A questão musical é apenas a ponta do iceberg. A discussão é bem mais profunda. Já congreguei em várias igrejas diferentes. Como citei anteriormente, tive vários tipos de pastores. Assim, pude pinçar algo de bom em todos. Na verdade, estou sendo até cruel. Pincei as coisas ruins. Retirei-as e as joguei fora. Com cada um aprendi e até hoje aprendo. Grandes mestres, homens de Deus. Pessoas responsáveis pelo mosaico, ou seria colcha de retalhos, que é minha percepção espiritual atual.
Logo aos sete anos de idade, via minha mãe buscando a Deus em orações. Éramos de uma igreja Batista, não das tradicionais. Era o que chamamos de batista renovada. Acho que faltou essa perspectiva tradicional histórica protestante no meu caleidoscópio. A irmã Nicinha sempre fora envolvida na igreja e logo passamos a estar na batalha onde mais o fogo inflama também, como diria o hino da Harpa Cristã. Ah, antes que eu me esqueça, na Batista usávamos o chamado Cantor Cristão. Belas composições. Eu gostava. Ainda gosto. Já falei disso no capítulo anterior.
Como falei, era uma igreja renovada, o que significa que havia uma busca pelo sobrenatural. Outras línguas, não o inglês, espanhol, italiano, russo, mas línguas angelicais eram costumeiramente ouvidas em reuniões de oração. Presenciei minha mãe destruindo obras de arte indiana, queimando bonecas de porcelana, quebrando CDs, por estar certa de que o diabo ou uma força maligna qualquer havia adentrado nesses objetos e que estava provocando sérios problemas familiares. Para quem fazia antes de se converter jogos espíritas, como um com tesouras que invocava uma entidade chamada Jorginho que contava os segredos alheios e se manifestava de maneira horripilante, digna de filmes de terror como Atividade Paranormal, lidar com o sobrenatural era um costume para minha querida mãe. Existe um mundo invisível. Isso eu posso garantir. Já tive várias experiências nele. Discursarei um pouco sobre isso em outro capítulo.
Enfim, fui crescendo nesse meio. Apesar de passar mais tempo fora da igreja, brincando, durante os cultos, o ambiente me fazia bem. Após alguns anos e por causa de alguns problemas de relacionamento, fato comum dentro de toda e qualquer igreja que seja composta por seres humanos (não soube ainda de igrejas de ETs), meus pais passaram por uma legítima peregrinação ministerial. Nesse tempo, meu pai já era convertido. As fitas do Pinduca e do Messias Holanda, aquele que queria se atrepar em um pé de côco, foram gradativamente substituídas por música de crente. Ajudamos em algumas igrejas. Em algumas, hoje grandes potências da fé, usaram o nosso equipamento de som no início. Digo com muita alegria que já contribuímos muito para o evangelho em nossa cidade. Até que a matriarca decidiu abrir um "trabalho de oração" no quintal da nossa casa. Vinha gente de todos os lugares da cidade e até de outros municípios para a Oração da Irmã Nicinha. Foi quando conheci o que era ser pentecostal de verdade.
Vi pregadores jogarem raios de fogo invisíveis e derrubarem quem estava distante. Vi uma das minhas árvores preferidas, um pé de cajarana frondoso, morrer após uma das missionárias de fogo dizer que a planta era linda, uma das mais lindas que já tinha conhecido, com as frutas mais belas do planeta. Pasmem, a planta morreu na manhã seguinte. Podem acreditar. Ah, foi coincidência. Muito estranho. Pragas de inveja? Até hoje tenho minhas dúvidas. Nunca quis que essa mesma irmã dissesse nem mesmo que eu era bonito. Vai que...Deixa pra lá. Ouvi profecias para gestantes, que recebiam em lágrimas as mensagens dos adivinhadores mediúnicos gospéis (não existe essa palavra, eu sei), falando que o fruto do ventre era menino, mas se fosse menina era pra glória de Deus. Incrível, não? Ouvi de mulheres de roupão que Deus estava contemplando meu clamor nas madrugadas, nos momentos em que o meu sono era mais pesado. Visões de muriçocas de biquini, baleias voadoras, chaves, cobras, sapos, ratos, raposas, caixões, martelos. Qualquer coisa que você pensar. Tudo tinha um resultado final. Deus ia dar vitória. Deus ia curar. Deus ia converter. Ele sempre faria algo bom para nós no final. No final das contas, sairíamos vitoriosos.
Claro, havia pregadores bons também. Não era só essa meninice. Darckson Lira foi pregar no quintal da nossa casa. Tudo mudou. Estávamos nos congregando na Vale de Benção, uma das poucas que ainda tinha apreço pela Palavra de Deus. Minha família se tornou parte da história desse ministério. Depois tivemos que sair, passeamos um pouco, voltamos. Aprendi a amar a Bíblia. Aprendi a não ser apenas um "tocador" ou um cantor de hinos evangélicos. Era uma igreja pentecostal. Alguns vários anos depois, saímos da Vale, como chamávamos carinhosamente. Foi insustentável. Talvez fale sobre isso. Talvez não.
Depois de muito tempo, percebi que alguns questionamentos meus dos tempos dos cultos em minha casa tinham razão de existir. Percebi que o movimento pentecostal é gostoso. A efusão de glórias e aleluias, misturada com gritos e saltos quase que acrobáticos de causar inveja nos Hipólitos enche a nossa alma de alegria. Era divertido (não me entendam mal), ver pastores caindo por cima uns dos outros no altar. Estimulava quem estava na platéia a ser "cheio". Paletós suados que caiam sobre os irmãos, os fazendo desabar, como se o chão se abrisse. Certo dia, em um êxtase espiritual inexplicável, fui compungido a cair pelo resvalar de uma tolha jogada por um famoso preletor. Era um mover extraordinário. Uma fase intensa da minha vida. Jovens saiam carregados dos cultos, sem conseguir nem mesmo se colocarem de pé, tanto era o frenesi provocado pela unção derramada. Como era bom.
Entretanto, o tempo vai passando e parece que provamos da famosa maçã e fomos expulsos do paraíso. Perdemos a inocência. A oração do quintal acabou. Os vasos nos deixaram. O conhecimento passava a me dar mais prazer. Conheci mais as Escrituras. Percebi que, por mais que existissem pessoas sérias, que realmente buscavam a Deus de coração, em Espírito e em Verdade como queria Jesus, havia também muito fingimento e auto-promoções. As igrejas estão repletas de pessoas usando a Deus e não sendo usadas por Ele. Aproveitam-se de dons, talentos, para ludibriar, enganar, persuadir. Simulam quedas, piruetas, sapateados e até mesmo línguas para tornar o ambiente mais psicodélico e manipulável. Reitero que conheci servos e servas de Deus verdadeiramente usadas pelo Espírito Santo. Entretanto, a pilantragem está presente. É inegável.
Tudo isso me trouxe muita indignação. Para que mudar a impostação de voz? Por que razão colocar uma música de fundo, na maioria dos casos clássica, secular (isso eles não questionam), durante seus triunfalistas sermões? Por que exigir que todos participem da mesma vibe, taxando os que se eximem de crus, frios? Aqueles que não rodavam, não pulavam, não choravam, não falavam línguas angelicais eram os alvos prediletos das profecias, geralmente apontadoras de pecados ocultos, frieza espiritual ou covardia. Ser afeito às manifestações sobrenaturais é algo particular. Não posso obrigar que todos sintam o que sinto. Jamais posso querer colocar o Espírito Santo numa caixa de fósforo e moldá-lo ao meu bel-prazer. Pessoas são diferentes. Deus age como Ele quer. Não existe um padrão.
Percebi que há um banquete na nossa frente. Uns irão se lambuzar, comer com as mãos, falar de boca cheia, puxar a coxa do peru. Outros irão preferir as saladas, vão comer de garfo e faca. Usarão lenços para limpar a boca e tirar a gordura que estiver a escorrer pelo canto da boca, enquanto outros sugarão a sopa com tanta vontade que talvez queimem a língua. Entretanto, o objetivo final é que todos saiam alimentados. Não posso criticar quem se lambuza ou não, mas quem oferece o prato e não prova dele. De que adianta servir a comida, ver todos satisfeitos e não comer nada? De que adianta pregar o que não vive, querer que sejam o que não é?
Assembleianos, presbiterianos, batistas, universais. Doutrinas e dogmas diferentes. O que fazer? Respeito. Essa é a palavra. Quem quiser gritar, grite. Quem preferir orar no quarto, que ore. Sem palmas, com palmas. Com barba, sem barba. De calça, de saia. Com terno, sem terno. Cante forró, quem gosta do ritmo, mas respeite os roqueiros. Não é faca. É como a utilizamos. Facas matam, mas também cortam o pão e passam manteiga. Que não venhamos a matar quem pensa diferente. Se sou penteca? Sou crente. Isso basta?
domingo, 29 de novembro de 2015
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Que músicas posso ouvir?
Podem achar que eu sou um louco. But I'm not the only one. Jonh Lennon dizia que era um sonhador, claro, mas gostei de jogar com Imagine. Por acaso, também quero falar sobre esse tema. Sou muito seletivo no que diz respeito à música. Desde criança, me acostumei a ouvir minha querida mãe cantando Gigliola Cinqueti para dormir. Ouvia Agnaldo Timóteo, com o clássico Meu Grito. Nélson Gonçalves e A Casa dos Meus Sonhos, com um coral belíssimo e inesquecível. Long Plays de Erasmo e Roberto Carlos, até a relíquia do Festival de San Remo do Rei da Música tínhamos em casa. Até que meus pais se converteram.
Os temas das letras mudaram , mas continuei ouvindo música boa. Grupo Logos, com Autor da Minha Fé, a primeira música que cantei na igreja. Tinha muitas fitas K-7 de Vitorino Silva, que por sinal eu iria ainda realizar o sonho depois de muitos anos de gravar uma música eternizada em sua voz. Ouvia Eula Paula, Jorge Araújo, Milad, Cícero Nogueira, Armando Filho, Eduardo Silva, Embaixadores de Sião. Quanta poesia, quanta qualidade de arranjos e letras profundas e bíblicas. Deleitava-me, mesmo em meus doze ou treze anos com poesias assim:
Quem és tu?
Me perguntaram certo dia com ironia atroz
Quem és tu?
Que até os mortos nos sepulcros ouvem tua voz
A própria morte derrotaste
Oh Imarcescível luz
Eu sei quem és
És o Filho de Deus, Tu és Jesus
Lindo! Lindo! Lindo. Esplendorosa obra de arte do grande Oséias de Paula. Músicas de qualidade insofismável. Fui crescendo. Aprendi alguns acorde na guitarra e outros no teclado. Meu irmão Jorge aprendeu bateria nas panelas da cozinha. Começamos a tocar juntos. Passei a ouvir Rebanhão, Novo Som, Altos Louvores, Oficina G3, Petra, Michael W. Simth. A poesia continuava valorizada, mas os estilos mudaram. Nunca esqueço o CD duplo do Catedral, que tinha as inesquecíveis Carpe Diem e Simplesmente. Aquele álbum mudou a minha visão de música evangélica. Passei a gostar de rock. As letras do Kim eram loucas de pedra, batiam na religiosidade, chamavam os crentes de Filhos de Caim e a gente cantava inocentemente ou tentando achar que não era conosco. Isso até a entrevista distorcida por um site que tirou o Catedral do meio gospel. Que escândalo! Era o preço de dizer o que pensa.
Meio Gospel. Troféu Talento. Festival Promessas. É a ruína da música cristã. Os mantras "valadistas", as letras pobres "cirilantes" e o "hillsonguianismo" violentaram a nossa cultura musical. As letras de dez minutos com "Sopra", "Vem", "Derrama", imbecilizaram os compositores. Todos querem seguir o padrão americano, as levadas do U2, com o pretexto de louvar a Deus. Plágios escancarados, mas com direitos autorais destinados ao trono de Deus, pois se gabam de ter inspiração divina. Deus não escreveria nunca esses dejetos orgânicos, para não usar outra expressão.
E os cantores pentecostais? Eita! Anjos sobem e descem escadas cheias de prego, toscas, comidas de cupim. O fogo desce e infelizmente não queima a língua dos que apregoam a vingança. É uma enxurrada de vitórias, de meninos que rodam, de "peninas" que vão carregar o sofá na mudança (leiam o primeiro capítulo de 1 Samuel para entender). Os irmãos com a glicemia espiritual estratosférica devido ao sabor do mel. São metralhadoras matando os verdadeiros louvores. Ai que saudade! É de partir o coração. Daí quando digo que prefiro ouvir um Roupa Nova, um Jay Vaquer, por mais doido e desconhecido que seja, uma Adele e sua perfeita voz, um Coldplay autêntico ou até mesmo um Cauby Peixoto, a ouvir essas profanidades disfarçadas de santas, me taxam de incrédulo.
Ora! É pecado ouvir música do mundo? A música secular, porque foi composta por um "ímpio", não deve ser ouvida nem muito menos apreciada jamais? E a arte? Se for pecado escutar um Besame Mucho é pecado ler Cantares. Ou Salomão estava falando do amor de Jesus com a Igreja? Nunca! Salomão estava destilando sua paixão por sua amada e vice-versa. Não vou sair com a minha esposa e, num momento altamente romântico e íntimo, até mesmo em um motel ( SOCORRO!!!!), cantar para ela Os Guerreiros se Preparam ou Plena Paz e Santo Gozo, por mais estranhamente ambíguo que o título desses hinos seja para a ocasião. De maneira alguma. Cantaria talvez um Eu Sei que Vou te Amar ou Dona. Estaria eu cometendo um sacrilégio?
Vamos parar de ouvir música secular? Tudo bem. Não veja mais filmes também. Não use o facebook. Não tenha whatsapp. Não veja novelas (ah, isso é pecado mesmo), a não ser as bíblicas da Record. Nada de joguinhos de vídeo game ou de celular. Nada de nada. Subamos às montanhas e vivamos em mosteiros. Se o pretexto é de que as músicas foram compostas por pessoas não santas, não espirituais, não crentes, vamos abolir a tudo o que nos cerca. Nada de teatros, livros, museus, cultura. Apaguem da história Da Vinci, Machado, Vinícios, Tom, Chico, Caetano. Não leiam, a não ser a Bíblia. Quebrem os bibelôs de suas estantes pois podem ter sido feitos por artesãos da umbanda e podem trazer o Zé Pilintra ou o Tranca-Rua para dentro de sua casa. Continuem ignorantes. Não precisa saber de nada. Só precisamos de Deus, não é mesmo? Claro que não! Precisamos crescer na graça e no conhecimento. Deus não quer que sejamos idiotas. Música é cultura.
Ainda há quem se salve. Marcos Almeida, do Palavra Antiga, me fez entender que ainda pode-se fazer música de qualidade e falar de Deus. Leonardo Gonçalves e suas profundas poesias adventistas, sem falar na performance espetacular. Nem tudo está perdido. João Alexandre ainda está por aí. Eu mesmo me arrisco a compor e, modéstia a parte, não faço feio. Tudo que é belo vem de Deus. Quais músicas posso escutar? Não posso ouvir as pentecostais? Claro que pode. E o Guilherme Arantes? Também. Procure o que te convém. Ouça Contemplar (rerere). Ouça, sem esquecer algo importante. Seja seletivo, mas não seja preconceituoso. As mesmas igrejas que proíbem o secular cantam Parabéns a Você, que também é secular. Como fazer com que entendam isso? Sinceramente, não sei.
Os temas das letras mudaram , mas continuei ouvindo música boa. Grupo Logos, com Autor da Minha Fé, a primeira música que cantei na igreja. Tinha muitas fitas K-7 de Vitorino Silva, que por sinal eu iria ainda realizar o sonho depois de muitos anos de gravar uma música eternizada em sua voz. Ouvia Eula Paula, Jorge Araújo, Milad, Cícero Nogueira, Armando Filho, Eduardo Silva, Embaixadores de Sião. Quanta poesia, quanta qualidade de arranjos e letras profundas e bíblicas. Deleitava-me, mesmo em meus doze ou treze anos com poesias assim:
Quem és tu?
Me perguntaram certo dia com ironia atroz
Quem és tu?
Que até os mortos nos sepulcros ouvem tua voz
A própria morte derrotaste
Oh Imarcescível luz
Eu sei quem és
És o Filho de Deus, Tu és Jesus
Lindo! Lindo! Lindo. Esplendorosa obra de arte do grande Oséias de Paula. Músicas de qualidade insofismável. Fui crescendo. Aprendi alguns acorde na guitarra e outros no teclado. Meu irmão Jorge aprendeu bateria nas panelas da cozinha. Começamos a tocar juntos. Passei a ouvir Rebanhão, Novo Som, Altos Louvores, Oficina G3, Petra, Michael W. Simth. A poesia continuava valorizada, mas os estilos mudaram. Nunca esqueço o CD duplo do Catedral, que tinha as inesquecíveis Carpe Diem e Simplesmente. Aquele álbum mudou a minha visão de música evangélica. Passei a gostar de rock. As letras do Kim eram loucas de pedra, batiam na religiosidade, chamavam os crentes de Filhos de Caim e a gente cantava inocentemente ou tentando achar que não era conosco. Isso até a entrevista distorcida por um site que tirou o Catedral do meio gospel. Que escândalo! Era o preço de dizer o que pensa.
Meio Gospel. Troféu Talento. Festival Promessas. É a ruína da música cristã. Os mantras "valadistas", as letras pobres "cirilantes" e o "hillsonguianismo" violentaram a nossa cultura musical. As letras de dez minutos com "Sopra", "Vem", "Derrama", imbecilizaram os compositores. Todos querem seguir o padrão americano, as levadas do U2, com o pretexto de louvar a Deus. Plágios escancarados, mas com direitos autorais destinados ao trono de Deus, pois se gabam de ter inspiração divina. Deus não escreveria nunca esses dejetos orgânicos, para não usar outra expressão.
E os cantores pentecostais? Eita! Anjos sobem e descem escadas cheias de prego, toscas, comidas de cupim. O fogo desce e infelizmente não queima a língua dos que apregoam a vingança. É uma enxurrada de vitórias, de meninos que rodam, de "peninas" que vão carregar o sofá na mudança (leiam o primeiro capítulo de 1 Samuel para entender). Os irmãos com a glicemia espiritual estratosférica devido ao sabor do mel. São metralhadoras matando os verdadeiros louvores. Ai que saudade! É de partir o coração. Daí quando digo que prefiro ouvir um Roupa Nova, um Jay Vaquer, por mais doido e desconhecido que seja, uma Adele e sua perfeita voz, um Coldplay autêntico ou até mesmo um Cauby Peixoto, a ouvir essas profanidades disfarçadas de santas, me taxam de incrédulo.
Ora! É pecado ouvir música do mundo? A música secular, porque foi composta por um "ímpio", não deve ser ouvida nem muito menos apreciada jamais? E a arte? Se for pecado escutar um Besame Mucho é pecado ler Cantares. Ou Salomão estava falando do amor de Jesus com a Igreja? Nunca! Salomão estava destilando sua paixão por sua amada e vice-versa. Não vou sair com a minha esposa e, num momento altamente romântico e íntimo, até mesmo em um motel ( SOCORRO!!!!), cantar para ela Os Guerreiros se Preparam ou Plena Paz e Santo Gozo, por mais estranhamente ambíguo que o título desses hinos seja para a ocasião. De maneira alguma. Cantaria talvez um Eu Sei que Vou te Amar ou Dona. Estaria eu cometendo um sacrilégio?
Vamos parar de ouvir música secular? Tudo bem. Não veja mais filmes também. Não use o facebook. Não tenha whatsapp. Não veja novelas (ah, isso é pecado mesmo), a não ser as bíblicas da Record. Nada de joguinhos de vídeo game ou de celular. Nada de nada. Subamos às montanhas e vivamos em mosteiros. Se o pretexto é de que as músicas foram compostas por pessoas não santas, não espirituais, não crentes, vamos abolir a tudo o que nos cerca. Nada de teatros, livros, museus, cultura. Apaguem da história Da Vinci, Machado, Vinícios, Tom, Chico, Caetano. Não leiam, a não ser a Bíblia. Quebrem os bibelôs de suas estantes pois podem ter sido feitos por artesãos da umbanda e podem trazer o Zé Pilintra ou o Tranca-Rua para dentro de sua casa. Continuem ignorantes. Não precisa saber de nada. Só precisamos de Deus, não é mesmo? Claro que não! Precisamos crescer na graça e no conhecimento. Deus não quer que sejamos idiotas. Música é cultura.
Ainda há quem se salve. Marcos Almeida, do Palavra Antiga, me fez entender que ainda pode-se fazer música de qualidade e falar de Deus. Leonardo Gonçalves e suas profundas poesias adventistas, sem falar na performance espetacular. Nem tudo está perdido. João Alexandre ainda está por aí. Eu mesmo me arrisco a compor e, modéstia a parte, não faço feio. Tudo que é belo vem de Deus. Quais músicas posso escutar? Não posso ouvir as pentecostais? Claro que pode. E o Guilherme Arantes? Também. Procure o que te convém. Ouça Contemplar (rerere). Ouça, sem esquecer algo importante. Seja seletivo, mas não seja preconceituoso. As mesmas igrejas que proíbem o secular cantam Parabéns a Você, que também é secular. Como fazer com que entendam isso? Sinceramente, não sei.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Sexo? Não fale sobre isso!!!!
Sexo é vida, já diz um comercial de uma clínica famosa que trata de disfunções sexuais. Os dias atuais nem se comparam à minha adolescência, quando me contentava em assistir os filmes das madrugadas de sábado para domingo na TV Bandeirantes. Emanuelle em Paris, na África, em Marte, nas galáxias. Via escondido, é óbvio. Fantasiava ao ver um belo par de seios ou nádegas, com raríssimos momentos de nu frontal das atrizes da película. Era meu único contato com a parte proibida do sexo oposto. Não podia ver. Não podia imaginar. Mas como controlar os desejos se fazem parte da nossa essência. Nossa animalidade, mesmo racional, nos torna sujeitos ao períodos de cio, a vontade muitas vezes incontrolável de extravasar, de colocar pra fora o gozo reprimido.
Sim. Somos sexualmente reprimidos. Sou muito a favor do sexo dentro do casamento, como forma de enlace de amor, de intimidade, de mutualidade. É o instante glorioso onde o corpo da mulher é do homem e vice-versa. Quando é feito com amor, gozar é uma das maiores sensações do planeta. A quase morte orgásmica nos faz sentir vivos, humanos, animais. O problema é que temos necessidades sexuais bem mais cedo do que imaginamos. Logo, namorar parece ser uma zona de guerra para a mocidade de nossas congregações.
Se a igreja indicar que os jovens não namorem, fica difícil. Mandamos os jovens orarem mais, lerem mais a Bíblia, jejuarem, matarem a carne, negarem-se. Porém, na própria mocidade há jovens lindas e atraentes. Os olhares vão acontecer. Os teens vão querer comer uma pizza juntos, deixá-las em casa, tomarem um sorvete, um refrigerante de cajú (fiz muito isso). O cheirinho do perfume da garota ficará nas mãos do cristão fervoroso de pouca idade. E, ao chegar em casa, esse mesmo jovem, que ama a Jesus, que toca no ministério de louvor, que frequenta às escolas dominicais, colocará suas mãos nas suas narinas e ficará embriagado com a lembrança olfativa da donzela. Apenas isso será necessário para iniciar uma batalha inquisitória dentro da alma infanto-juvenil. Ele está apaixonado. Quer ver a mocinha. Não consegue desligar o telefone ao ouvir a voz dela. Pensa nela o tempo inteiro. Inclusive no banheiro.
Pare! Que blasfêmia! Ignorar a masturbação é um dos problemas de nossas igrejas. Pensar, sentir, simular, imaginar. Quantos jovens conheci, até mesmo líderes de louvor ou dirigentes de mocidade que guardavam as famosas revistas masculinas debaixo da cama. Não que não seja possível estar apaixonado por alguém sem querer fazer sexo com ela. Pode sim existir um amor tão platônico e tão devotado, capaz de considerar a amada como intocável, como uma deusa idolatrada. Isso não é o padrão. Quando estamos loucamente apaixonados, queremos por completo. Os lábios, a sinceridade, os cabelos, o carinho, o corpo, a reciprocidade. A paixão é demoníaca? Diabólica? Sinceramente, não sei de onde essa doença vem. Sei apenas que todos alguma vez na vida, ou até mesmo várias vezes, são acometidos por esse maravilhoso mal.
E se a igreja aceitar que namorem? O namoro tem que ser pra casar. E o sexo apenas depois do casamento. Escolher esperar ou ser obrigado a esperar? Aí fica estreito, como dizemos no jargão evangélico. Como deve ser um namoro cristão? Evitar lugares escuros e solitários. Não estar sozinhos em lugar nenhum. Não beijar na boca. O que? Não beijar na boca? Como pode existir um namoro sem beijo na boca? Meus amigos, todos sabem. Beijou na boca, pronto. Começou. E se fosse apenas selinho? E se não fosse beijo de língua? Os movimentos feitos na boca durante o beijo são um ensaio do que queremos que aconteça mais ao sul.
Temos um grande impasse então. Até que ponto podemos chamar de fornicação uma relação sexual entre jovens namorados, que se amam profundamente e que tem certeza que vão se casar, que são uma só carne, mesmo antes de assinar um papel e conviver debaixo do mesmo teto? Devemos nos conscientizar das inúmeras exceções às regras. Não sou a favor de que o jovem saia transando com todas as suas "peguetes" ou flertes, modernizando ou romantizando, mas que o sexo seja responsável. Vi meninos e meninas de 16 anos tendo que brincar de casinha sem brincadeira apenas por ter caído no pecado da prostituição mútua, assumindo o compromisso de gerenciar uma família sem a mínima condição psico-econômico-social para tal. Pior quando o matrimônio é fundamentado em uma gravidez indesejada, pulando etapas da vida, queimando processos de desenvolvimento e criando casais espiritualmente despreparados.
Tudo isso acontece muito. E não podemos intervir. É uma heresia das grandes aconselhar a um jovem que use preservativos ou outros métodos anticoncepcionais durante o namoro. Se fizermos isso, abrimos precedentes. Se não fizermos, vamos continuar lidando com as profundas angústias sexuais da juventude. Meninas mães, com pais desajustados ou até mesmo sem pais, fazem avós assumirem o papel que lhes era devido. Nas classes mais baixas, geralmente as que sofrem mais com as pressões dogmáticas da religião e da sociedade em si, o aborto chega a ser a última opção. Trauma para a vida inteira. Assassinam bebês porque assassinaram seus desejos. Forte não é? Se o sexo é vida, um casamento mal feito pode ser a morte. Casar para ter relações sexuais sem pecado é uma das piores decisões da vida. Não nos livramos de um erro com outros erros.
Avalanches se formam com pequenas bolas de neve que rolam montanhas. E vão crescendo, crescendo. É a mão boba, o beijo quente, a foto enviada por aplicativos de celular, a conversa picante, o entrelaçar dos corpos sem roupa. Imaginar também é pecado. Como não imaginar? Como controlar o pensamento? Simplesmente impossível. E se imaginar já é pecado, a diferença está nas consequências do ato propriamente dito. Qual seria o limite? Estou apenas abrindo a discussão milenar. Não digo para sair provando todos e todas, experimentando como sabores de sorvete. Isso sim é fornicação. Isso sim é abominável e altamente prejudicial. Lembram o que falei sobre dizer não? O Espírito Santo estabelece até onde vai o elástico. Se o esticarmos muito, pode quebrar. E quando quebra dói muito.
Vamos orar mais. Vamos pedir mais forças a Deus. Jesus disse que teríamos aflições no mundo. Ele sabia o que iríamos passar. Seria um crime pensar que o próprio Jesus possa ter amado alguém também? Se alguém aparecesse com documentos que comprovassem que o Nosso Senhor tenha encontrado um grande amor na terra, que tivesse se casado na perspectiva judaica ou até mesmo tivesse sido pai biológico de algum afortunado ser, rasgaríamos a Bíblia afirmando que Cristo teria pecado? Para mim, não. Jesus se esvaziou para ser como nós. Era Deus homem. Como costumam dizer, totalmente homem e totalmente Deus. Seu lado plenamente homem nos entende. E se alguma vez, meu querido jovem leitor, você ficar excitado durante um abraço com sua namorada, noiva, futura esposa, não se desespere. É sinal que você é heterossexual e essa atração é completamente natural.
A questão é que precisamos falar sobre isso. Precisamos pensar sobre isso. Ensinar sobre sexo pode ser uma responsabilidade da família, mas acaba afetando de maneira intensa a igreja. Temos que nos posicionar em relação a esse tema. Sexo é bom. É muito bom. Não vamos transformá-lo em maldição. O prazer também é uma benção. Armandinho, um compositor baiano, gravou uma polêmica música, cuja letra dizia: "Quando Deus te desenhou, Ele tava namorando na beira do mar". E até que eu acredito nisso. Deus estava amando muito quando nos criou. Somos frutos do amor. Não vamos estragar isso tudo.
E se a igreja aceitar que namorem? O namoro tem que ser pra casar. E o sexo apenas depois do casamento. Escolher esperar ou ser obrigado a esperar? Aí fica estreito, como dizemos no jargão evangélico. Como deve ser um namoro cristão? Evitar lugares escuros e solitários. Não estar sozinhos em lugar nenhum. Não beijar na boca. O que? Não beijar na boca? Como pode existir um namoro sem beijo na boca? Meus amigos, todos sabem. Beijou na boca, pronto. Começou. E se fosse apenas selinho? E se não fosse beijo de língua? Os movimentos feitos na boca durante o beijo são um ensaio do que queremos que aconteça mais ao sul.
Temos um grande impasse então. Até que ponto podemos chamar de fornicação uma relação sexual entre jovens namorados, que se amam profundamente e que tem certeza que vão se casar, que são uma só carne, mesmo antes de assinar um papel e conviver debaixo do mesmo teto? Devemos nos conscientizar das inúmeras exceções às regras. Não sou a favor de que o jovem saia transando com todas as suas "peguetes" ou flertes, modernizando ou romantizando, mas que o sexo seja responsável. Vi meninos e meninas de 16 anos tendo que brincar de casinha sem brincadeira apenas por ter caído no pecado da prostituição mútua, assumindo o compromisso de gerenciar uma família sem a mínima condição psico-econômico-social para tal. Pior quando o matrimônio é fundamentado em uma gravidez indesejada, pulando etapas da vida, queimando processos de desenvolvimento e criando casais espiritualmente despreparados.
Tudo isso acontece muito. E não podemos intervir. É uma heresia das grandes aconselhar a um jovem que use preservativos ou outros métodos anticoncepcionais durante o namoro. Se fizermos isso, abrimos precedentes. Se não fizermos, vamos continuar lidando com as profundas angústias sexuais da juventude. Meninas mães, com pais desajustados ou até mesmo sem pais, fazem avós assumirem o papel que lhes era devido. Nas classes mais baixas, geralmente as que sofrem mais com as pressões dogmáticas da religião e da sociedade em si, o aborto chega a ser a última opção. Trauma para a vida inteira. Assassinam bebês porque assassinaram seus desejos. Forte não é? Se o sexo é vida, um casamento mal feito pode ser a morte. Casar para ter relações sexuais sem pecado é uma das piores decisões da vida. Não nos livramos de um erro com outros erros.
Avalanches se formam com pequenas bolas de neve que rolam montanhas. E vão crescendo, crescendo. É a mão boba, o beijo quente, a foto enviada por aplicativos de celular, a conversa picante, o entrelaçar dos corpos sem roupa. Imaginar também é pecado. Como não imaginar? Como controlar o pensamento? Simplesmente impossível. E se imaginar já é pecado, a diferença está nas consequências do ato propriamente dito. Qual seria o limite? Estou apenas abrindo a discussão milenar. Não digo para sair provando todos e todas, experimentando como sabores de sorvete. Isso sim é fornicação. Isso sim é abominável e altamente prejudicial. Lembram o que falei sobre dizer não? O Espírito Santo estabelece até onde vai o elástico. Se o esticarmos muito, pode quebrar. E quando quebra dói muito.
Vamos orar mais. Vamos pedir mais forças a Deus. Jesus disse que teríamos aflições no mundo. Ele sabia o que iríamos passar. Seria um crime pensar que o próprio Jesus possa ter amado alguém também? Se alguém aparecesse com documentos que comprovassem que o Nosso Senhor tenha encontrado um grande amor na terra, que tivesse se casado na perspectiva judaica ou até mesmo tivesse sido pai biológico de algum afortunado ser, rasgaríamos a Bíblia afirmando que Cristo teria pecado? Para mim, não. Jesus se esvaziou para ser como nós. Era Deus homem. Como costumam dizer, totalmente homem e totalmente Deus. Seu lado plenamente homem nos entende. E se alguma vez, meu querido jovem leitor, você ficar excitado durante um abraço com sua namorada, noiva, futura esposa, não se desespere. É sinal que você é heterossexual e essa atração é completamente natural.
A questão é que precisamos falar sobre isso. Precisamos pensar sobre isso. Ensinar sobre sexo pode ser uma responsabilidade da família, mas acaba afetando de maneira intensa a igreja. Temos que nos posicionar em relação a esse tema. Sexo é bom. É muito bom. Não vamos transformá-lo em maldição. O prazer também é uma benção. Armandinho, um compositor baiano, gravou uma polêmica música, cuja letra dizia: "Quando Deus te desenhou, Ele tava namorando na beira do mar". E até que eu acredito nisso. Deus estava amando muito quando nos criou. Somos frutos do amor. Não vamos estragar isso tudo.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
No que eu posso crer?
Sou dentista. Um estudioso das áreas médicas. Dedico-me a cuidar de dentes, devolver estruturas perdidas, melhorar a auto-estima e proporcionar aos meus clientes ou pacientes (como preferirem) o sonho de voltar a sorrir. Para isso, estudar a Biologia foi fundamental, claro. Estudei a Teoria do Big Bang, hoje já não tão aceita pelo próprio Stephen Hawkings, a Teoria da Evolução de Darwin e já tive que responder em várias provas que a vida surgiu de uma sopa de coacervados, que formaram as bactérias, que foram se unindo, se multiplicando, evoluindo, até surgir o ser humano. Para mim, isso é muito mais difícil de acreditar do que no conto de Adão e Eva.
Adão, Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia do "Haja", quando pelo poder da palavra o Criador fez tudo. Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão? Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes, índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais/gentios/não-judeus encaram a criação?
Por exemplo, o mito chinês da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir. Depois de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo.
Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal. Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares. Creio que o Adão é simbólico, é a humanidade sendo criada. A humanidade que precisa de alguém ao seu lado, que se sentia solitária no jardim, que precisava viver em comunhão verticalmente e horizontalmente, com Deus e com os outros seres humanos. O homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo auto-destrutivo, é expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói uma cidade. A cidade é o jardim humano. E assim a desgraça começa.
Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta reinando, sob a ótica anti-cristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Roma, Londres, Rio, São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, cremos no novo Adão, Jesus, que morreu na cruz do Calvário, derrotou todas as forças do mal e nos deu o direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. Minha interpretação do apocalipse se torna então com dragões dominando humanos em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos leões nas arenas romanas?
Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as Escrituras. Podemos ver Deus como um carrasco, um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar com Ele por meio dessa última opção.
Ah...e o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que pregar se Deus já escolheu os salvos?
Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso. Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para algo tão gostoso e deliciosamente atraente.
Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar, vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e, dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas lamentações.
No que posso crer? A pergunta certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a navegação corporal, tenham que se casar.
Por que, meu Deus? Por que????
continua
Adão, Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia do "Haja", quando pelo poder da palavra o Criador fez tudo. Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão? Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes, índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais/gentios/não-judeus encaram a criação?
Por exemplo, o mito chinês da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir. Depois de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo.
Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal. Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares. Creio que o Adão é simbólico, é a humanidade sendo criada. A humanidade que precisa de alguém ao seu lado, que se sentia solitária no jardim, que precisava viver em comunhão verticalmente e horizontalmente, com Deus e com os outros seres humanos. O homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo auto-destrutivo, é expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói uma cidade. A cidade é o jardim humano. E assim a desgraça começa.
Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta reinando, sob a ótica anti-cristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Roma, Londres, Rio, São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, cremos no novo Adão, Jesus, que morreu na cruz do Calvário, derrotou todas as forças do mal e nos deu o direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. Minha interpretação do apocalipse se torna então com dragões dominando humanos em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos leões nas arenas romanas?
Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as Escrituras. Podemos ver Deus como um carrasco, um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar com Ele por meio dessa última opção.
Ah...e o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que pregar se Deus já escolheu os salvos?
Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso. Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para algo tão gostoso e deliciosamente atraente.
Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar, vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e, dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas lamentações.
No que posso crer? A pergunta certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a navegação corporal, tenham que se casar.
Por que, meu Deus? Por que????
continua
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
O que posso dizer?
Quaisquer revelações não programadas previamente podem casualmente mexer com os brios eclesiásticos de muita gente. Dessa forma, pouparei a multidão de incautos de alguns acontecimentos mais confusos. A estrada foi longa, difícil, árdua e diversas cenas esquisitas foram vistas em cada parada de estação. O que poderia dizer então? Como definir o que pode ser dito ou não, já que decidi abrir o jogo por completo? Caso seja necessário um filtro, não seria uma omissão de algumas verdades?
A verdade é que realmente nem todo mundo está preparado para ouvir o que temos a dizer. Existem fatos que doem. Há um sério risco de ferimentos na alma. A realidade é que sempre preferi as verdades ditas sob o poder de um microfone, à distância, pois vêm previamente anestesiadas. A aceitação nesse método expositivo é bem mais fácil. Ora, ora. Não é um cara qualquer falando. É o pastor. Esse nome tem poder (só que não). Resumindo, falar o que queremos dizer quando estamos vestidos de reverendo é aceitável.
Todos são um pouco sádicos, lá no fundo. Preferimos alguém que grite, que esbraveje, que reclame. Isso nos faz parecer visíveis. E ser visível não é tão ruim. Mesmo que seja uma má visibilidade, ser observado já é um sinal de que está presente no mundo.O problema é quando somos vistos o tempo inteiro. A visibilidade exacerbada nos faz perder a liberdade. O direito de ir e vir. Afinal de contas, por que não ir ao cinema? Não seria "pecar" da mesma forma quando vemos a um filme da Tela Quente? Por que não podemos ver um jogo de futebol no estádio? Não seria o mesmo que ver um jogo em casa, na TV, sentado no sofá?
Regras. Dogmas. Valores pré-estabelecidos pela religiosidade. Como vencê-los? Como remover o fardo das costas, substituir por um fardo leve e um jugo suave, se a religião devolve esse peso elevado à quinta potência? Haja hipocrisia disfarçada de sermões. Se eu acredito em OVNIs, extraterrestres, Multiverso, como posso não falar? Se eu acredito em naves espaciais, outras dimensões, na naturalidade das Escrituras Sagradas, na multiplicação dos pães e peixes baseada no compartilhar dos alimentos entre todos os presentes, na morte como um sono e um passaporte para um outro plano que pode ou não ser simultâneo ao que estamos vivendo, por que não posso dizer?
Sim. Prefiro que me chamem pelo meu nome do que de pastor. Na clínica odontológica, doutor também soa interessante, apesar de eu não ter doutorado. Pastor pesa. Pastor carrega uma infinidade de "Não possos". Não posso falar. Não posso fazer. Não posso ser. É a morte da personalidade. É o ser SACERDOTE. É ter que esquecer o que sou e ser o pastor. É ser o Neo, do Matrix. É ser o Gandalf ou o Professor Xavier. É ser o Mestre dos Magos, claro que do bem, se bem que ele sempre some quando mais se precisa dele...E se eu fosse assim também? Será que me faria bem?
Talvez.
Todavia, há também muitos benefícios nessa caminhada pastoral. Quantos testemunhos já ouvi de pessoas que tiveram a vida transformada através de um louvor que cantei, uma mensagem que preguei, uma palavra que eu disse. Sei que pode parecer, pra quem lê o que falei anteriormente, que é péssimo, terrível, assustador, insuportável ser pastor. Não é. O que é péssimo, terrível, assustador e insuportável é o que querem que o pastor seja. É não deixarem que ele seja humano.
Ovelhas. Não tinha um outro tipo de animal mais adequado com o qual Deus nos comparasse. É um bicho extremamente sensível. Quase sempre são criadas em rebanhos. Não tem mecanismos de defesa. São dóceis. Tiramos a lã e cresce novamente. Precisam de tosas constantes. Há os que até se beneficiem delas, vendendo a lã. Os crentes são ovelhas mesmo. Sensíveis, melindrosos, chorões. É complicado entender a cabeça de um "crente". Se não são chamados para o serviço na "obra", sentem-se abandonados. Se são muito solicitados, consideram-se sufocados pelos afazeres e culpam a igreja pelos problemas familiares, pela má educação os filhos, pelo casamento destruído, pelo pneu furado, pelos prejuízos financeiros. Isso quando a culpa recai sobre a igreja. Na maioria dos casos, o culpado das tragédias produzidas por eles próprios é o pastor.
Sim, a culpa é minha. Quantas vezes ouvi isso na minha vida? Perdi a conta. Meu casamento acabou porque o pastor não foi na minha casa me visitar. Meu filho está nas drogas porque o pastor não foi ungir o quarto dele. Meu carro bateu porque o pastor não orou pelas chaves do meu carro. Roubaram minha casa porque o pastor não untou os umbrais das portas com azeite ungido recolhido das oliveiras dos arredores de Jerusalém. Acham exagero? São ovelhas, meus amigos. A ovelha precisa do pastor. Se ela cai num penhasco, é o pastor quem tem que se ralar todo no despenhadeiro, se pendurar num galho de árvore e erguer a pobre criatura com apenas uma mão, enquanto a outra fica ocupada tentando salvar sua própria vida. Caso essa ovelha não sobreviva, quer dizer, perca a sua salvação (há controversas), o único responsável por essa trágica situação é o pastor, pela desatenção ao não perceber a ovelha escapar e a imperícia em resgatá-la da morte iminente e infelizmente constatada.
Ser pastor é isso. Logo, consigo imaginar o quão decepcionante eu sou. Se na perspectiva divina o chamado pastoral está implicitamente ligado a essa descrição, posso dizer que sou um "pato" eclesiástico. Isso mesmo, um pato. Nada, voa, corre. Mal, mal, mal, respectivamente. Fazer um pouco de cada coisa seria então não fazer nada a contento? Será que realmente o fantástico Apóstolo Paulo tinha razão ao nos aconselhar dizendo: "uma coisa só faço"? Já me perguntaram isso também. Por que não abandonar tudo e ser apenas pastor? Posso enumerar uma série de respostas a essa pergunta, mas vou deixar para depois.
Não posso dizer uma galáxia de coisas. São informações extraterrestres e extraordinárias. Assuntos tão psicodélicos e socialmente inaceitáveis que reservarei o direito de permanecer calado em relação a alguns temas. Entretanto, posso falar muito ainda. Quem tem boca, falar o que quer, já diz adágio popular. Posso ir até a Roma, se depender do ditado. Ou ditado seria "quem tem boca vaia Roma"? Nunca soube ao certo. Não quero vaias para o que vou contar. Vaiem Roma. Não sou um Erasmo de Roterdã da vida, muito longe disso, mas espero que alguns elogiem essa minha pseudo-loucura. Que Roma seja vaiada. Poupem meus ouvidos, até porque sou cearense e vaia daqui da região é inconfundível e humilhante, apesar de jocosa. Falarei muito. Muito mesmo. Não tudo, mas muito.
Continua
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