domingo, 18 de setembro de 2016


Lucas 13
Como Deus pode me ajudar?
            Jesus narra que Pilatos estava misturando sangue de galileus nos sacrifícios. Pessoas estavam sendo sacrificadas em cerimônias pagãs. Por que tem gente que sofre mais do que outros? Jesus questiona se os que sofrem são piores do que nós. Ele diz que não. Fala sobre uma tragédia que aconteceu. Uma torre que caiu sobre algumas pessoas. Como tetos de igrejas, marquises, aviões que caem. Vocês acham que essas pessoas são piores do que os que estão vivos hoje? Qual nossa vantagem sobre eles? Os pastores da igreja que cai estão em pecado?
            Um pai que está na emergência do hospital com seu filho doente é mais pecador do que você? Uma família que esta em falência é pior do que você? Vocês acham que os judeus que morreram no holocausto nazista, ciganos, homossexuais, era piores do que nós? Os sírios que estão procurando um abrigo são piores do que nós? Será que você ainda tem essa idéia de que quando uma coisa aconteça na sua vida de ruim foi o diabo? Você pensa que gente que morre de bala perdida, em acidente de ônibus, merecem?
            Se você acha isso, eu tenho pena de vc. Todos estamos sujeitos a isso e no dia que isso acontecer você não estará preparado. A parábola que Jesus contou é o que interessa, mas antes preciso dizer algumas coisas:
1.    Ninguém é uma ilha. Se cair um ônibus de uma ribanceira e você estiver no ônibus, você vai morrer também com todos. Se um avião explodir com você dentro, você vai morrer também. Se vivemos nesse mundo, é estatístico que um dia seremos assaltados. Se perguntar qtas pessoas foram assaltadas na Suíça é diferente de perguntar aqui. O índice de criminalidade é alto. Vivemos conectados com o mundo. Se o nosso mundo está sofrendo, vamos sofrer com o mundo. Essa é minha raiva quando vejo um adesivo escrito “Propriedade de Jesus” ou “Foi Deus que me deu” é escarnecer de quem anda de ônibus. Por que os ônibus não são tão bons como seu carro? Você vai fazer algo especial com seu carro? As coisas acontecem porque vivemos no mundo que tem maldade e bondade.
2.    O mundo não segue em trilhos. Se fosse, não teríamos liberdade. Estaríamos brincando de marionetes no palco. Cada um de nós escolhe, opta. Nessas escolhas é que coisas ruins podem acontecer. Um tigre não deixa de ser tigre, mas um ser humano pode se desumanizar. Ou seja, um homem pode devido às suas decisões mudar. Da mesma maneira que eu não posso criticar um homem que mata em série, não posso elogiar um samaritano que ajuda alguém na calçada. Por que eu elogio uma bondade? Porque poderia ser mal, mas não. Porque eu rejeito uma maldade? Porque ela poderia ser boa, mas não. Até que se descubra vida em outros planetas, somos os únicos que podem se desumanizar. Os trilhos não são definitivos. Você escolhe, você decide. É nessa liberdade que um cara embriagado pode matar alguém na calçada. E a pessoa que estava na calçada não é mais pecadora do que nós. O acaso existe. Não era pra acontecer, mas aconteceu. Eclesiastes 9 diz que o tempo e o acaso alcança todos.
3.    Não existem vontade soltas. Quando caiu uma torre na cabeça das pessoas a Bíblia não diz que foi um demônio que empurrou a torre, nem que o horóscopo não estava favorável. É como se existisse uma energia negativa sobre você. O universo nos é indiferente. A confluência de Marte com Vênus não influencia em nada sua vida. O universo não quer nem o seu bem nem o seu mal. Os astros não estão nem a favor nem contra ninguém. Não há diferença entre 31 de dezembro de 2016 para 01 de janeiro de 2017. Deus não dá câncer pra ninguém. Assim como ele não dá carro, ele não dá câncer. Tribulação é resultado da vida. É impossível viver sem passar por riscos. A gente quer dar uma de espírita, procurando explicação para as coisas. Um dia desses um piloto alemão jogou o avião nos Alpes e matou todo mundo do avião. Todo mundo era amaldiçoado por Deus ou estava sobre influência maligna? Deus reuniu todo mundo no avião porque chegou a hora? Jesus disse: nunca usem essa lógica. Não existe uma premeditação divina para soltar demônios sobre as pessoas para que sofram. Acidentes e tribulações não seguem a lógica de benção e de maldição. Salmo 73 diz que “Eu vi que o ímpio estava prosperando”. Essa lógica não se sustenta no novo testamento e nem na percepção judaica da vida. Tem pessoas que fazem tudo certo e mesmo assim algumas coisas dão errado porque a vida não escolhe.

Nesse contexto, galileus estavam morrendo, caiu uma torre em Siloé e ele conta a parábola. A figueira que não deu fruto. Corta a figueira. O capataz disse que não fizesse. Pediu pra podar e adubar por mais um ano. Se no ano que vem ainda estiver estéril, se cortaria. O senhor disse tudo bem. Por que Jesus contou isso?
1.    Deus não desiste de nós, mesmo quando frustramos as expectativas dele. Mesmo quando o mundo frustra a expectativa de Deus, Ele não desiste. O que cuidava da figueira disse não. Jesus diz pra não cortar. Quando olhamos o mundo nesse perigo total, a mensagem que podemos dizer as pessoas no meio disso tudo é Deus não desiste de nós! Deus continua dizendo que é possível reverter essa história. Para o mal vencer basta que os bons cruzem os braços. Vamos investir na figueira. Ela pode dar fruto ainda!
2.    Deus não espera. Deus investe. O senhor do pomar mandou cortar. O capataz pediu pra adubar. Deus não está num lugar remoto, num alto trono, se esbaldando, fora da última galáxia do universo, sentado, olhando o mundo. Deus está intimamente envolvido nas nossas histórias. Ele está extremamente envolvido com quem está sofrendo, com quem levou uma rasteira da vida. Porque o rim ou a vesícula não ajudou, porque o filho não obedeceu, Deus quer investir na sua vida para que a sua vida não desapareça nessa decepção. Ele age. Deus age. A ação de Deus não é de punição. Ele sabe que somos pó. Deus não é tirano, principalmente com os que sofrem. Ele não empurra pra baixo. Esse não é o deus da Bíblia. O sentido da ressurreição é esse. Ele te dá vida agora. Há vida eterna hoje! Ele é a ressurreição e a vida. Ele quer nos levantar, como aquela figueira que podia ser cortada fora. Rubem Alves dizia: Quando eu tiver perto de morrer, eu quero que as pessoas que me rodeiam conversem comigo pra poder valorizar os últimos dias e que digam o que de mim vai ficar neles. Jesus chorou diante da morte, mas não evitou o tema. Ele dizia que sua hora estava perto e não ficou em jogo de mentira. Tem uma figueira que está em processo de morte e Jesus diz que vai investir nela e nesse ano Deus quer investir tudo nela. Não sei quanto tempo você ainda tem, mas Deus quer investir tudo em você. Deus não espera, Ele age.
3.    Deus vai com a gente até o fim. Você sofreu problemas na vida. Deus não te abandonou. Eu já vi muita coisa na vida. Já vi pessoas perdendo tudo ou ganhando coisas. Casamentos bem sucedidos e que se acabam. Pessoas jovens doentes e velhos saudáveis. A beleza do evangelho é que Deus não desiste. Deus é o rosto amoroso que nos ouve sempre. Ele nunca vai nos mandar parar de reclamar. Ele vai nos entender. Ele é o que restaura a nossa vida. Ele faz do nosso lamento um baile. Deus levanta a gente mesmo que a gente esteja quebrado. Ele vai restaurar as cores da sua vida, esse é o Deus que investe nos seus filhos até o fim. A misericórdia divina triunfa sobre a justiça. E eu sou alvo da gentileza celestial.

“Deus não quero a sabedoria ou a riqueza de Salomão. Não imploro por ousadia de João Batista, sequer posso pedir a doçura da virgem Maria. Posso te pedir que na tragédia me trates como tu trataste o ladrão da cruz”. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

No que posso crer?


NO QUE POSSO CRER?


            Sou dentista. Um estudioso das áreas médicas. Dedico-me a cuidar de dentes, devolver estruturas perdidas, melhorar a autoestima e proporcionar aos meus clientes ou pacientes (como preferirem) o sonho de voltar a sorrir. Para isso, estudar a Biologia foi fundamental, claro. Estudei a Teoria do Big Bang, hoje já não tão aceita pelo próprio Stephen Hawkings, a Teoria da Evolução de Charles Darwin e já tive que responder em várias provas que a vida surgiu de uma sopa de coacervados, que formaram as bactérias, que foram se unindo, se multiplicando, evoluindo, até surgir o ser humano. Para mim, isso é muito mais difícil de acreditar do que no conto de Adão e Eva.

            Adão, Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia do "Haja", quando, pelo poder da palavra, o Criador fez tudo. Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão? Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes, índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais, gentios, não-judeus encaram a criação?

            Por exemplo, o mito chinês da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir.
           
            Depois de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo. 

            No mito hindu, Brahma começou do nada. Apenas com o pensamento, ele criou as águas em que depositou seu sêmen. Isso se transformou em um ovo de ouro, do qual ele nasceu. Por pensamento novamente, ele dividiu o ovo em dois, e as metades se tornaram o céu e a terra. Brahma cresceu sozinho e dividiu-se em dois para formar o homem e a mulher. Em uma variação da história, Brahma divide-se repetidamente em dois até que todos os seres vivos do mundo sejam criados a partir de seu corpo. Em outra versão, o primeiro homem e a primeira mulher se reproduzem em diferentes formas animais até que todas as formas de vida são criadas. 

            Juntos, Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor) compõem o Supremo. Cada universo que Brahma cria é destruído por Shiva, depois do qual não há nada, a não ser um vasto oceano em que Vishnu flutua, repousando sobre uma grande cobra. Em algumas versões do mito, Brahma não vem de um ovo, mas a partir de uma flor de lótus que brota do umbigo de Vishnu. Eventualmente, o nosso mundo também será destruído por Shiva, e o ciclo vai começar de novo.

            Já segundo a lenda escandinava, antes de existir o tempo, havia um lugar de nevoeiro e gelo chamado Niflheim. Do outro lado, havia Muspelheim, onde demônios e gigantes do fogo moravam. O fogo de Muspelheim eventualmente derreteu o gelo de Niflheim, que pingou e formou uma vaca gigante chamada Audhumla e um gigante gelado chamado Ymir. Mais gigantes cresceram a partir do suor da axila de Ymir e foram amamentados por Audhumla, que criou mais gigantes lambendo blocos de gelo salgado.

            Estes gigantes acasalaram e deram à luz ao deus Odin e seus irmãos. Odin e seus irmãos mataram Ymir e a terra foi feita a partir de sua carne, o céu de seu crânio, o mar de seu sangue, as nuvens de seu cérebro, as montanhas de seus ossos e as árvores de seu cabelo. Odin construiu Asgard como uma morada para os deuses e a ligou a Midgard (Terra) por uma ponte de arco-íris chamada Bifrost. As larvas no cadáver de Ymir se tornaram anões que ficaram abaixo da superfície da terra, no que restou do corpo do gigante. Os deuses encontraram dois troncos de árvores em Midgard e deram vida a eles, criando Ask e Embla, o primeiro homem e a primeira mulher.

            Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal. Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares.  O Adão pode ser simbólico, a humanidade sendo criada, uma forma que Moisés encontrou de descrever o processo. A humanidade, então, precisaria de alguém ao seu lado, pois se sentia solitária no jardim. Precisaria viver em comunhão vertical e horizontalmente, com Deus e com os outros seres humanos. Nessa perspectiva, a mulher é criada da costela do homem, devido ao seu posicionamento horizontal no esqueleto, protegendo órgãos essenciais para a vida e ligada perpendicularmente à coluna vertebral, vertical, com suas conexões direcionadas ao cérebro, ao alto. Seria o osso perfeito para descrever a origem da mulher. Porém, são apenas conjecturas. Seria um novo olhar. Não obrigatoriamente meu. Não definitivamente certo.   
           
            O homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo autodestrutivo. É expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói uma cidade. A cidade é o jardim humano. Deus é expulso do jardim humano. Os filhos de Caim resolvem viver sem Deus. E assim a desgraça começa. Vem dilúvio. O homem Noé sobrevive. Afasta-se de Deus. Sodoma e Gomorra são destruídas com fogo. O homem Ló é preservado. Abraão, Isaque, Jacó, José. Há uma Terra Prometida. O homem vai ao Egito. Não era lá. Após inúmeras pragas e um mar aberto, o povo estava livre da escravidão. O que o povo faz? Afasta-se de Deus. Deserto, muralhas, muitas batalhas. O homem entra na terra. O que ele faz? Afasta-se de Deus. Querem um rei. Deus não é suficiente. Saul, Davi, Salomão. Divisão. Escravidão. E assim é até os dias atuais. Quanto mais longe de Deus, mais desgraças acometem a humanidade.

            Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta reinando, sob a ótica anticristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Jerusalém, Roma, Londres, Rio, São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, entra na nossa história o novo Adão. Jesus, o Cristo, que morreu na cruz do Calvário, ressuscitou ao terceiro dia, derrotou todas as forças do mal e nos deu o direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. A visão do apocalipse se torna então com dragões e serpentes tentando dominar e controlar os seres humanos em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos leões nas arenas romanas? 

            Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as Escrituras. Óculos vermelhos me fazem ver tudo avermelhado. Se forem verdes, tudo fica esverdeado e assim sucessivamente. Podemos ver Deus como um carrasco, um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar com Ele por meio dessa última opção. 

            E o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que pregar se Deus já escolheu os salvos? 

            Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso. Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para algo tão gostoso e deliciosamente atraente. É poder dizer não, quando o mundo diz sim. É dizer não aos pratos visualmente saborosos por entender como os mesmos foram preparados.

            Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar, vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e, dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas lamentações.  E é a mais pura verdade.

            E o meu direito de escolha? Nunca tive dificuldade em fazer escolhas. Não que as decisões que tenho que tomar não sejam importantes. Muito pelo contrário. Todos os dias me vejo decidindo, quer seja a respeito de assuntos eclesiásticos, familiares, odontológicos, bem como assuntos essencialmente pessoais. Geralmente, minhas escolhas são rápidas e objetivas. Pode ser até um defeito, mas me adapto facilmente, tanto para o que me incomoda, quanto para o que não me causa nenhum efeito. Enfim, não é o caso da maioria.
            Havia um governador romano chamado Pilatos. Esse teve algumas dificuldades de escolher no que acreditar. Era cheio de dúvidas. Repleto de perguntas. Na verdade, seus questionamentos não eram particulares. Eram puramente humanos, perfeitamente nossos. São perguntas que fazemos sempre. São dúvidas recorrentes para todos. No Evangelho de João percebemos isso. Vou chamar essas questões de dúvidas pilatianas. Como eu gosto de neologismos! Já perceberam isso, não é?
            Jogarei a responsabilidade sobre os ombros de um "pecador". E quando esse pecador é Pilatos soltamos fogos de artifício. Há personagens bíblicos que são perfeitos vilões, como Judas Iscariotes, Faraó, Golias, Herodes, Nabucodonosor. Pilatos está nesse rol. Caifás e seus comparsas levam Jesus ao Pretório. Todavia, os sacerdotes não entram no recinto. Segundo a tradição. eles poderiam se contaminar (oh quão puros somos, não é?). Afinal de contas, a Páscoa se aproximava. Alguém ia morrer. O lugar estaria manchado com o sangue de alguém. Os líderes religiosos da época não admitiam entrar em um lugar impuro. Botão da hipocrisia acionado. Eles eram muito santos. Acho que já falei sobre isso. Não vou tocar mais nesse assunto. Talvez sim. 
            Jesus então está diante de Pilatos. Algumas perguntas são feitas em relação ao Mestre. Vamos tentar aprender com elas. Que acusação trazeis contra este homem? Que acusação trazemos contra Jesus? Por que o culpamos de tudo? Por que se o carro quebra a culpa tem que ser de Deus? Por que se o filho adoece, reclamamos e dizemos que não aceitamos, que somos filhos de Deus, que isso não pode acontecer, e bla blá blá? Trazemos inúmeras acusações contra Ele. E Ele é o menos culpado de tudo. Se nós colhemos, colhemos o que plantamos. Lei da semeadura. Somos resultado de nossas decisões, de nosso livre arbítrio. Bactérias não podem ser demonizadas nem Jesus pode ser responsabilizado pela ausência de manutenção nos veículos dos "santos". 
            Vamos acusar Jesus de quê? É triste ver que nossa sociedade e, pasmem, nossas igrejas estão repletas de acusadores. Que provas aqueles sacerdotes tinham contra Jesus? Provas verbais. Fofocas, na verdade. Disse-me-disse. Posso acreditar em algo só pelo fato de alguém comentar? Lembro-me de um comediante americano chamado Tom Segura que contou um fato interessante. Seu pai há muito tempo atrás havia dito que o ator Tommy Lee Jones era gay. Desde então, Tom passou a vida inteira dizendo para todo mundo que o ator era homossexual. Os filmes perdiam a importância. O fato primordial era a homossexualidade do astro. Até que, anos mais tarde, quando já era um humorista famoso, Tom, ao conversar com um outro ator de Hollywood, contou-lhe a mesma fofoca. Tal foi sua surpresa quando o ouvinte, na verdade, era amigo de infância do respectivo e que conhecia toda a família de Tommy Lee Jones, esposa, filhos, pais e que ele não era gay. Tom então liga para o seu pai e conta a novidade. “Quem disse pra você que Tommy Lee Jones era gay?” O pai de Tom simplesmente respondeu: “Ninguém. Eu pensei que fosse”.
            Pilatos estava corretíssimo. Era necessária uma acusação com fundamentos. Não tinham. Havia outra pergunta a ser feita. És tu o rei dos judeus? Ah! Agora Pilatos começa a se preocupar. Ora, um governador é submisso ao seu rei. Surge a possibilidade de concorrência na mente. Pilatos deixaria de ser "a pessoa com quem se resolve as coisas" dos judeus. A autoridade política de Pilatos corre perigo. Daí a preocupação. Jesus é rei? É comum ver pessoas agindo da mesma forma quando estão se sentindo ameaçadas. Quem é esse funcionário novo? Será que ele vai roubar o meu lugar no louvor? A mensagem desse obreiro arrancou mais aplausos que a minha. Será que o povo vai gostar mais dele do que de mim? Será que essa igreja que abriram aqui perto vai roubar minhas ovelhas?
            Que pensamento estúpido! Jesus é Rei. Você é você. Não devo aumentar meus esforços para parecer melhor aos olhos dos meus “concorrentes”, mas tenho que elevar minha qualidade por mim mesmo. Quando a ameaça chega, refazemos a mesma pergunta sucessivamente (por mais exagerado que seja meu pleonasmo). Esquecemos que Jesus é Rei. Perguntamos como João Batista, a Voz que clamava no deserto, em meio ao desespero e à ameaça, se existe ainda outro rei. O Grande Rei nos serve quando somos súditos prósperos. Quando a crise aperta, o primeiro a ser crucificado é o rei. Quão submissos somos, não é? 

            Jesus responde a Pilatos com outra pergunta: "vem de ti mesmo esta pergunta ou disseram outros a meu respeito? Puxa vida, Pilatos! Nem opinião própria você tem? Pare de ser influenciável. Seja você mesmo. Tudo bem, está perdoado. Pilatos não era judeu. Não conhecia Jesus. Realmente, precisava ouvir uma outra versão da história, o outro lado da moeda. Pilatos precisava saber a verdade.
            Daí surge a derradeira pergunta: Que é a verdade? Pergunta errada. Os budistas tem a sua verdade. Os xantoístas, hindus, católicos, protestantes, espíritas, TJ's, adventistas também. Os islãmicos encontram verdade em amarrar bombas no corpo e se explodir. Os judeus são tão cheios de verdades que parecem ser realmente verdadeiros. E são. Verdadeiros nas suas verdades. A pergunta foi mal formulada. Pilatos deveria ter perguntado QUEM É A VERDADE. A VERDADE ESTAVA DIANTE DE PILATOS. A verdade que apaga todas as dúvidas, humanas e pilatianas. JESUS. ELE É A VERDADE! Estou feliz com a minha verdade. E não tenho dúvidas em relação a isso. Lavo as mãos por higiene, não por covardia, nem muito menos por duvidar. Pilatos escolheu não escolher. O que é melhor?

            No que posso crer? A pergunta certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a navegação corporal, tenham que se casar. Por que, meu Deus? Por que????Tentarei responder mais adiante. É somente a ponta do Iceberg. E, como diz uma música que eu gosto muito, se a ponta do iceberg já é maior do que o Everest, imagina a raiz?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


CAPÍTULO XV
QUEM POSSO ACEITAR?

            Deixei a maior polêmica de todas por último. Desde cedo ouvi ao final de todas as pregações a maravilhosa frase: “Quem quer aceitar a Jesus?”. Era o momento mais emocionante dos cultos. A hora da conversão. O mágico instante onde o ouvinte é tocado pelo poder do Espírito Santo e vem ao altar, muitas vezes em prantos, para aceitar a Cristo. Será que nós que o aceitamos ou Ele que nos aceita?

            Acho que a discussão é bem longa. Passaríamos pelas trincheiras do Arminianismo e o seu livre arbítrio e colidiríamos com o Calvinismo e sua eleição pela graça. Igrejas se dividem por causa disso. Perde-se ou não a salvação? Nós escolhemos andar com Deus ou Ele nos escolhe para o passeio? Aceitar a Cristo é uma frase de efeito, claro. Aceitamos ou não o que nos é oferecido. Se interpretarmos a mensagem como uma campanha publicitária onde o produto é a salvação, faria total sentido. Eu não creio nisso. Creio que somos escolhidos e que nada pode mudar o que Deus pensa a meu respeito, até porque o Criador me fez; logo, me conhece.

            Tudo bem, não aceitamos a Jesus. Contudo, aceitamos ou não pessoas. E o que aceitamos também nos divide. Os limites da aceitação dogmática são muito variáveis. Lembro a história ocorrida em um Congresso Mundial de Mulheres Batistas. Em uma mesma mesa estavam as líderes de departamento feminino de vários países. As irmãs da Alemanha criticavam com olhares fulminantes a vaidade das americanas, suas joias, suas roupas extravagantes, sua maquiagem pesada. Criticavam, enquanto se esbaldavam em seus copos de cerveja, fato esse também observado com toda a rejeição pelas irmãs da terra do Tio Sam. Enquanto isso, as brasileiras clamavam o sangue de Jesus e desejavam ardente e secretamente em seus corações que essas varoas estrangeiras se convertessem.

            Não apenas divergimos fora das fronteiras. Dentro do mesmo país, há perspectivas diferentes em relação ao que se é aceito. Em uma mesma cidade, em um mesmo bairro, em uma mesma rua, há igrejas completamente diferentes professando a fé evangélica. A cada desavença, uma nova igreja é formada. Há quem seja adepta do cuspe de Cristo. Outra do espirro cristão. Outra da tosse cristã. Outra do soluço cristão. Enfim, muita gente doente. Doente por querer ser completamente diferente. Pior. Isso é altamente contagioso.

            Pessoas são diferentes. Nossas igrejas, em sua esmagadora maioria, não sabe lidar com a pluralidade. Estamos prontos para receber um homossexual? Eles podem ser aceitos? Será que Deus os aceita? Devemos expulsá-los de nossas congregações sob o pretexto de contaminarem a santidade da casa do Senhor? Ou eles precisarão viver escondidos, muitas vezes de si mesmos, regendo coral, tocando na banda, pregando, pastoreando, sendo obrigado a se casar para a sociedade cristã o aceitar? Conheço incontáveis casos que provam que se esconder por trás de um paletó ou de uma conduta heterossexual ilibada geralmente acaba muito mal.

            São mulheres feridas por não receber atração recíproca. Mães que criam seus filhos enquanto os pais saem de madrugada para encontros amorosos com garotos de programa. Arriscam-se em ilicitudes, pois não querem que suas verdades sejam reveladas. Casam para manter a aparência. Durante o namoro, um homossexual pode mascarar uma heterossexualidade sob o pretexto do “Escolhi esperar”, inibindo qualquer tipo de contato mais íntimo com a parceira. Nada de beijos ardentes, até porque não há nada esquentando dentro dele. Sem ousadia porque é pecado. Não. Definitivamente não é por isso.

            A luta que eles enfrentam é constante. Negar-se a si mesmo não é fácil. Renunciar seus desejos, mesmo os fundamentados na relação comumente aceita é uma tarefa das mais árduas. Imagine quando esses desejos são socialmente condenados e biblicamente abomináveis. O apóstolo São Paulo, escrevendo aos Romanos, onde a homossexualidade era pungente até mesmo nas alcovas reais, fala de recompensa pelo erro da torpeza dos homens que se inflamam em sua sensualidade com outros homens. Uma recompensa mais parecida com castigo, diga-se de passagem. A maldição de ser diferente.

            Há várias questões a serem abordadas sobre esse tema. Nascer homossexual ou desenvolver a homossexualidade? O Criador fez homem e mulher. Então por que existem gays? Em 1999, o pesquisador americano Bruce Bagemihl fez um levantamento amplo e descobriu que nada menos que 450 tipos de mamíferos e aves têm hábitos homossexuais, em maior ou menor grau. Isso vai desde espécies que se exibem para indivíduos do mesmo sexo até aquelas que de fato formam casais homossexuais, chegando até a cuidar de filhotes juntos, passando, é claro, pelas relações sexuais.
             Em seu livro, Bagemihl derruba teorias que afirmam que a homossexualidade surge por falta de opção ou porque os animais se confundem. Para ele, os animais homossexuais são assim por um motivo muito simples: porque apreciam o fato de ter parceiros do mesmo sexo que eles. Outros indícios sugerem, no entanto, que a orientação sexual da pessoa é definida no útero materno. Em mamíferos, o sexo do bebê é definido pelo pai, que traz o cromossomo X ou Y para o filho. No entanto, há um senão aí, como lembra Carlos C. Alberts, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis. Entre 4 a 8 semanas depois da fecundação, a mãe grávida libera um hormônio sexual no embrião – hormônio que só vai ter efeitos mesmo durante a adolescência.
            É essa substância que, segundo alguns pesquisadores, seria responsável pela orientação sexual da pessoa. Se a combinação entre sexo do embrião e hormônio bater, o indivíduo será heterossexual. Se não, será gay. Por exemplo, um embrião do sexo feminino que receber hormônio feminino vai crescer e passar a ter atração por homens. Se o embrião feminino, no entanto, receber hormônio masculino, as chances de virar homossexual são maiores. É difícil afirmar que esse mecanismo, sozinho, possa controlar toda a complexidade que é o comportamento sexual humano. E, por isso, as bases biológicas da homossexualidade seguem sob debate.
            Claro, são estudos científicos. Teorias. Nada prova nada. Pesquisas também mostraram que dentre as pessoas que nasceram durante o cerco de Stalingrado, na Rússia, na Segunda Guerra Mundial, 30% assumiram ser homossexuais na vida adulta. Mães que durante a gestação sofreram fortes pressões emocionais, estresses ou risco de vida teriam uma tendência maior a ter filhos gays? Pode ser uma explicação? Será? Deveremos indicar então chá de camomila para as gestantes e evitar que o mundo vire um arco-íris?
           Vamos para as igrejas. Já vi homossexuais passarem por sessões e mais sessões de descarrego, a fim de expulsar as pombas-gira dos seus corpos. Eles manifestavam, mudavam o tom de voz, colocavam a mão pra trás, faziam o “show” que os demônios gostam. Logo após a imposição de mãos, eles paravam. Bebiam água, sentavam. Pedíamos para dar “glórias a Deus”. Eles repetiam. Choravam até, como o rosto no chão. Clamavam. Agradeciam a Deus. Testemunhavam que estavam libertos. Passavam mais alguns meses na igreja. Não suportavam a pressão. Não conseguiam. Vou ser bem sincero. Uma ínfima quantidade de pessoas consegue. Ou fingem conseguir. Abandonam a prática da homossexualidade, mas será que deixam de ser gays?
             Creio que podem conseguir viver sem namorar com pessoas do mesmo sexo. Alguns até se casam com alguém do sexo oposto. Assumem uma vida heterossexual. Tem filhos. Constituem família tradicional. Mas será que deixam de ser gays? O Criador fez homem e mulher. Ser gay é estar no meio disso. A questão é qual o lado será mais forte? O externo ou o interno? O biológico ou o emocional? Como lidamos com quem passa por essa batalha?
            O que a igreja deve fazer? Jesus transforma. Esse é o discurso. Ou seja, Jesus transforma. Entenderam? Não são os pastores que devem martirizá-los ao exigir uma metamorfose urgente, forçando a borboleta a entrar novamente no casulo. A borboleta já está voando. E não falo no sentido pejorativo. Dizer à borboleta para voltar ao casulo é trancá-la no armário. Escutaremos o barulho, das unhas arranhando a porta, dos socos desesperados, mas insistiremos em mantê-los aprisionados até que mudem?
            Felizmente, querido leitor, não concordo com isso. Se é Cristo quem transforma, vamos deixar o Mestre agir. E enquanto não há essa ação, até porque talvez nem aconteça, vamos continuar amando. Por que apedrejar se também temos nossos pecados? Por que punir, se também merecemos punição? Se queremos misericórdia, que haja misericórdia para todos. Inclusive para os diferentes. Na verdade, se nós nos aceitamos, por que não aceitar a todos? E se Deus quiser salvar um gay, vamos discutir a respeito disso no céu? Vamos exigir a expulsão do homossexual do coral celestial? Eu vou ser bem sincero. Eu ia ficar na minha. Caladinho. E agradecer por estar com Cristo na glória.
            Quero externar meus incômodos. Perdi um grande amigo por ele preferir manter uma imagem incólume, por medo de não ser aceito. E querem saber? Ele não seria aceito mesmo. Foi uma das mentes mais brilhantes com a qual já tive o prazer de conviver. Um mestre, um pai espiritual. Um mentor, como costumava chama-lo. Um amigo confidente, para o qual contava todos os meus devaneios, falhas, erros, pisadas na bola. Ele não me julgava. Ele me entendia. E dizia: os crentes são implacáveis. As igrejas matam os imperfeitos, pois fazem com que eles tenham que vestir armaduras perfeitas, pesadas demais, impossíveis de ser carregadas. O verdadeiro gigante está dentro de nós. Logo, ele tem que cair por dentro e não por fora.
            Ele tinha que subir aos púlpitos. Pregar. Levar o Evangelho. Almas se rendiam aos pés do Senhor. E ele amava isso. Ele amava a igreja. Ele amava as pessoas. Contudo, mantinha uma vida dupla. Jekyll and Hide. Eu nunca soube se ele gostava mais de um do que do outro. Os dois coexistiam. Ele teria que escolher. Se escolhesse o altar, para nós, seus admiradores, seria magnífico. Continuaríamos sendo alimentados por ele. Cresceríamos em conhecimento. Sugaríamos até a última gota da sua sabedoria. Contudo, se escolhesse a segunda opção, seria massacrado, triturado, destruído por uma grande parte dos evangélicos. Talvez apenas os poucos amigos de verdade, onde me incluo, ficasse do seu lado. Ou talvez ninguém. Ele estaria feliz? Não sei. Não sei qual dos dois trazia mais prazer à sua vida. Nunca saberei a resposta.
            Ele escolheu não escolher. Ficou com os dois. Acabou esfaqueado, assassinado, morto. Um matou o outro. Os dois, dentro dele, se mataram. Foi cruel. Deus sabe. A escolha mais difícil sempre é a não escolha. Levar a vida com a barriga. Deixar pra amanhã. Não quero ser juiz de nada, pois não conseguiria nem sequer me julgar.
            Foi muito por isso que eu resolvi escrever este livro. Ainda me angustio com o desfecho dessa história. Passei a viver todos os dias intensamente e amar muito mais todas as pessoas. Aprendi a não exigir nada que as pessoas não possam me dar. Nenhum tipo de falso agrado é bem vindo. Nenhum sacrifício sem amor. A vida é tão rápida. Decidi aceitar a vida. E fazer o melhor que posso com ela. Misturar meus bons e maus momentos no liquidificador da minha existência e tomar, de uma vez só. Respirar no final e dizer: como é gostoso. Como a vida é gostosa! Aceitar os quilos a mais, mas querer perdê-los também. Aceitar a ausência capilar, sem me esquecer de colocar vez por outra um chapéu elegante ou um boné para parecer mais jovem. Viver e não ter a vergonha de ser feliz, como diz o poeta. Quem posso aceitar? Querem mesmo saber? Se você começar deixando de rejeitar, já é um bom começo.

sábado, 26 de dezembro de 2015

CAPÍTULO XII

PRISÃO PERPÉTUA OU PENA DE MORTE?


            Até que ponto alguém, que cometeu as maiores atrocidades que um ser humano jamais cometeria, como homicídios triplamente qualificados, sequestros, estupros e outros crimes onde são constatados quadros de crueldade extrema, pode receber direito à liberdade por bom comportamento, fundamentado na hipótese de que esses criminosos tem um "encontro com Deus" e se tornam "evangélicos"? Se Deus perdoa, será que agimos errado quando desejamos que esses espécimes permaneçam enclausurados para nossa maior segurança?

            Sei que pode ser absurdo para quem prega o amor e o perdão tocar nesse tipo de assunto. Oferecer a outra face é a sugestão de Jesus. Pois bem. Analisemos a seguinte questão. Alguém que tem a coragem, digo a covardia, de pegar uma criança de 5 anos de idade, raptá-la, violentar a inocente e indefesa garotinha, sodomizá-la e depois estrangular e retirar-lhe a vida, impiedosamente, tem condições de ser regenerado e viver como qualquer cidadão? 

            Ah! Mas você pode afirmar: Deus apaga o passado, pastor! Sim, ele apaga. E que maravilha esse poder regenerador. No que tange às infinitas misericórdias do Senhor, o céu pode ainda ser morada de um assassino contumaz, desde que este se arrependa de seus pecados e se converta.  Não ao cristianismo religioso, mas ao propósito de vida cristão. Mudança. O Espírito Santo tem o poder de transformar a mais vil das criaturas num verdadeiro servo de Deus. Isso é inquestionável. Até mesmo serial killers podem ser salvos e viver uma experiência maravilhosa com o Senhor.




            Agora me respondam: por que, pelo simples fato de alguém com essas características se afirmar cristão, precisamos orar para que saia da cadeia e viva em liberdade? Se Deus lança nossos pecados no mar do esquecimento e coloca a placa “proibido pescar”, a justiça deve também absolver esses criminosos “recuperados” e os devolver ao convívio da sociedade? Peço perdão, meus amigos, mas não consigo ser falso. Sinceramente, desejo o contrário.

            Desejo, do fundo do coração, que pessoas desse naipe literalmente mofem na cadeia, convertidos ou não. Onde está o amor, pastor? Está exatamente aí. O amor também está presente na correção, na justiça. Os defensores dos direitos humanos pensam por acaso nas prisões perpétuas que os pais das inúmeras vítimas vão ter que enfrentar todo santo dia, sem conseguir dormir, sem conseguir comer, sem ter forças para viver? 

            Sempre aparece algum testemunho de homicidas, bruxos, estupradores, pedófilos, posando de santos e se intitulando pastores, missionários ou conferencistas. Por sinal, ser um conferencista traz mais status, uma intelectualidade, tal como os PHDs que palestram em congressos científicos. Não se sabe nem mesmo onde congregam, mas já são convidados como porta-vozes do evangelho, personificações da metamorfose espiritual. Os antes degenerados sobem aos púlpitos e vomitam seus contos, muitas vezes fictícios ou hiperbólicos, sem apresentar provas de seus indecorosos feitos.

            Lembro-me de um ex bruxo que afirmava ter atirado no peito do próprio filho com uma escopeta, sem que o matasse, nem que fosse preso por isso. Eu chamaria a polícia para levá-lo como réu confesso. O mesmo feiticeiro, no mesmo testemunho, disse ter injetado sangue de bode nas veias. Ora, se eu sofrer um acidente e precisar de uma transfusão de sangue e utilizarem um sangue de tipo não compatível com o meu tipo sanguíneo, minhas hemácias serão aglutinadas, destruídas e rapidamente estarei morto. Imaginem agora se for sangue de bode. Se eu não consigo acreditar nisso, vou crer em alguma outra palavra dita por uma figura dessa laia?

            Desculpem aos que creem, mas eu não consigo. Onde está o laudo médico? Outro dia, um apareceu dizendo que tinha morrido e ressuscitado e contando seu testemunho nas igrejas. Mostrou o atestado de óbito? Não. Hora da morte com assinatura de um médico? Não. Não adianta jogar conversa fora. Usar as igrejas como oportunidade de negócios, sem pensar na dor que essas criaturas geraram às famílias é no mínimo irresponsável.

            Coloco-me no lugar da mãe que vê sua filha morta ao ser jogada de um edifício, pelo simples fato da madrasta não aguentar o choro compulsivo da criança. Ponho-me no lugar de um pai, que vê seu filho ser arrastado pelo asfalto (que Deus nos proteja), enquanto o seu carro tomado de assalto é acelerado pelas ruas, não importando quem está gritando do lado de fora. Ouço os gritos do menino, as batidas da sua pequena cabeça no chão quente, dos ossos sendo quebrados na rota de fuga de marginais. Você pode ouvir, meu irmão? Pode ouvir os gritos da menina que é tirada do parquinho de diversões por um maníaco, que lhe oferecera um sorvete e ao invés de refrescar e adoçar a boca da inocente, usa uma corda para amarrá-la, tira-lhe as roupas, usando a pequenina blusa como mordaça e acaba com a curta vida daquele ingênuo ser. Não tem como ouvir os gritos, não é? Estamos extasiados com os gritos de glórias a Deus que esse estuprador convertido brada vestido com seu paletó fino e seus sapatos de couro de cobra.  

            Grito! Meu grito é de revolta. Enquanto as famílias lamentam perpetuamente a perda do ente querido, aqueles que causaram todo o sofrimento viajam de avião pelo mundo inteiro, contando suas desgraçadas façanhas e como tiveram suas vidas transformadas. É triste. Por que não prisão perpétua para eles? Ou não seria melhor a pena de morte para os que não tem pena diante da morte?

            Que absurdo, pastor? Você é a favor da pena de morte? Claro que não. Contudo, vejamos um caso. Imagine que você deixa sua filha em casa, com a sua esposa e sai ao trabalho. Quando retorna do serviço, encontra sua casa com a porta da frente aberta e ouve um certo barulho no quarto. Parece um grunhido, como se alguém tentasse dizer algo, mas o som está abafado. Você se aproxima e percebe que na verdade o barulho não vem do quarto dos fundos, mas da cozinha. Sorrateiramente, você passa pela sala e vê uma cena estarrecedora. Sua esposa está caída, agonizando no canto da parede, e sua filhinha está sendo violentada por um homem. Ele está deitado sobre o corpo de sua filha. Distraído com o abuso sexual que está a cometer, o monstro não percebe sua chegada. Logo, você, querido irmão, percebe que há uma faca de cortar carne em cima da mesa. O que você faria?

·         Opção A: vira de costas, não pega a faca, vai à rua, liga para a polícia, espera calmamente a chegada de uma viatura no local e, enquanto isso, dobra os joelhos e faz uma oração para que Deus salve aquela pessoa que provavelmente matará sua mulher e filha?
·         Opção B: pega a faca e, para defender sua família, pula sobre o estuprador e enfia firmemente a lâmina nas costas do desgraçado, até que morra, sem piedade alguma, salvando a vida das duas?

            Quero dizer, querido leitor, que eu escolheria sem titubear a segunda opção. Nesse caso, estaria eu sendo a favor da pena de morte? A realidade é que todos precisam de Deus. Precisam. E muito. E Deus ama, até mesmo os odiáveis. É a graça. Favor imerecido. Por mais que inconscientemente o ódio invada nossos corações, devemos amar também. Entretanto, se esses criminosos querem mudar, mudem por trás das grades. Cumpram suas penas, mesmo que no Brasil a impunidade seja institucionalizada. Não peçam para escapar da prisão, para Deus abrir as cadeias, pois é um absurdo querer se comparar com Paulo e Silas.


            Que eles mostrem o evangelho para os outros presos. Preguem para os familiares que os vão visitar. Paguem pelos crimes que cometeram. Colham aquilo que plantaram. E se um dia, depois de cumprirem a pena em sua totalidade, saírem da prisão, que tentem reparar os erros cometidos. Que façam como Zaqueu, pois a salvação não entrou na vida daquele homem baixinho quando desceu da árvore ou preparou um jantar pra Jesus, mas quando prometeu restituir o que tinha roubado. Que eles não queiram fazer das suas vidas pregressas um espetáculo de fé, mas que sintam vergonha do passado. No céu, o preço já foi pago pelo sangue de Jesus. Aqui na terra, ainda há sangue clamando por justiça. Que a justiça possa ouvir esse clamor.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O dia que conheci Nietzsche

CAPÍTULO X

O DIA QUE CONHECI NIETZSCHE


            A própria palavra cristianismo é já um equívoco. No fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz. Não. Não fui eu quem disse isso. Preciso esclarecer de antemão que não concordo com tudo que aquele que cunhou essa frase afirmava. Apenas procurei entendê-lo. Sempre tive vontade de estudar filosofia. Li um pouco de Kant, ainda na faculdade, sob a influência de um estudante de medicina com o qual fiz alguns estágios extramuros. Contudo, Nietzsche sempre foi a pedra de tropeço de toda a igrejada. Não errei a escrita. Igrejada mesmo, pois não posso chamar o que vejo de igreja.

            Perdoe-me o neologismo, mas a tradição pentecostal clássica sempre foi avessa ao estudo teológico, dando preferência às experiências pessoais. A letra mata. Essa era a afirmação, completamente fora de contexto hermenêutico, usada pelos irmãos do reteté para despretensiosamente desincentivar o estudo bíblico. O problema é que eu tenho uma atração incontrolável pela maçã do conhecimento. Curioso, nunca aceitei a resolução do questionário com um sonoro “porque sim”. Queria saber a razão. A fé não me bastava. Tinha que existir uma justificativa.

            Claro, não falo da fé que salva, mas a que é empurrada goela abaixo nos leigos sob o pretexto de impedir que pesquisem, que se informem, que aprendam sobre tal assunto. Somente era necessário ouvir o sacerdote e aceitar a “Cristo”. Fim. Não é preciso saber. Comer da árvore é proibido. Pode dar indigestão. Pode culminar em sua expulsão do paraíso. Que me expulsem então.

            Sempre criticaram São Tomé, o discípulo incrédulo. Tomé queria apenas ter a sua experiência. Queria tocar nos ferimentos, sentir o cheiro de Jesus, ver o local onde a lança o transpassou. Que crime há nisso? Qual o sacrilégio em exigir provas concretas de milagres? As igrejas neopentecostais se estapeiam, exibindo seus prodígios em shows televisivos. Paralíticos se arrastam ao levantar de cadeiras de rodas, amparados pelos braços por obreiros previamente avisados. São alguns pequenos passos. Enquanto isso, os fiéis gritam sob o comando do “apóstolo”, comemorando o pseudo-milagre, sem ser necessário prova nenhuma.

            Onde estão os exames médicos? E a avaliação de um especialista? Se alguém promete dentes restaurados com ouro após uma oração, seria extremamente necessária a chancela de um odontólogo. Assim como a cura de um câncer precisaria de um laudo de um oncologista. Acompanhar o cotidiano de um ex-paraplégico também seria interessante. Entretanto, isso não é feito. Até porque, se for exigido, é sinal de falta de fé. Crer, sem ver. Que absurdo. Se o milagre é autêntico, por que temer a solicitação de provas? Por que marginalizar os Tomés?

            É que há algumas obscuridades por trás desse processo. O óleo usado para ungir o ventre do doente nos espetáculos de cura inexplicavelmente faz o milagreiro retirar “tumores”, vermes, minhocas e até ratos da barriga do paciente. Por que eu não posso achar que aquele malogrado azeite friccionado possa gerar uma gosma horrenda semelhante ao abcesso? Serão trabalhos de terreiros de macumba os tufos de cabelos regurgitados pelos oprimidos? Vi um vídeo estarrecedor onde uma missionária removia o coração de um senhor, sob o pretexto de que o cardiopata receberia um novo órgão. Isso mesmo que você leu, meu amigo. Ela removeu o coração, tal como o Shang Tsung no Mortal Kombat. Não, não metaforicamente. Ela exibia o bolo de carne. Era, para todos os presentes, um coração. Claro, não perguntaram a um cardiologista. Mas pra que, não é mesmo? Só precisa crer.

            Essa é a questão. Jesus nunca foi exibicionista. Seus milagres não eram midiáticos, apesar da atração popular que provocavam. Na maioria dos casos, o Mestre pedia que o curado não contasse pra ninguém. Seus ensinamentos eram tão fora da caixa, sem a massificação atual, sem interesses escusos que, quando vemos o que ocorre atualmente nas catedrais da fé, ficamos com ânsia de vômito. Igrejas mornas, tal como Laodicéia. Ricas, abastadas, melhores estruturas de som, melhores grupos vocais, instrumentos musicais de última geração, melhores assentos, maior templo, santuário gigante, totalmente climatizado. Porém, Jesus chama essas nem quentes nem frias de pobre, cega, nua, infeliz, miserável. Ou seja, o contentamento não deve estar na estrutura, mas na essência.

            O evangelho se perde então na busca pela glória, na tentação do pináculo do templo. A apresentação de uma dança, peça teatral ou os efeitos de um solo de guitarra bem executado ofuscam o que verdadeiramente importa. O sacerdote rouba a cena. A glória é dele. Depois aparecem com um papo hipócrita de que estão fazendo a obra de Deus. Definitivamente não. São obras humanas, eventos humanos, igreja humana, longe de Deus. Ânsia de vômito é o que me dá. Todos precisam obrigatoriamente se enquadrar no padrão. Os que pensam, refletem, questionam são um risco. Não devem ser questionados. Jamais afrontados. São os donos da verdade. Na verdade, são os donos da Eclésia. A igreja deixa de ser de Deus. Jesus fica de fora, batendo na porta, esperando que alguém ouça, abra, porque ele quer sentar à mesa. Pra que comer com Jesus, se podemos jantar com o governador, o prefeito, o empresário, o cantor famoso, não é mesmo?

            Tolos. Na verdade, tolos são os que os ouvem. Tenho pena das pessoas ignorantes que caem na lábia desses artífices da fé. Esses charlatões, interesseiros, inescrupulosos fazem de tudo para enganar as pobres mentes frágeis. Pior que às vezes penso que de tanto mentirem, acabam acreditando nas suas próprias falácias, numa esquizofrenia tosca. Matam em nome de Deus. Selecionam quem pode e quem não pode estar no seio da congregação.

            Apenas os santos participam da linha de frente. Como saber quem é santo? O que é ser santo? Segundo Nietzsche, no seu livro O Anticristo, “é apenas uma série de sintomas de um corpo empobrecido, enervado e incuravelmente corrompido”. Por que essa revolta com esse filho de pastor luterano? Ele abre a caixa de Pandora e expõe a podridão em que o cristianismo tinha se tornado no século XIX.  Essa podridão viaja pelo século XX e seu fedor ainda é insuportável no século XXI.

            É óbvio que a santidade autêntica significa ser separado, estar disponível para o serviço. Santos são aqueles que se doam, sem receber nada em troca, pelo bem estar dos outros, para servir aos outros. Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, São Francisco de Assis foram santos e nem eram evangélicos. O conceito de santidade da maioria esmagadora das denominações está baseado no vertical, quando a perspectiva deve ser horizontal. Ser santo não é receber recados divinos, usar longas saias, não usar bermudas curtas ou compridas. Não é demonizar tatuagens ou piercings. Não é fazer mortificar o sexo, reprimindo-o e tornando-o o mais abominável dos pecados. Não está no que somos por dentro, mas no que externamos. Ora, o fruto do Espírito Santo é para que os outros saboreiem. O próximo sentirá o sabor do amor, da paz, da alegria, da longanimidade, da mansidão, da bondade, da benignidade e do domínio próprio. Ficará evidenciado.

            Comecei a ler Nietzsche e, mesmo não sendo ateu como ele, concordei com vários tópicos de seus escritos. Não sou ateu, nem cru, nem estou apostatando da fé. Apenas faço minhas suas palavras quando proclama a falência do cristianismo que Jesus pregou. Mataram Jesus, não apenas fisicamente. Mataram o que Jesus representava. Aboliram seus ensinamentos, hierarquizando a igreja. Hoje, não há quem se contente em ser um obreiro ou um diácono. Querem mais. Querem reconhecimento ministerial. Querem aplausos, palmas, vestes no chão para passarem por cima. Sem jumentinho, claro. Preferem um carro luxuoso, com blindagem e seguranças armados para fazer a escolta. Enquanto o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, eles exigem hotel cinco estrelas. Se Jesus não tivesse ressuscitado, acho que seus ossos estariam estremecendo na tumba.

            Nietzsche tem seus absurdos, mas guardei o que me apeteceu. Isso é bíblico. Reter o que é bom. O sagrado passou a ser algo tão fútil. Quem seria digno de subir a um púlpito para ministrar um louvor? Quem seria digno de tomar a santa ceia? Quem seria digno de se batizar nas águas? Que poderia ser canal de Deus? Quem merece ser salvo? Pronto. Atingi a ferida. Essas segregações são estúpidas. Ninguém é digno. Somos alvos da misericórdia de Deus. Sem essas misericórdias somos reduzidos ao pó. Não somos nada. Não somos ninguém. Ele é. Jesus é o cara. Não eu, nem você. O que me faz poder pregar? O desejo de tocar no coração das pessoas, de levar Jesus a elas, de ensinar o que aprendi, de colocar pra fora o que tenho dentro de mim. Não palavras vazias, mas palavras vivas. Vida viva.

            Não estou fazendo apologia ao pecado, defendendo que as pessoas vivam vidas prostituídas, até porque viver assim estaria longe do que é viver. Os mortos vivem assim. Os não regenerados vivem mortos. Quem está vivo que viva. Que nossa preocupação com o outro seja baseada na ajuda e não no julgamento. Ou será que essa trave no nosso olho não tem atrapalhado nossa visão? O fato da casa do vizinho estar suja não me dá o direito de pular o muro, arrombar a porta, pegar a vassoura e fazer uma faxina fantástica sem a autorização do proprietário. Eu posso varrer à vontade a minha sala, o meu quarto. Devo orientar, instruir, exortar. Contudo, não sou responsável pela higiene alheia. Devo me santificar, buscar a santidade de Deus para a minha vida e, quando isso acontecer, vou perceber o quanto de bom eu fiz para todos ao meu redor.

            Deixo-vos com outra frase de Nietzsche. “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos ser aos olhos dos que não sabem voar”. Não que esteja me gloriando, afirmando ser um ser mais elevado. Longe de mim. Não sou elevado de maneira nenhuma. Gosto de voar. Meus pensamentos voam longe. Todavia, como as gaivotas, sempre volto ao ninho. O fato é que não retorno de mãos vazias. Trago algo novo, diferente. Um alimento novo. Provo primeiro, para ver se não contém nenhum veneno. Quando me sinto alimentado com aquilo que achei, divido com meus filhotes. Uns desejarão mais. Outros estarão tão conformados com o alpiste padrão que nem vão querer dar uma bicadinha sequer na nova iguaria. E assim vou vivendo, sabendo que os pensamentos de Deus são mais altos que os meus. Sendo assim, como alcançá-los com os pés no chão?
             

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

                                                        Nietzsche