segunda-feira, 2 de novembro de 2015
O que posso dizer?
Quaisquer revelações não programadas previamente podem casualmente mexer com os brios eclesiásticos de muita gente. Dessa forma, pouparei a multidão de incautos de alguns acontecimentos mais confusos. A estrada foi longa, difícil, árdua e diversas cenas esquisitas foram vistas em cada parada de estação. O que poderia dizer então? Como definir o que pode ser dito ou não, já que decidi abrir o jogo por completo? Caso seja necessário um filtro, não seria uma omissão de algumas verdades?
A verdade é que realmente nem todo mundo está preparado para ouvir o que temos a dizer. Existem fatos que doem. Há um sério risco de ferimentos na alma. A realidade é que sempre preferi as verdades ditas sob o poder de um microfone, à distância, pois vêm previamente anestesiadas. A aceitação nesse método expositivo é bem mais fácil. Ora, ora. Não é um cara qualquer falando. É o pastor. Esse nome tem poder (só que não). Resumindo, falar o que queremos dizer quando estamos vestidos de reverendo é aceitável.
Todos são um pouco sádicos, lá no fundo. Preferimos alguém que grite, que esbraveje, que reclame. Isso nos faz parecer visíveis. E ser visível não é tão ruim. Mesmo que seja uma má visibilidade, ser observado já é um sinal de que está presente no mundo.O problema é quando somos vistos o tempo inteiro. A visibilidade exacerbada nos faz perder a liberdade. O direito de ir e vir. Afinal de contas, por que não ir ao cinema? Não seria "pecar" da mesma forma quando vemos a um filme da Tela Quente? Por que não podemos ver um jogo de futebol no estádio? Não seria o mesmo que ver um jogo em casa, na TV, sentado no sofá?
Regras. Dogmas. Valores pré-estabelecidos pela religiosidade. Como vencê-los? Como remover o fardo das costas, substituir por um fardo leve e um jugo suave, se a religião devolve esse peso elevado à quinta potência? Haja hipocrisia disfarçada de sermões. Se eu acredito em OVNIs, extraterrestres, Multiverso, como posso não falar? Se eu acredito em naves espaciais, outras dimensões, na naturalidade das Escrituras Sagradas, na multiplicação dos pães e peixes baseada no compartilhar dos alimentos entre todos os presentes, na morte como um sono e um passaporte para um outro plano que pode ou não ser simultâneo ao que estamos vivendo, por que não posso dizer?
Sim. Prefiro que me chamem pelo meu nome do que de pastor. Na clínica odontológica, doutor também soa interessante, apesar de eu não ter doutorado. Pastor pesa. Pastor carrega uma infinidade de "Não possos". Não posso falar. Não posso fazer. Não posso ser. É a morte da personalidade. É o ser SACERDOTE. É ter que esquecer o que sou e ser o pastor. É ser o Neo, do Matrix. É ser o Gandalf ou o Professor Xavier. É ser o Mestre dos Magos, claro que do bem, se bem que ele sempre some quando mais se precisa dele...E se eu fosse assim também? Será que me faria bem?
Talvez.
Todavia, há também muitos benefícios nessa caminhada pastoral. Quantos testemunhos já ouvi de pessoas que tiveram a vida transformada através de um louvor que cantei, uma mensagem que preguei, uma palavra que eu disse. Sei que pode parecer, pra quem lê o que falei anteriormente, que é péssimo, terrível, assustador, insuportável ser pastor. Não é. O que é péssimo, terrível, assustador e insuportável é o que querem que o pastor seja. É não deixarem que ele seja humano.
Ovelhas. Não tinha um outro tipo de animal mais adequado com o qual Deus nos comparasse. É um bicho extremamente sensível. Quase sempre são criadas em rebanhos. Não tem mecanismos de defesa. São dóceis. Tiramos a lã e cresce novamente. Precisam de tosas constantes. Há os que até se beneficiem delas, vendendo a lã. Os crentes são ovelhas mesmo. Sensíveis, melindrosos, chorões. É complicado entender a cabeça de um "crente". Se não são chamados para o serviço na "obra", sentem-se abandonados. Se são muito solicitados, consideram-se sufocados pelos afazeres e culpam a igreja pelos problemas familiares, pela má educação os filhos, pelo casamento destruído, pelo pneu furado, pelos prejuízos financeiros. Isso quando a culpa recai sobre a igreja. Na maioria dos casos, o culpado das tragédias produzidas por eles próprios é o pastor.
Sim, a culpa é minha. Quantas vezes ouvi isso na minha vida? Perdi a conta. Meu casamento acabou porque o pastor não foi na minha casa me visitar. Meu filho está nas drogas porque o pastor não foi ungir o quarto dele. Meu carro bateu porque o pastor não orou pelas chaves do meu carro. Roubaram minha casa porque o pastor não untou os umbrais das portas com azeite ungido recolhido das oliveiras dos arredores de Jerusalém. Acham exagero? São ovelhas, meus amigos. A ovelha precisa do pastor. Se ela cai num penhasco, é o pastor quem tem que se ralar todo no despenhadeiro, se pendurar num galho de árvore e erguer a pobre criatura com apenas uma mão, enquanto a outra fica ocupada tentando salvar sua própria vida. Caso essa ovelha não sobreviva, quer dizer, perca a sua salvação (há controversas), o único responsável por essa trágica situação é o pastor, pela desatenção ao não perceber a ovelha escapar e a imperícia em resgatá-la da morte iminente e infelizmente constatada.
Ser pastor é isso. Logo, consigo imaginar o quão decepcionante eu sou. Se na perspectiva divina o chamado pastoral está implicitamente ligado a essa descrição, posso dizer que sou um "pato" eclesiástico. Isso mesmo, um pato. Nada, voa, corre. Mal, mal, mal, respectivamente. Fazer um pouco de cada coisa seria então não fazer nada a contento? Será que realmente o fantástico Apóstolo Paulo tinha razão ao nos aconselhar dizendo: "uma coisa só faço"? Já me perguntaram isso também. Por que não abandonar tudo e ser apenas pastor? Posso enumerar uma série de respostas a essa pergunta, mas vou deixar para depois.
Não posso dizer uma galáxia de coisas. São informações extraterrestres e extraordinárias. Assuntos tão psicodélicos e socialmente inaceitáveis que reservarei o direito de permanecer calado em relação a alguns temas. Entretanto, posso falar muito ainda. Quem tem boca, falar o que quer, já diz adágio popular. Posso ir até a Roma, se depender do ditado. Ou ditado seria "quem tem boca vaia Roma"? Nunca soube ao certo. Não quero vaias para o que vou contar. Vaiem Roma. Não sou um Erasmo de Roterdã da vida, muito longe disso, mas espero que alguns elogiem essa minha pseudo-loucura. Que Roma seja vaiada. Poupem meus ouvidos, até porque sou cearense e vaia daqui da região é inconfundível e humilhante, apesar de jocosa. Falarei muito. Muito mesmo. Não tudo, mas muito.
Continua
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