NO QUE
POSSO CRER?
Sou
dentista. Um estudioso das áreas médicas. Dedico-me a cuidar de dentes,
devolver estruturas perdidas, melhorar a autoestima e proporcionar aos meus
clientes ou pacientes (como preferirem) o sonho de voltar a sorrir. Para isso,
estudar a Biologia foi fundamental, claro. Estudei a Teoria do Big Bang, hoje
já não tão aceita pelo próprio Stephen Hawkings, a Teoria da Evolução de Charles
Darwin e já tive que responder em várias provas que a vida surgiu de uma sopa
de coacervados, que formaram as bactérias, que foram se unindo, se
multiplicando, evoluindo, até surgir o ser humano. Para mim, isso é muito mais
difícil de acreditar do que no conto de Adão e Eva.
Adão,
Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia
do "Haja", quando, pelo poder da palavra, o Criador fez tudo.
Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada
lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e
se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão?
Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes,
índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais,
gentios, não-judeus encaram a criação?
Por
exemplo, o mito chinês da criação do
universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada
além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por
dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado
de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a
casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou
a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua
criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e
Terra e impedindo que eles voltassem a se unir.
Depois
de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o
trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo
deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem
à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram
as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas
as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas
que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram
carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se
espalharam pelo mundo.
No
mito hindu, Brahma começou do nada. Apenas com o
pensamento, ele criou as águas em que depositou seu sêmen. Isso se transformou
em um ovo de ouro, do qual ele nasceu. Por pensamento novamente, ele dividiu o
ovo em dois, e as metades se tornaram o céu e a terra. Brahma cresceu sozinho e
dividiu-se em dois para formar o homem e a mulher. Em uma variação da história,
Brahma divide-se repetidamente em dois até que todos os seres vivos do mundo
sejam criados a partir de seu corpo. Em outra versão, o primeiro homem e a
primeira mulher se reproduzem em diferentes formas animais até que todas as
formas de vida são criadas.
Juntos, Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o
Destruidor) compõem o Supremo. Cada universo que Brahma cria é destruído por Shiva,
depois do qual não há nada, a não ser um vasto oceano em que Vishnu flutua,
repousando sobre uma grande cobra. Em algumas versões do mito, Brahma não vem
de um ovo, mas a partir de uma flor de lótus que brota do umbigo de Vishnu.
Eventualmente, o nosso mundo também será destruído por Shiva, e o ciclo vai
começar de novo.
Já segundo a lenda escandinava, antes de
existir o tempo, havia um lugar de nevoeiro e gelo chamado Niflheim. Do outro
lado, havia Muspelheim, onde demônios e gigantes do fogo moravam. O fogo de
Muspelheim eventualmente derreteu o gelo de Niflheim, que pingou e formou uma
vaca gigante chamada Audhumla e um gigante gelado chamado Ymir. Mais gigantes
cresceram a partir do suor da axila de Ymir e foram amamentados por Audhumla,
que criou mais gigantes lambendo blocos de gelo salgado.
Estes
gigantes acasalaram e deram à luz ao deus Odin e seus irmãos. Odin e seus
irmãos mataram Ymir e a terra foi feita a partir de sua carne, o céu de seu
crânio, o mar de seu sangue, as nuvens de seu cérebro, as montanhas de seus
ossos e as árvores de seu cabelo. Odin construiu Asgard como uma morada para os
deuses e a ligou a Midgard (Terra) por uma ponte de arco-íris chamada Bifrost.
As larvas no cadáver de Ymir se tornaram anões que ficaram abaixo da superfície
da terra, no que restou do corpo do gigante. Os deuses encontraram dois troncos
de árvores em Midgard e deram vida a eles, criando Ask e Embla, o primeiro
homem e a primeira mulher.
Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com
seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal.
Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os
olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares. O Adão pode ser simbólico, a humanidade sendo
criada, uma forma que Moisés encontrou de descrever o processo. A humanidade,
então, precisaria de alguém ao seu lado, pois se sentia solitária no jardim.
Precisaria viver em comunhão vertical e horizontalmente, com Deus e com os
outros seres humanos. Nessa perspectiva, a mulher é criada da costela do homem,
devido ao seu posicionamento horizontal no esqueleto, protegendo órgãos
essenciais para a vida e ligada perpendicularmente à coluna vertebral,
vertical, com suas conexões direcionadas ao cérebro, ao alto. Seria o osso
perfeito para descrever a origem da mulher. Porém, são apenas conjecturas.
Seria um novo olhar. Não obrigatoriamente meu. Não definitivamente certo.
O
homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo
autodestrutivo. É expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O
prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser
humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói
uma cidade. A cidade é o jardim humano. Deus é expulso do jardim humano. Os
filhos de Caim resolvem viver sem Deus. E assim a desgraça começa. Vem dilúvio.
O homem Noé sobrevive. Afasta-se de Deus. Sodoma e Gomorra são destruídas com
fogo. O homem Ló é preservado. Abraão, Isaque, Jacó, José. Há uma Terra
Prometida. O homem vai ao Egito. Não era lá. Após inúmeras pragas e um mar
aberto, o povo estava livre da escravidão. O que o povo faz? Afasta-se de Deus.
Deserto, muralhas, muitas batalhas. O homem entra na terra. O que ele faz? Afasta-se
de Deus. Querem um rei. Deus não é suficiente. Saul, Davi, Salomão. Divisão.
Escravidão. E assim é até os dias atuais. Quanto mais longe de Deus, mais
desgraças acometem a humanidade.
Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta
reinando, sob a ótica anticristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos
tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Jerusalém, Roma, Londres, Rio,
São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, entra na nossa
história o novo Adão. Jesus, o Cristo, que morreu na cruz do Calvário,
ressuscitou ao terceiro dia, derrotou todas as forças do mal e nos deu o
direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O
Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. A visão do apocalipse
se torna então com dragões e serpentes tentando dominar e controlar os seres humanos
em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da
época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos
leões nas arenas romanas?
Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as
Escrituras. Óculos vermelhos me fazem ver tudo avermelhado. Se forem verdes,
tudo fica esverdeado e assim sucessivamente. Podemos ver Deus como um carrasco,
um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que
oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por
outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não
nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar
com Ele por meio dessa última opção.
E
o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a
injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver
no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão
incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há
quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser
relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que
pregar se Deus já escolheu os salvos?
Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso.
Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a
esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar
após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam
um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha
pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para
algo tão gostoso e deliciosamente atraente. É poder dizer não, quando o
mundo diz sim. É dizer não aos pratos visualmente saborosos por entender como
os mesmos foram preparados.
Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais
alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar,
vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns
casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai
carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as
nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e,
dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos
esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e
miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas
misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas
lamentações. E é a mais pura verdade.
E o meu direito de escolha? Nunca tive dificuldade em fazer
escolhas. Não que as decisões que tenho que tomar não sejam importantes. Muito
pelo contrário. Todos os dias me vejo decidindo, quer seja a respeito de
assuntos eclesiásticos, familiares, odontológicos, bem como assuntos essencialmente
pessoais. Geralmente, minhas escolhas são rápidas e objetivas. Pode ser até um
defeito, mas me adapto facilmente, tanto para o que me incomoda, quanto para o
que não me causa nenhum efeito. Enfim,
não é o caso da maioria.
Havia um governador romano chamado Pilatos. Esse teve
algumas dificuldades de escolher no que acreditar. Era cheio de dúvidas.
Repleto de perguntas. Na verdade, seus questionamentos não eram particulares.
Eram puramente humanos, perfeitamente nossos. São perguntas que fazemos sempre.
São dúvidas recorrentes para todos. No
Evangelho de João percebemos isso. Vou chamar essas questões de dúvidas pilatianas.
Como eu gosto de neologismos! Já perceberam isso, não é?
Jogarei a responsabilidade sobre os ombros de um
"pecador". E quando esse pecador é Pilatos soltamos fogos de
artifício. Há personagens bíblicos que são perfeitos vilões, como Judas
Iscariotes, Faraó, Golias, Herodes, Nabucodonosor. Pilatos está nesse rol. Caifás
e seus comparsas levam Jesus ao Pretório. Todavia, os sacerdotes não entram no
recinto. Segundo a tradição. eles poderiam se contaminar (oh quão puros somos,
não é?). Afinal de contas, a Páscoa se aproximava. Alguém ia morrer. O lugar
estaria manchado com o sangue de alguém. Os líderes religiosos da época não
admitiam entrar em um lugar impuro. Botão da hipocrisia acionado. Eles eram
muito santos. Acho que já falei sobre isso. Não vou tocar mais nesse assunto. Talvez
sim.
Jesus então está diante de Pilatos. Algumas perguntas são
feitas em relação ao Mestre. Vamos tentar aprender com elas. Que
acusação trazeis contra este homem? Que acusação trazemos contra Jesus? Por
que o culpamos de tudo? Por que se o carro quebra a culpa tem que ser de Deus?
Por que se o filho adoece, reclamamos e dizemos que não aceitamos, que somos
filhos de Deus, que isso não pode acontecer, e bla blá blá? Trazemos inúmeras
acusações contra Ele. E Ele é o menos culpado de tudo. Se nós colhemos,
colhemos o que plantamos. Lei da semeadura. Somos resultado de nossas decisões,
de nosso livre arbítrio. Bactérias não podem ser demonizadas nem Jesus pode ser
responsabilizado pela ausência de manutenção nos veículos dos
"santos".
Vamos
acusar Jesus de quê? É triste ver que nossa sociedade e,
pasmem, nossas igrejas estão repletas de acusadores. Que provas aqueles
sacerdotes tinham contra Jesus? Provas verbais. Fofocas, na verdade. Disse-me-disse.
Posso acreditar em algo só pelo fato de alguém comentar? Lembro-me de um
comediante americano chamado Tom Segura que contou um fato interessante. Seu
pai há muito tempo atrás havia dito que o ator Tommy Lee Jones era gay. Desde
então, Tom passou a vida inteira dizendo para todo mundo que o ator era
homossexual. Os filmes perdiam a importância. O fato primordial era a
homossexualidade do astro. Até que, anos mais tarde, quando já era um humorista
famoso, Tom, ao conversar com um outro ator de Hollywood, contou-lhe a mesma
fofoca. Tal foi sua surpresa quando o ouvinte, na verdade, era amigo de
infância do respectivo e que conhecia toda a família de Tommy Lee Jones,
esposa, filhos, pais e que ele não era gay. Tom então liga para o seu pai e
conta a novidade. “Quem disse pra você que Tommy Lee Jones era gay?” O pai de
Tom simplesmente respondeu: “Ninguém. Eu pensei que fosse”.
Pilatos estava corretíssimo. Era necessária uma acusação
com fundamentos. Não tinham. Havia outra
pergunta a ser feita. És tu o rei
dos judeus? Ah! Agora Pilatos começa a se preocupar. Ora, um governador é
submisso ao seu rei. Surge a possibilidade de concorrência na mente. Pilatos
deixaria de ser "a pessoa com quem se resolve as coisas" dos judeus.
A autoridade política de Pilatos corre perigo. Daí a preocupação. Jesus é rei? É comum ver pessoas agindo da mesma
forma quando estão se sentindo ameaçadas. Quem é esse funcionário novo? Será
que ele vai roubar o meu lugar no louvor? A mensagem desse obreiro arrancou
mais aplausos que a minha. Será que o povo vai gostar mais dele do que de mim?
Será que essa igreja que abriram aqui perto vai roubar minhas ovelhas?
Que pensamento estúpido! Jesus é Rei. Você é você. Não devo
aumentar meus esforços para parecer melhor aos olhos dos meus “concorrentes”,
mas tenho que elevar minha qualidade por mim mesmo. Quando a ameaça chega, refazemos a
mesma pergunta sucessivamente (por mais exagerado que seja meu pleonasmo).
Esquecemos que Jesus é Rei. Perguntamos como João Batista, a Voz que clamava no
deserto, em meio ao desespero e à ameaça, se existe ainda outro rei. O Grande
Rei nos serve quando somos súditos prósperos. Quando a crise aperta, o primeiro
a ser crucificado é o rei. Quão submissos somos, não é?
Jesus
responde a Pilatos com outra pergunta: "vem de ti mesmo esta pergunta ou
disseram outros a meu respeito? Puxa vida, Pilatos! Nem opinião própria você
tem? Pare de ser influenciável. Seja você mesmo. Tudo bem, está perdoado. Pilatos não
era judeu. Não conhecia Jesus. Realmente, precisava ouvir uma outra versão da
história, o outro lado da moeda. Pilatos precisava saber a verdade.
Daí surge a derradeira pergunta: Que é a verdade? Pergunta errada. Os
budistas tem a sua verdade. Os xantoístas, hindus, católicos, protestantes,
espíritas, TJ's, adventistas também. Os islãmicos encontram verdade em amarrar
bombas no corpo e se explodir. Os judeus são tão cheios de verdades que parecem
ser realmente verdadeiros. E são. Verdadeiros nas suas verdades. A pergunta foi
mal formulada. Pilatos deveria ter perguntado QUEM É A VERDADE. A VERDADE
ESTAVA DIANTE DE PILATOS. A verdade que apaga todas as dúvidas, humanas e
pilatianas. JESUS. ELE É A VERDADE! Estou
feliz com a minha verdade. E não tenho dúvidas em relação a isso. Lavo as mãos
por higiene, não por covardia, nem muito menos por duvidar. Pilatos escolheu
não escolher. O que é melhor?
No que posso crer? A pergunta
certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia
nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa
conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de
fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a
navegação corporal, tenham que se casar. Por que, meu Deus? Por que????Tentarei responder
mais adiante. É somente a ponta do Iceberg. E, como diz uma música que eu gosto
muito, se a ponta do iceberg já é maior do que o Everest, imagina a raiz?