quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O que existe dentro?
Parei. Abandono agora todo o disfarce que me foi extremamente necessário durante todos esses anos. Necessário, não pela hipocrisia ou falsidade. Todos temos segredos. Nem todos estão preparados para ouvir o que temos a dizer. Logo, é preferível o silêncio. Lancinante, cruel, sufocante. Contudo, necessário.
Começo com a notícia boa ou a ruim? Sempre que me faziam essa pergunta, sempre optei pela notícia ruim antes. A boa poderia funcionar como a solução para os problemas anteriormente citados. Abrindo parênteses, peço desde já desculpas se utilizar uma linguagem muito dissertativa. Apesar de ser um amante da poesia, sou bem melhor escrevendo crônicas(as bíblicas são muito bem escritas). Enfim, querem a notícia boa logo? Aí vai.
Eu sou eu. Não o pastor, o pregador, o exemplo. Ser eu é muito bom. Amo demais o fato de que eu sou eu. Podem achar loucura, mas passei a vida inteira me esforçando para ser o que queriam que eu fosse. A professora do ginásio queria que todos fossem como eu. E isso era um peso gigante. Entrei num mundo próprio. O garoto que riscava as colchas de cama para construir estádios, autódromos, campos de guerra, desenvolvia trincheiras inexploradas, arquitetando um universo paralelo escondido, dentro dele. Tudo estava certo. Tudo estava errado.
Não, eu não sou gay. Esse, sem dúvida, seria o maior escândalo por qual um pastor possa passar. Que estranha essa aversão a um pecado como qualquer outro. Qual a diferença de ser um homossexual a ser um ladrão, corrupto, mentiroso, mercador da fé, prostituto, alcoólatra, entre outras características não tão abomináveis? Já fui ovelha de interesseiro, beberrão, falso, megalomaníaco, gay, cada qual com a sua respectiva carapuça. Entretanto, seus defeitos não cobriam suas qualidades. Acho que é o meu caso.
Quem sou eu para me absolver? As pessoas me acham um cara legal. Creio que a grande maioria das pessoas falam bem de mim. Claro, a maioria das reclamações reside no fato de que eu não personifique aquilo que meu título eclesiástico exige que eu seja. Decepcionam-se com meus sermões espirituosos, engraçados até. Taxam-me de cru, incrédulo, sem marcas nos joelhos, desinteressado, passador de mãos em cabeças merecedoras de castigos. Portanto, eles não gostam do que eu sou. Gostam da imagem daquilo que eu poderia ser. E o pior é que eu poderia ser tudo que queriam. E o melhor é que eu não sou.
Quem são eles? Ah, o meio evangélico é muito paradoxal. Pregar o amor e matar. Idealizar uma linha tênue entre o céu e o inferno, onde as diferenças doutrinárias podem, sem sombra de dúvidas, definir o destino das almas. Pescar de aquários sob o pretexto da autêntica verdade, por mais pleonástica que essa expressão seja. Não existem verdades mentirosas nem mentiras verdadeiras. Se todos são donos da verdade, a verdade não é de ninguém. Se a verdade não é de ninguém, todos mentem?
Há sim, como nos tempos do profeta Elias (procure conhece-lo, ele é fantástico), alguns joelhos que não se dobraram ao sistema bestial no qual estamos imersos. Existem alguns que ainda entendem o evangelho como boas novas e não como inquisição, com mais cuidado e menos fogueiras. O problema é que os que entendem assim são jogados na fogueira. São queimados e esquecidos.
Talvez, depois desses meus depoimentos bombásticos para alguns, ou nem tanto para outros, também faça parte do seleto grupo dos hereges, bruxos, endemoniados, desviados, rebeldes.
Nesse momento, já me sinto assustado. Contudo, não serei covarde e contarei tudo que vivi, tudo que passei, toda a parte ruim, se assim quiserem enxergar, da minha vida. Confesso que apenas tive vontade de viver. Se esse é ou foi o meu pecado, que Deus me perdoe. Preciso desabafar. Como dizia Bezerra da Silva, deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida. E direi...
Continua
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