terça-feira, 17 de maio de 2016

No que posso crer?


NO QUE POSSO CRER?


            Sou dentista. Um estudioso das áreas médicas. Dedico-me a cuidar de dentes, devolver estruturas perdidas, melhorar a autoestima e proporcionar aos meus clientes ou pacientes (como preferirem) o sonho de voltar a sorrir. Para isso, estudar a Biologia foi fundamental, claro. Estudei a Teoria do Big Bang, hoje já não tão aceita pelo próprio Stephen Hawkings, a Teoria da Evolução de Charles Darwin e já tive que responder em várias provas que a vida surgiu de uma sopa de coacervados, que formaram as bactérias, que foram se unindo, se multiplicando, evoluindo, até surgir o ser humano. Para mim, isso é muito mais difícil de acreditar do que no conto de Adão e Eva.

            Adão, Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia do "Haja", quando, pelo poder da palavra, o Criador fez tudo. Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão? Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes, índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais, gentios, não-judeus encaram a criação?

            Por exemplo, o mito chinês da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir.
           
            Depois de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo. 

            No mito hindu, Brahma começou do nada. Apenas com o pensamento, ele criou as águas em que depositou seu sêmen. Isso se transformou em um ovo de ouro, do qual ele nasceu. Por pensamento novamente, ele dividiu o ovo em dois, e as metades se tornaram o céu e a terra. Brahma cresceu sozinho e dividiu-se em dois para formar o homem e a mulher. Em uma variação da história, Brahma divide-se repetidamente em dois até que todos os seres vivos do mundo sejam criados a partir de seu corpo. Em outra versão, o primeiro homem e a primeira mulher se reproduzem em diferentes formas animais até que todas as formas de vida são criadas. 

            Juntos, Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor) compõem o Supremo. Cada universo que Brahma cria é destruído por Shiva, depois do qual não há nada, a não ser um vasto oceano em que Vishnu flutua, repousando sobre uma grande cobra. Em algumas versões do mito, Brahma não vem de um ovo, mas a partir de uma flor de lótus que brota do umbigo de Vishnu. Eventualmente, o nosso mundo também será destruído por Shiva, e o ciclo vai começar de novo.

            Já segundo a lenda escandinava, antes de existir o tempo, havia um lugar de nevoeiro e gelo chamado Niflheim. Do outro lado, havia Muspelheim, onde demônios e gigantes do fogo moravam. O fogo de Muspelheim eventualmente derreteu o gelo de Niflheim, que pingou e formou uma vaca gigante chamada Audhumla e um gigante gelado chamado Ymir. Mais gigantes cresceram a partir do suor da axila de Ymir e foram amamentados por Audhumla, que criou mais gigantes lambendo blocos de gelo salgado.

            Estes gigantes acasalaram e deram à luz ao deus Odin e seus irmãos. Odin e seus irmãos mataram Ymir e a terra foi feita a partir de sua carne, o céu de seu crânio, o mar de seu sangue, as nuvens de seu cérebro, as montanhas de seus ossos e as árvores de seu cabelo. Odin construiu Asgard como uma morada para os deuses e a ligou a Midgard (Terra) por uma ponte de arco-íris chamada Bifrost. As larvas no cadáver de Ymir se tornaram anões que ficaram abaixo da superfície da terra, no que restou do corpo do gigante. Os deuses encontraram dois troncos de árvores em Midgard e deram vida a eles, criando Ask e Embla, o primeiro homem e a primeira mulher.

            Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal. Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares.  O Adão pode ser simbólico, a humanidade sendo criada, uma forma que Moisés encontrou de descrever o processo. A humanidade, então, precisaria de alguém ao seu lado, pois se sentia solitária no jardim. Precisaria viver em comunhão vertical e horizontalmente, com Deus e com os outros seres humanos. Nessa perspectiva, a mulher é criada da costela do homem, devido ao seu posicionamento horizontal no esqueleto, protegendo órgãos essenciais para a vida e ligada perpendicularmente à coluna vertebral, vertical, com suas conexões direcionadas ao cérebro, ao alto. Seria o osso perfeito para descrever a origem da mulher. Porém, são apenas conjecturas. Seria um novo olhar. Não obrigatoriamente meu. Não definitivamente certo.   
           
            O homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo autodestrutivo. É expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói uma cidade. A cidade é o jardim humano. Deus é expulso do jardim humano. Os filhos de Caim resolvem viver sem Deus. E assim a desgraça começa. Vem dilúvio. O homem Noé sobrevive. Afasta-se de Deus. Sodoma e Gomorra são destruídas com fogo. O homem Ló é preservado. Abraão, Isaque, Jacó, José. Há uma Terra Prometida. O homem vai ao Egito. Não era lá. Após inúmeras pragas e um mar aberto, o povo estava livre da escravidão. O que o povo faz? Afasta-se de Deus. Deserto, muralhas, muitas batalhas. O homem entra na terra. O que ele faz? Afasta-se de Deus. Querem um rei. Deus não é suficiente. Saul, Davi, Salomão. Divisão. Escravidão. E assim é até os dias atuais. Quanto mais longe de Deus, mais desgraças acometem a humanidade.

            Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta reinando, sob a ótica anticristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Jerusalém, Roma, Londres, Rio, São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, entra na nossa história o novo Adão. Jesus, o Cristo, que morreu na cruz do Calvário, ressuscitou ao terceiro dia, derrotou todas as forças do mal e nos deu o direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. A visão do apocalipse se torna então com dragões e serpentes tentando dominar e controlar os seres humanos em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos leões nas arenas romanas? 

            Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as Escrituras. Óculos vermelhos me fazem ver tudo avermelhado. Se forem verdes, tudo fica esverdeado e assim sucessivamente. Podemos ver Deus como um carrasco, um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar com Ele por meio dessa última opção. 

            E o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que pregar se Deus já escolheu os salvos? 

            Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso. Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para algo tão gostoso e deliciosamente atraente. É poder dizer não, quando o mundo diz sim. É dizer não aos pratos visualmente saborosos por entender como os mesmos foram preparados.

            Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar, vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e, dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas lamentações.  E é a mais pura verdade.

            E o meu direito de escolha? Nunca tive dificuldade em fazer escolhas. Não que as decisões que tenho que tomar não sejam importantes. Muito pelo contrário. Todos os dias me vejo decidindo, quer seja a respeito de assuntos eclesiásticos, familiares, odontológicos, bem como assuntos essencialmente pessoais. Geralmente, minhas escolhas são rápidas e objetivas. Pode ser até um defeito, mas me adapto facilmente, tanto para o que me incomoda, quanto para o que não me causa nenhum efeito. Enfim, não é o caso da maioria.
            Havia um governador romano chamado Pilatos. Esse teve algumas dificuldades de escolher no que acreditar. Era cheio de dúvidas. Repleto de perguntas. Na verdade, seus questionamentos não eram particulares. Eram puramente humanos, perfeitamente nossos. São perguntas que fazemos sempre. São dúvidas recorrentes para todos. No Evangelho de João percebemos isso. Vou chamar essas questões de dúvidas pilatianas. Como eu gosto de neologismos! Já perceberam isso, não é?
            Jogarei a responsabilidade sobre os ombros de um "pecador". E quando esse pecador é Pilatos soltamos fogos de artifício. Há personagens bíblicos que são perfeitos vilões, como Judas Iscariotes, Faraó, Golias, Herodes, Nabucodonosor. Pilatos está nesse rol. Caifás e seus comparsas levam Jesus ao Pretório. Todavia, os sacerdotes não entram no recinto. Segundo a tradição. eles poderiam se contaminar (oh quão puros somos, não é?). Afinal de contas, a Páscoa se aproximava. Alguém ia morrer. O lugar estaria manchado com o sangue de alguém. Os líderes religiosos da época não admitiam entrar em um lugar impuro. Botão da hipocrisia acionado. Eles eram muito santos. Acho que já falei sobre isso. Não vou tocar mais nesse assunto. Talvez sim. 
            Jesus então está diante de Pilatos. Algumas perguntas são feitas em relação ao Mestre. Vamos tentar aprender com elas. Que acusação trazeis contra este homem? Que acusação trazemos contra Jesus? Por que o culpamos de tudo? Por que se o carro quebra a culpa tem que ser de Deus? Por que se o filho adoece, reclamamos e dizemos que não aceitamos, que somos filhos de Deus, que isso não pode acontecer, e bla blá blá? Trazemos inúmeras acusações contra Ele. E Ele é o menos culpado de tudo. Se nós colhemos, colhemos o que plantamos. Lei da semeadura. Somos resultado de nossas decisões, de nosso livre arbítrio. Bactérias não podem ser demonizadas nem Jesus pode ser responsabilizado pela ausência de manutenção nos veículos dos "santos". 
            Vamos acusar Jesus de quê? É triste ver que nossa sociedade e, pasmem, nossas igrejas estão repletas de acusadores. Que provas aqueles sacerdotes tinham contra Jesus? Provas verbais. Fofocas, na verdade. Disse-me-disse. Posso acreditar em algo só pelo fato de alguém comentar? Lembro-me de um comediante americano chamado Tom Segura que contou um fato interessante. Seu pai há muito tempo atrás havia dito que o ator Tommy Lee Jones era gay. Desde então, Tom passou a vida inteira dizendo para todo mundo que o ator era homossexual. Os filmes perdiam a importância. O fato primordial era a homossexualidade do astro. Até que, anos mais tarde, quando já era um humorista famoso, Tom, ao conversar com um outro ator de Hollywood, contou-lhe a mesma fofoca. Tal foi sua surpresa quando o ouvinte, na verdade, era amigo de infância do respectivo e que conhecia toda a família de Tommy Lee Jones, esposa, filhos, pais e que ele não era gay. Tom então liga para o seu pai e conta a novidade. “Quem disse pra você que Tommy Lee Jones era gay?” O pai de Tom simplesmente respondeu: “Ninguém. Eu pensei que fosse”.
            Pilatos estava corretíssimo. Era necessária uma acusação com fundamentos. Não tinham. Havia outra pergunta a ser feita. És tu o rei dos judeus? Ah! Agora Pilatos começa a se preocupar. Ora, um governador é submisso ao seu rei. Surge a possibilidade de concorrência na mente. Pilatos deixaria de ser "a pessoa com quem se resolve as coisas" dos judeus. A autoridade política de Pilatos corre perigo. Daí a preocupação. Jesus é rei? É comum ver pessoas agindo da mesma forma quando estão se sentindo ameaçadas. Quem é esse funcionário novo? Será que ele vai roubar o meu lugar no louvor? A mensagem desse obreiro arrancou mais aplausos que a minha. Será que o povo vai gostar mais dele do que de mim? Será que essa igreja que abriram aqui perto vai roubar minhas ovelhas?
            Que pensamento estúpido! Jesus é Rei. Você é você. Não devo aumentar meus esforços para parecer melhor aos olhos dos meus “concorrentes”, mas tenho que elevar minha qualidade por mim mesmo. Quando a ameaça chega, refazemos a mesma pergunta sucessivamente (por mais exagerado que seja meu pleonasmo). Esquecemos que Jesus é Rei. Perguntamos como João Batista, a Voz que clamava no deserto, em meio ao desespero e à ameaça, se existe ainda outro rei. O Grande Rei nos serve quando somos súditos prósperos. Quando a crise aperta, o primeiro a ser crucificado é o rei. Quão submissos somos, não é? 

            Jesus responde a Pilatos com outra pergunta: "vem de ti mesmo esta pergunta ou disseram outros a meu respeito? Puxa vida, Pilatos! Nem opinião própria você tem? Pare de ser influenciável. Seja você mesmo. Tudo bem, está perdoado. Pilatos não era judeu. Não conhecia Jesus. Realmente, precisava ouvir uma outra versão da história, o outro lado da moeda. Pilatos precisava saber a verdade.
            Daí surge a derradeira pergunta: Que é a verdade? Pergunta errada. Os budistas tem a sua verdade. Os xantoístas, hindus, católicos, protestantes, espíritas, TJ's, adventistas também. Os islãmicos encontram verdade em amarrar bombas no corpo e se explodir. Os judeus são tão cheios de verdades que parecem ser realmente verdadeiros. E são. Verdadeiros nas suas verdades. A pergunta foi mal formulada. Pilatos deveria ter perguntado QUEM É A VERDADE. A VERDADE ESTAVA DIANTE DE PILATOS. A verdade que apaga todas as dúvidas, humanas e pilatianas. JESUS. ELE É A VERDADE! Estou feliz com a minha verdade. E não tenho dúvidas em relação a isso. Lavo as mãos por higiene, não por covardia, nem muito menos por duvidar. Pilatos escolheu não escolher. O que é melhor?

            No que posso crer? A pergunta certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a navegação corporal, tenham que se casar. Por que, meu Deus? Por que????Tentarei responder mais adiante. É somente a ponta do Iceberg. E, como diz uma música que eu gosto muito, se a ponta do iceberg já é maior do que o Everest, imagina a raiz?

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