CAPÍTULO XV
QUEM POSSO ACEITAR?
Deixei
a maior polêmica de todas por último. Desde cedo ouvi ao final de todas as
pregações a maravilhosa frase: “Quem quer aceitar a Jesus?”. Era o momento mais
emocionante dos cultos. A hora da conversão. O mágico instante onde o ouvinte é
tocado pelo poder do Espírito Santo e vem ao altar, muitas vezes em prantos,
para aceitar a Cristo. Será que nós que o aceitamos ou Ele que nos aceita?
Acho que a discussão é bem longa.
Passaríamos pelas trincheiras do Arminianismo e o seu livre arbítrio e
colidiríamos com o Calvinismo e sua eleição pela graça. Igrejas se dividem por
causa disso. Perde-se ou não a salvação? Nós escolhemos andar com Deus ou Ele
nos escolhe para o passeio? Aceitar a Cristo é uma frase de efeito, claro.
Aceitamos ou não o que nos é oferecido. Se interpretarmos a mensagem como uma
campanha publicitária onde o produto é a salvação, faria total sentido. Eu não
creio nisso. Creio que somos escolhidos e que nada pode mudar o que Deus pensa
a meu respeito, até porque o Criador me fez; logo, me conhece.
Tudo bem, não aceitamos a Jesus.
Contudo, aceitamos ou não pessoas. E o que aceitamos também nos divide. Os
limites da aceitação dogmática são muito variáveis. Lembro a história ocorrida
em um Congresso Mundial de Mulheres Batistas. Em uma mesma mesa estavam as
líderes de departamento feminino de vários países. As irmãs da Alemanha
criticavam com olhares fulminantes a vaidade das americanas, suas joias, suas
roupas extravagantes, sua maquiagem pesada. Criticavam, enquanto se esbaldavam
em seus copos de cerveja, fato esse também observado com toda a rejeição pelas
irmãs da terra do Tio Sam. Enquanto isso, as brasileiras clamavam o sangue de
Jesus e desejavam ardente e secretamente em seus corações que essas varoas estrangeiras
se convertessem.
Não apenas divergimos fora das
fronteiras. Dentro do mesmo país, há perspectivas diferentes em relação ao que
se é aceito. Em uma mesma cidade, em um mesmo bairro, em uma mesma rua, há
igrejas completamente diferentes professando a fé evangélica. A cada desavença,
uma nova igreja é formada. Há quem seja adepta do cuspe de Cristo. Outra do
espirro cristão. Outra da tosse cristã. Outra do soluço cristão. Enfim, muita
gente doente. Doente por querer ser completamente diferente. Pior. Isso é
altamente contagioso.
Pessoas são diferentes. Nossas
igrejas, em sua esmagadora maioria, não sabe lidar com a pluralidade. Estamos
prontos para receber um homossexual? Eles podem ser aceitos? Será que Deus os
aceita? Devemos expulsá-los de nossas congregações sob o pretexto de
contaminarem a santidade da casa do Senhor? Ou eles precisarão viver
escondidos, muitas vezes de si mesmos, regendo coral, tocando na banda,
pregando, pastoreando, sendo obrigado a se casar para a sociedade cristã o
aceitar? Conheço incontáveis casos que provam que se esconder por trás de um
paletó ou de uma conduta heterossexual ilibada geralmente acaba muito mal.
São mulheres feridas por não receber
atração recíproca. Mães que criam seus filhos enquanto os pais saem de
madrugada para encontros amorosos com garotos de programa. Arriscam-se em
ilicitudes, pois não querem que suas verdades sejam reveladas. Casam para
manter a aparência. Durante o namoro, um homossexual pode mascarar uma
heterossexualidade sob o pretexto do “Escolhi esperar”, inibindo qualquer tipo
de contato mais íntimo com a parceira. Nada de beijos ardentes, até porque não
há nada esquentando dentro dele. Sem ousadia porque é pecado. Não.
Definitivamente não é por isso.
A luta que eles enfrentam é
constante. Negar-se a si mesmo não é fácil. Renunciar seus desejos, mesmo os
fundamentados na relação comumente aceita é uma tarefa das mais árduas. Imagine
quando esses desejos são socialmente condenados e biblicamente abomináveis. O
apóstolo São Paulo, escrevendo aos Romanos, onde a homossexualidade era
pungente até mesmo nas alcovas reais, fala de recompensa pelo erro da torpeza
dos homens que se inflamam em sua sensualidade com outros homens. Uma
recompensa mais parecida com castigo, diga-se de passagem. A maldição de ser
diferente.
Há
várias questões a serem abordadas sobre esse tema. Nascer homossexual ou
desenvolver a homossexualidade? O Criador fez homem e mulher. Então por que existem gays? Em 1999, o pesquisador
americano Bruce Bagemihl fez um levantamento amplo e descobriu que nada menos
que 450 tipos de mamíferos e aves têm hábitos homossexuais, em maior ou menor
grau. Isso vai desde espécies que se exibem para indivíduos do mesmo sexo até
aquelas que de fato formam casais homossexuais, chegando até a cuidar de
filhotes juntos, passando, é claro, pelas relações sexuais.
Em
seu livro, Bagemihl derruba teorias que afirmam que a homossexualidade surge
por falta de opção ou porque os animais se confundem. Para ele, os animais
homossexuais são assim por um motivo muito simples: porque apreciam o fato de
ter parceiros do mesmo sexo que eles. Outros indícios sugerem, no entanto, que
a orientação sexual da pessoa é definida no útero materno. Em mamíferos, o sexo
do bebê é definido pelo pai, que traz o cromossomo X ou Y para o filho. No
entanto, há um senão aí, como lembra Carlos C. Alberts, da Universidade Estadual
Paulista (Unesp) de Assis. Entre 4 a 8 semanas depois da fecundação, a mãe
grávida libera um hormônio sexual no embrião – hormônio que só vai ter efeitos
mesmo durante a adolescência.
É
essa substância que, segundo alguns pesquisadores, seria responsável pela
orientação sexual da pessoa. Se a combinação entre sexo do embrião e hormônio
bater, o indivíduo será heterossexual. Se não, será gay. Por exemplo, um
embrião do sexo feminino que receber hormônio feminino vai crescer e passar a
ter atração por homens. Se o embrião feminino, no entanto, receber hormônio
masculino, as chances de virar homossexual são maiores. É difícil afirmar que
esse mecanismo, sozinho, possa controlar toda a complexidade que é o
comportamento sexual humano. E, por isso, as bases biológicas da
homossexualidade seguem sob debate.
Claro,
são estudos científicos. Teorias. Nada prova nada. Pesquisas também mostraram
que dentre as pessoas que nasceram durante o cerco de Stalingrado, na Rússia,
na Segunda Guerra Mundial, 30% assumiram ser homossexuais na vida adulta. Mães
que durante a gestação sofreram fortes pressões emocionais, estresses ou risco
de vida teriam uma tendência maior a ter filhos gays? Pode ser uma explicação?
Será? Deveremos indicar então chá de camomila para as gestantes e evitar que o
mundo vire um arco-íris?
Vamos
para as igrejas. Já vi homossexuais passarem por sessões e mais sessões de
descarrego, a fim de expulsar as pombas-gira dos seus corpos. Eles
manifestavam, mudavam o tom de voz, colocavam a mão pra trás, faziam o “show”
que os demônios gostam. Logo após a imposição de mãos, eles paravam. Bebiam
água, sentavam. Pedíamos para dar “glórias a Deus”. Eles repetiam. Choravam
até, como o rosto no chão. Clamavam. Agradeciam a Deus. Testemunhavam que
estavam libertos. Passavam mais alguns meses na igreja. Não suportavam a
pressão. Não conseguiam. Vou ser bem sincero. Uma ínfima quantidade de pessoas
consegue. Ou fingem conseguir. Abandonam a prática da homossexualidade, mas
será que deixam de ser gays?
Creio
que podem conseguir viver sem namorar com pessoas do mesmo sexo. Alguns até se
casam com alguém do sexo oposto. Assumem uma vida heterossexual. Tem filhos.
Constituem família tradicional. Mas será que deixam de ser gays? O Criador fez
homem e mulher. Ser gay é estar no meio disso. A questão é qual o lado será
mais forte? O externo ou o interno? O biológico ou o emocional? Como lidamos
com quem passa por essa batalha?
O
que a igreja deve fazer? Jesus transforma. Esse é o discurso. Ou seja, Jesus
transforma. Entenderam? Não são os pastores que devem martirizá-los ao exigir
uma metamorfose urgente, forçando a borboleta a entrar novamente no casulo. A
borboleta já está voando. E não falo no sentido pejorativo. Dizer à borboleta
para voltar ao casulo é trancá-la no armário. Escutaremos o barulho, das unhas
arranhando a porta, dos socos desesperados, mas insistiremos em mantê-los
aprisionados até que mudem?
Felizmente,
querido leitor, não concordo com isso. Se é Cristo quem transforma, vamos
deixar o Mestre agir. E enquanto não há essa ação, até porque talvez nem
aconteça, vamos continuar amando. Por que apedrejar se também temos nossos
pecados? Por que punir, se também merecemos punição? Se queremos misericórdia,
que haja misericórdia para todos. Inclusive para os diferentes. Na verdade, se
nós nos aceitamos, por que não aceitar a todos? E se Deus quiser salvar um gay,
vamos discutir a respeito disso no céu? Vamos exigir a expulsão do homossexual
do coral celestial? Eu vou ser bem sincero. Eu ia ficar na minha. Caladinho. E
agradecer por estar com Cristo na glória.
Quero
externar meus incômodos. Perdi um grande amigo por ele preferir manter uma
imagem incólume, por medo de não ser aceito. E querem saber? Ele não seria
aceito mesmo. Foi uma das mentes mais brilhantes com a qual já tive o prazer de
conviver. Um mestre, um pai espiritual. Um mentor, como costumava chama-lo. Um
amigo confidente, para o qual contava todos os meus devaneios, falhas, erros,
pisadas na bola. Ele não me julgava. Ele me entendia. E dizia: os crentes são
implacáveis. As igrejas matam os imperfeitos, pois fazem com que eles tenham
que vestir armaduras perfeitas, pesadas demais, impossíveis de ser carregadas.
O verdadeiro gigante está dentro de nós. Logo, ele tem que cair por dentro e
não por fora.
Ele
tinha que subir aos púlpitos. Pregar. Levar o Evangelho. Almas se rendiam aos
pés do Senhor. E ele amava isso. Ele amava a igreja. Ele amava as pessoas.
Contudo, mantinha uma vida dupla. Jekyll and Hide. Eu nunca soube se ele
gostava mais de um do que do outro. Os dois coexistiam. Ele teria que escolher.
Se escolhesse o altar, para nós, seus admiradores, seria magnífico.
Continuaríamos sendo alimentados por ele. Cresceríamos em conhecimento.
Sugaríamos até a última gota da sua sabedoria. Contudo, se escolhesse a segunda
opção, seria massacrado, triturado, destruído por uma grande parte dos
evangélicos. Talvez apenas os poucos amigos de verdade, onde me incluo, ficasse
do seu lado. Ou talvez ninguém. Ele estaria feliz? Não sei. Não sei qual dos
dois trazia mais prazer à sua vida. Nunca saberei a resposta.
Ele
escolheu não escolher. Ficou com os dois. Acabou esfaqueado, assassinado,
morto. Um matou o outro. Os dois, dentro dele, se mataram. Foi cruel. Deus
sabe. A escolha mais difícil sempre é a não escolha. Levar a vida com a
barriga. Deixar pra amanhã. Não quero ser juiz de nada, pois não conseguiria
nem sequer me julgar.
Foi
muito por isso que eu resolvi escrever este livro. Ainda me angustio com o
desfecho dessa história. Passei a viver todos os dias intensamente e amar muito
mais todas as pessoas. Aprendi a não exigir nada que as pessoas não possam me
dar. Nenhum tipo de falso agrado é bem vindo. Nenhum sacrifício sem amor. A
vida é tão rápida. Decidi aceitar a vida. E fazer o melhor que posso com ela.
Misturar meus bons e maus momentos no liquidificador da minha existência e
tomar, de uma vez só. Respirar no final e dizer: como é gostoso. Como a vida é
gostosa! Aceitar os quilos a mais, mas querer perdê-los também. Aceitar a
ausência capilar, sem me esquecer de colocar vez por outra um chapéu elegante
ou um boné para parecer mais jovem. Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
como diz o poeta. Quem posso aceitar? Querem mesmo saber? Se você começar
deixando de rejeitar, já é um bom começo.
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