma pergunta. Será que eu me pertenço? Será que eu sou meu? A resposta vem automaticamente. Não! Você não se governa. Há um Deus que é seu dono. Somos propriedades Dele. Precisamos cuidar bem de nós mesmos então. Não podemos nos perder. O mundo é repleto de atalhos, caminhos mais fáceis e atraentes. Um belo par de pernas pode fazer qualquer homem perder a cabeça. Um prato de lentilhas, na hora da fome de colar a barriga com as costas, é um prato estufado de perdas. Disso sempre tive medo. Medo de me perder.

            E se Ele quiser nos procurar? Ele vai nos encontrar? Talvez correremos para o primeiro arbusto, arrancaremos algumas folhas e confeccionaremos trajes para esconder nossa vergonha. Perder causa vergonha. Deus nos deu algo tão precioso que é uma decepção imensa ver escorrer entre os nossos dedos essa dádiva. Por mais que fujamos para as montanhas mais altas ou para os mais profundos abismos, Deus nos encontrará. Porém, tomara que não nos encontre perdidos demais, sujos demais, arrebentados demais pelas consequências de nossos atos.

            Há uma saída. Lembrar onde caiu o machado. Como começou a tragédia? Uma conversa despretensiosa? Uma negociação ilícita? Uma ausência de perdão, fomentada pelas lembranças constantes e até mesmo por vinganças cruéis? Começamos a perder quando temos medo de ganhar, principalmente quando para vencer é imprescindível abrir mão de algo. Saber qual a origem da perda pode ajudar a nos mostrar onde queremos chegar. Eva começou a perder quando ouviu quem não deveria. Adão, ao aceitar a proposta de que poderia ter bem mais do que Deus já tinha lhe garantido. E assim caminha a humanidade até hoje.
           
            Os erros passados explicam as dores de cabeça constantes. São raízes que tem que ser arrancadas. Feridas, ainda abertas, alvos de infecções corriqueiras, que tem que ser suturadas, fechadas, cicatrizadas. Buracos, crateras na alma que pedem para ser entulhadas. Abismos que precisam ser atravessados. 


            E qual a ponte? Como atravessá-la? Como encarar as perdas? Um dia, uma cruz foi erigida. Nela, foi pregado aquele que faz flutuar machados. No mesmo Jordão, onde o machado caiu, Ele foi batizado. Naquela cruz, Ele bradou: Está consumado! Ele tombou. Caiu, mas se ergueu novamente, flutuou, foi assunto aos céus. Esse machado hoje está posto à raiz das árvores para cortar as que são encontradas infrutíferas. Onde nos perdemos? Onde estão nossos frutos? Nós sabemos o que fazer. Nós sabemos o que pedir.

            Que as vitórias não alcançadas não nos façam perder a fé. Que as esperanças não estejam baseadas apenas por vista, mas por crer que Ele não nos abandonará. Que a dor de perder algo ou alguém não possa ser curada transferindo a culpa dos acontecimentos trágicos meramente casuais para a Onipotência Divina. No mundo teremos aflição, essa sim foi uma promessa cumprida.  O mundo é cruel. Que eu possa entender minhas derrotas como lições, provas, e até mesmo conquistas, pois, às vezes, perder pode ser ganhar.
            A vida não é um jogo onde a sorte e o azar se digladiam. Li certa vez um conto interessante. Um homem vivia com seu filho na sua fazenda e possuía apenas um cavalo. Certo dia, este cavalo fugiu. Seus vizinhos vieram consola-lo e diziam: “Você é um homem de azar, possuía só um cavalo e agora perdeu tudo”. Mas o homem, simplesmente disse: “Não sei não. Não sei se foi sorte ou azar... Pode ser que sim pode ser que não...”. Os vizinhos exclamaram: “Mas é lógico que é azar. Você está doido, como pode ser sorte?
            Passou-se um tempo, e o cavalo voltou com vários cavalos selvagens. Os vizinhos voltaram, assombrados e perplexos e disseram: “Você é um homem de sorte, agora ficou rico com tantos cavalos”. Novamente, o homem replicou: “Não sei não... Pode ser que sim, pode ser que não...Desta vez, os vizinhos ficaram bravos com ele: “Mas como pode dizer isto? Evidente que é sorte, pois você se tornou rico. Realmente você está ficando doido”. Mas o homem continuou tranquilo sem se perturbar. Um dia, seu filho único resolveu domar um destes cavalos selvagens, mas caiu do cavalo e quebrou a perna e precisou ficar engessado bastante tempo. Os vizinhos lamentaram a má sorte do homem: “Você é mesmo um homem de azar. Tem somente um filho que é seu apoio, sua ajuda e agora lhe acontece isto. E sabiamente, o homem respondeu: “Não sei não... Não sei se é sorte ou azar... Pode ser que sim, pode ser que não... Os vizinhos se afastaram com raiva e ao mesmo tempo com pena daquele homem que não entendia nada e estava fora de seu juízo.
            Pouco tempo depois, uma guerra violenta foi iniciada e todos os filhos dos vizinhos foram convocados para a guerra. Mas o filho deste homem por estar com a perna quebrada foi poupado. Desta vez, os vizinhos voltaram cabisbaixos e exclamaram: “Você é um homem sábio, é um homem de sorte”. E o homem, tranquilamente, respondeu: “Não sei não, pode ser que sim pode ser que não...
            Não sabemos o que acontecerá hoje, amanhã, daqui a um ano, vinte anos, quarenta anos. Não podemos prever o futuro. Entretanto, entendo que tudo coopera para um bem maior. Os planos de Deus não se frustram e, por mais que eu perca no decorrer da vida, vou me esforçar ao máximo para que os sonhos de Deus na minha vida se realizem. Se tudo der certo, como dizia Confúcio, será ming, o destino. Se nada der certo, também será ming, o destino. Para nós, fica o entendimento. Luto ao máximo para que a vontade de Deus sempre prevaleça. E me sentirei assaz feliz com o resultado final.

Do que sinto falta?


            Saudade é uma palavra que existe apenas na língua portuguesa. Contudo, é algo tão forte, tão intenso que pode gerar dores lancinantes na alma de alguém. Parece que pedaços nossos vão ficando no percurso da vida. Partes que se desprendem, deixando vazios quase impreenchíveis. Sinto falta de muita coisa, de muita gente. As brincadeiras no recreio no Colégio Felipe dos Santos, onde lutávamos pela artilharia de um campeonato de futebol de salão com tampinhas de refrigerante substituindo a tão importante bola. As medalhas que eu ganhava, não atléticas ou esportivas, mas em olimpíadas de matemática. De quando cantava o hino nacional sobre a mesa da sala de aula, com apenas cinco anos de idade, para toda a escola ouvir e se admirar. De quando era convidado para ser o orador, patrono ou paraninfo das formaturas colegiais.
            Saudade de ver as corridas do Ayrton Senna nas madrugadas de domingo, deitado no colo do meu pai. Dos banhos de chuva, principalmente nas biqueiras (chamamos assim por aqui) que se formavam a partir dos telhados e das calhas das casas. De jogar bola no quintal da minha casa, de comer seriguela diretamente da árvore, de caçar calangos para dissecá-los e apresentar na semana cultural do colégio. Lembro-me de minha mãe nos levando ao colégio e puxando minha mochila num carrinho, para não danificar minha coluna. Mal sabia que anos mais tarde a odontologia estragaria minha coluna do mesmo jeito. Sinto falta do Conjunto Filadélfia, onde comecei a gostar de louvar a Deus. Da Banda Quarta Dimensão, das viagens e dos eventos inesquecíveis, de quando tínhamos que empurrar o carro que transportava o nosso som quando íamos tocar em algum lugar ou quando ficávamos espremidos na carroceria, segurando as caixas e os instrumentos para que chegassem intactos ao destino e fizéssemos o que mais gostávamos de fazer.
           
            Quanta saudade. Da minha primeira viagem de avião, dos micos que paguei em hotéis, sem saber que o cartão que me fora entregue servia para ligar a energia do quarto. De ficar abraçado com meu irmão, ainda bem pequeno. De abraçar meu filho, mesmo que ainda faça isso, mas não deixo de querer repetir sempre. Lembro como se hoje fora do primeiro beijo que Helane, minha esposa, roubara de mim. Sinto saudade dos telefonemas eternos, das músicas românticas compostas, das paqueras adolescentes. Cada momento é guardado com tanto carinho que poderia passar dias e horas tentando descrever todas as minhas recordações.
            Saudade. Saudade da Igreja Batista Vale de Benção. Dos Congressos, Aniversários, Festas de Israel. Dos amigos pastores e principalmente de um dos melhores amigos que tive em toda a minha vida. Alguém que não era só um amigo. Ele era, como costumava dizer, um irmão mais velho. Tivemos que deixar o ministério e, consequentemente e dolorosamente perdi um grande amigo. Mantenho de forma indestrutível o apreço que tenho pela sua família. Pastora Damares, uma segunda mãe. Débora, Jonatas, irmãos com outro sangue.  Estivemos juntos nos momentos felizes. Estivemos abraçados nos momentos de dor.
            Se eu o amava tanto, por que o abandonei? Não preciso responder. Durante metade da minha vida servi ativamente no ministério ao qual Deus me confiou. Nunca usurpei por poder ou títulos. Sempre achei estranho ser chamado de pastor, como já desabafei anteriormente. Responsabilidades grandes me foram confiadas desde jovem. A pressão sempre foi gigantesca. Muitas vezes, esperavam perfeição de onde apenas pode sair uma mera natureza humana, verdadeiramente regenerada, mas ainda assim em obras. Estamos realmente em obras.
            Todavia, o meu processo de reforma sofreu uma baixa. Perdi um mentor espiritual. Alguém em quem me inspirava. Vi um castelo erigido por anos ruir diante dos meus olhos. Ele era uma referência pra mim e para muita gente. Antes que os incautos ou ignorantes sob a capa do gospelmente correto ou da conduta "espiritualmente" ilibada, venham com acusações de que minha inspiração deve ser Cristo, quero deixar claro que tenho consciência disso. Não apenas sigo a Cristo. Não apenas sou inspirado por Jesus. Eu o sirvo. Contudo, aqui na terra existem pessoas dignas de aplausos e admiração. Eu me espelhava nele. Ele foi meu grande mestre. Pr. Darckson partiu. Ele foi tirado de mim. Um crime horrendo, inexplicável, inaceitável. E eu sofri. Até hoje sofro. Ele será inesquecível.
            Dessa forma, não preciso responder aos que dizem que meu sofrimento foi falso. Não preciso responder aos que dizem que eu o abandonei. Não preciso responder aos que dizem que fui um falso amigo. Não preciso responder aos que me interromperam durante à minha última homenagem. Sim, fui quase expulso do velório do meu amigo por pessoas que não compreendiam e que jamais compreenderão que o verdadeiro amigo não é o que encobre erros, mas o que apresenta direções para que sejam corrigidos. Não preciso responder aos que pensam que eu não amava aquele que foi meu pastor por mais de 15 anos. Não preciso responder.
            Apenas sinto falta. Confesso que ainda sinto muito. Sinto muito não ter falado uma última vez com ele. Não ter dado um último abraço. Não ter assistido com ele um show do inconfundível Cauby Peixoto (isso estava na nossa lista de coisas a fazer antes de morrer). Não ter cantado Meu Universo uma última vez. Ele ficará eternizado no meu primeiro CD, cantando a música És que cantamos juntos durante anos e anos. A saudade é infinita. Muitos podem não entender quando separações são necessárias. Porém, a história, o passado ninguém vai apagar.

            O que somos hoje é o resultado dessa saudade. Os fragmentos restantes do nosso ser são nossas experiências, o que sobrou das perdas. Não preciso responder. Preciso apenas viver. Aos que permanecerão me acusando, sinto muito. Aos que continuarão rancorosos, sinto muito. Continuarei os amando como sempre amei. Como aprendi certa vez, Jesus continuou sendo Jesus apesar de Judas. A gente dá o que a gente tem. E não consigo ter outro sentimento a não ser amor.
           


            Quando a voz do homem é como um trovão, sua vida é como um relâmpago. Nossas lembranças são como flashes. Rápidas, nos cegam. Depois, precisamos de algum tempo, segundos, minutos, para nos recuperar. Devemos trazer à memória o que nos dá esperança, já dizia o profeta. Fechamos os olhos por achar que num piscar o tempo voltará. Mas não volta. A partida dói porque parte de nós é arrancada. A vida continua. Compreendo a marcha e vou tocando em frente, como na letra de Almir Sater. Continuo a nadar, mesmo que já tenha quase me afogado antes. Esse é o segredo da vida. A saudade não deve nos assombrar. Pelo contrário. O passado deve nos encorajar a continuar a viver. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Casamento é obra de Deus?

Desde que aprendi a tocar e cantar, em meados dos anos 90, sou convidado para participar de casamentos. Das cerimônias mais refinadas em luxuosos buffet às mais simples, sempre fui com carinho. Primeiro pelo fato de que a música é um hobby pra mim. Gosto de música. Em casamentos, podemos tocar de tudo um pouco. Desde as românticas canções do Novo Som, até Ilariê e Balão Mágico. Nunca esqueço o dia que tentei até imitar o Fábio Jr., mexendo nos poucos cabelos que restavam na minha nuca e gritando "Brigadú" para o delírio da platéia. Quero deixar claro que era um casamento de evangélicos, mas o casal queria fazer média com os convidados. Contudo, em noventa por cento dos casos, animava as festas de graça. Pois é. As noivas pagam tudo. Comida, decoração, roupas, filmagem, fotografia, mas geralmente me pediam para abençoar o casal com meus dotes artísticos. Passei então a usar essa frase polêmica. Casamento não é obra de Deus. Como ousas dizer algo assim, pastor?

Quero deixar claro que nunca cobrei pra tocar em nenhum evento evangelístico, congresso, culto de senhoras, de adolescentes, de jovens, de idosos, em praças, em casas, no sul, no norte, viajando ou não, desde que essas programações fossem com o intuito de adorar ao Senhor. Constrangia-me participar de feijoadas, cachorradas, sorvetadas. Cantávamos enquanto as pessoas comiam, conversavam, namoravam (até nos fundos de igrejas ou dentro delas). Era incoerente. Contudo, cansei. Desde então, passei a cobrar para cantar em cerimônias. Os convites diminuíram assustadoramente por sinal. Ainda fizemos algumas festas pagas com cheques voadores. Como não vivo disso, fiquei tranquilo.

Não apenas toquei em casamentos. Casei muita gente também. Como pastor, essa também é uma das minhas possibilidades. Eu posso ministrar bençãos sobre um casal. E fiz isso. Muitas vezes. Gosto de usar algumas frases em meus sermões. Nas alianças, por exemplo, sempre falo da matemática, onde o anel sozinho não representa nada, mas os dois juntos formam o símbolo do infinito. O ouro passou pelo fogo para tornar-se uma aliança, personificando as lutas e tribulações pelas quais o matrimônio deve passar e se manter de pé. É um círculo, onde não há começo, nem meio, nem fim, confirmando a indivisibilidade e a longevidade do casamento. Não são clichês. Eu acredito mesmo nisso.

Entretanto, todo esse desvio, falando da festa de casamento, serviu apenas para que chegasse ao ponto central. Casamento é obra de Deus, mas é bem mais obra do casal. Quero dizer com isso que é falta de vergonha culpar Deus pelas tragédias nupciais. As brigas sempre acontecerão, mesmo nas famílias mais tradicionais, pentecostais, religiosas que possamos imaginar. E não é culpa de Deus. Cônjuges maquiam a união de mãos dadas levando os filhos à igreja, quando em casa vivem uma legítima zona de guerra. E pasmem. Na maioria esmagadora das vezes, os problemas ministeriais e a absurda super espiritualidade travestida são as principais causas das desavenças familiares. Homens extremamente autoritários submetem suas esposas à submissão hiperbólica aconselhada por Cristo e desvirtuada por eles próprios. Santas mulheres regentes de coral transformam a vida de seus rebentos num verdadeiro inferno, enchendo as pobres criaturas de proibições e surras homéricas, escandalizando toda uma vizinhança. Não são belos testemunhos?

A realidade é que casar não é comer cajá, já diziam os antigos. Relacionamento é uma arte difícil. Encontros de casais tentam ensinar o que realmente aprendemos sozinhos. O casamento é uma escola particular. Apesar das mulheres acharem que homem é tudo igual e vice-versa, não é bem assim. As experiências compartilhadas nesses grupos e ministérios de família são muito importantes. Contudo, uma das principais falhas dessas pseudo-terapias é o fato de estabelecerem uma relação tipo "Eu sou o fulano da ciclana" e " Eu sou a ciclana do fulano". Essa premissa "eu sou dela e eu sou dele" não engloba a âmago do relacionamento de respeitar as individualidades. Não casamos para nos completar. Devemos ser felizes ou realizados em nós mesmos, até porque essa felicidade é algo pessoal. Minha esposa me complementa. Ela é uma adjutora, ajudadora. Além disso, o marido não é propriedade da esposa, mas sim um adendo, um anexo, um apêndice. Dessa forma, essa mutualidade deve existir sem cobranças ou dependências, sem barganhas ou exigências esdrúxulas.

Ah, mas a Bíblia diz que são uma só carne. Sim. Ser uma só carne não é ser igual. Somos diferentes. Nossa mente masculina nunca entenderá a famosa TPM, que transforma a mulher numa bomba relógio, manuseada delicadamente e com a convicção que os diálogos nesse período devem ser de forma a que o fio correto seja cortado. Qualquer erro pode gerar uma hecatombe. As mulheres jamais entenderão nossa "Caixa do Nada", como ouvi certa vez do Pr. Cláudio Duarte. Há momentos que simplesmente não pensamos em absolutamente nada. Queremos apenar viajar no vazio de nossa imaginação, onde as contas a pagar se misturam com as imagens dos carros vistos nas concessionárias ou dos gols perdidos pelo time do coração. Vivemos mundos diferentes, essa é a verdade. Por isso, casamento é difícil.

O que fazer então? Uma palavra define isso tudo: Respeito. Preciso respeitar minha esposa, assim como ela deve me respeitar. Não devemos invadir o espaço particular. Dizem os psicólogos que nos sentimos constrangidos em um elevador porque cada um de nós tem um espaço de 1m² que nos pertence no mundo e termos esse espaço invadido por desconhecidos nos causa esse incômodo. É o que chamam de invasão da bolha. Quando essa liberdade é cerceada dentro do relacionamento, a tendência é um desgaste sem controle. A bolha estoura e pode ser traumático. Quer ser feliz no casamento? Seja feliz mesmo sem o casamento.

Certa vez, um amigo me contou uma bela estória. Diz a lenda que um casal chegou para um grande sábio e perguntou qual o segredo do amor eterno. Eles queriam ficar juntos para sempre. O mestre pediu de que a esposa fosse à floresta e o trouxesse um gavião. Logo depois, pediu o marido para ir às montanhas e voltasse com uma águia. Os dois assim o fizeram. Voltaram ao sábio, cada um com a sua ave. O guru então pediu que o casal amarrasse os pés das aves em uma mesma corda, de modo que não pudessem se desvencilhar. As aves foram soltas. A águia ia para um lado. O gavião para o outro. Não conseguiam voar, pois estavam presos. Um preso ao outro. Perceberam então que só haveria uma forma de liberdade. A águia atacou ferozmente o gavião. O gavião revidava. Após inúmeras bicadas e sopapos, os dois estavam exaustos, feridos, despedaçados. As aves morreram. O sábio então olhou para o casal e disse: "Querem viver juntos para sempre? Sejam livres."

O amor não é um sentimento. É uma decisão. É uma escolha. Não deve ser mensurado pelo momento, pelo presente de aniversário, pelo abrir as portas do carro, pela caixa de chocolate inesperada em um dia qualquer. Claro, tudo isso é importante. É regar a planta. Todavia, não é o mais importante. Amar alguém é conhecer a outra pessoa de tal forma que não há surpresas. Não há nada que a outra parte venha a fazer que cause espanto. Vocês se conhecem. Vocês se amam. Deus nos ama exatamente por conhecer nossas fraquezas e vicissitudes. Ele sabe das nossas necessidades. Isso é amor. Isso é casar. Casamento é obra de Deus. Manter o casamento é responsabilidade do casal. Não devemos fugir disso.

Se eu ainda toco em casamentos? Sim, claro. Podem me convidar. Acertaremos o cachê e lindas músicas serão cantadas em sua cerimônia. Porém, não esqueça. Honre os músicos. Pague o que merecem. Afinal de contas, mesmo que eu não precise, há músicos profissionais que devem ser valorizados. Por causa dessa ideia de "fazer por amor a Deus" é que muitos músicos fantásticos acabam por tocar secularmente, onde verdadeiramente são reconhecidos, principalmente financeiramente. Falarei sobre isso depois. Até porque isso também me engasga.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Eu tenho fé?

Pronto. Vão afirmar categoricamente que não fui queimado pelo fogo. Sou cru. Duro, seco, sem cozimento. Ora, como diria o grande Zagallo, vocês vão ter que me engolir, mesmo mal passado. Minhas crenças são um pouco diferente da maioria, confesso. Mas eu tenho fé. O Apóstolo Tiago, na sua carta, fala sobre fé. Ele diz que a fé sem obras é morta. Ou seja, há pessoas que possuem uma fé viva e outras uma fé morta. Há uma fé que salva e uma fé que me deixa estagnado. Há uma fé que transforma e outra que não me muda em nada. Existe a fé que me movimenta e a que me mantém imóvel. A verdade é que não há um conflito entre fé e obras. Obras são consequências.

Ouvi durante metade da minha vida que a fé move o braço do Senhor. Nossas palavras ativam a percepção divina para os nossos problemas. Chamamos a atenção de Deus, pois o nosso Senhor tem uma infinidade de assuntos para se preocupar; logo, eu preciso gritar, balançar os braços como um boneco de posto, dar cambalhotas e piruetas transcendentais para que Ele me note. Engano. A fé não move os braços do Poderoso, até porque seus membros não estão paralisados. Deus não está tetraplégico. A fé serve para colocar as minhas mãos em movimento. É o que me faz atender meus pacientes todos os dias, exceto os domingos. É o que me faz olhar com carinho para os meus irmãos, amar as pessoas ao meu redor, respeitar meus pais, pregar o evangelho, trabalhar. Deus sustenta o Universo com a palma das suas mãos. Ele não está parado. Nós estamos?

Queridos, não precisamos pegar um pedaço de pau, como diria um bom cearense, revesti-lo de fé e ficar cutucando Deus. A fé está naquilo que eu faço e não no que Deus faz. Se alguém está com fome, não adianta nada eu orar: "Senhor, eis aqui a tua filha. Abre as comportas do céu. Prospera a vida dela. Eu libero o poder de Deus agora. Agoraaaaaaa. Recebaaaaaaa." Blá, blá, blá. E o prato de comida, a quentinha, a marmita? Deus não vai mandar um anjo alimentar a pobre irmã faminta. Eu tenho que fazer. Eu tenho que mostrar a minha fé. Eu profetizo. Eu libero a benção. Eu mando. Não mandamos em nada. Somos servos também. Deus nos chamou para servir.

Venham. Podem me estereotipar. Vocês acreditam em Deus? Creem que Jesus nasceu de uma virgem, viveu, morreu e ao terceiro dia ressuscitou? Acreditam que Jesus voltará? Pronto! Você acaba de ser aprovado da mesma forma que o diabo seria. A questão não está no que eu acredito, mas onde isso influencia. São as minhas atitudes. As nossas convicções devem nos mobilizar e não nos engessar de forma que apenas os nossos lábios se mexam. Ter fé é confiar sua vida aos cuidados de Deus. Submeter sua vida à vontade Dele. É sair do volante. Ele dirige.

Em todos esses meus anos de igreja, percebi muita incoerência entre o que é pregado e o que é vivido. Algumas pessoas passam a vida inteira tentando se justificar. Ah, estou bem com Deus. E com seu irmão? A fé que eu acredito, por mais pleonástica que essa expressão seja, inclui algumas variáveis. Como disse anteriormente, não é um relacionamento exclusivamente vertical, de foro íntimo com o Pai. A fé inclui o vizinho chato, a sociedade preconceituosa, o sujeito que riscou o seu carro com uma tampa de cerveja, a mulher rixosa que reclama da toalha em cima da cama, o filho que ficou de recuperação, o obreiro fofoqueiro que adoro abrir as portas do inferno, tudo isso. A fé é relacionamento horizontal também.

É fé. São obras. Ao contrário que muitos pensam, não estão separados assim. É automático. Se eu tenho fé, naturalmente as obras acontecerão. Os frutos são espontâneos. Imagine passar o dia inteiro na praia, ao calor do sol de Fortaleza, tomando uma água de coco, sem proteção alguma. Completamente exposto. Eu, que perdi meus cabelos mais cedo do que eu desejava, ficarei, sem dúvida alguma, tostado, queimado. Minha pele descamará. Meu couro cabeludo, desprotegido pela ausência capilar, ficará vermelho, depois preto. Ficará evidente que passei algum tempo acima do recomendado sob o efeito dos raios solares. Da mesma forma, quando somos expostos a Deus, há uma consequência. Ficamos queimados. Se eu sou cru? Estão por fora, utilizando a pura gíria. Eu fui queimado pelo sol. Contudo, não é a evidência que talvez muitos esperam. Prefiro estar queimado de amor a Deus e ao meu próximo. Assim eu creio. Logo, tenho fé.