terça-feira, 24 de novembro de 2015

No que eu posso crer?

Sou dentista. Um estudioso das áreas médicas. Dedico-me a cuidar de dentes, devolver estruturas perdidas, melhorar a auto-estima e proporcionar aos meus clientes ou pacientes (como preferirem) o sonho de voltar a sorrir. Para isso, estudar a Biologia foi fundamental, claro. Estudei a Teoria do Big Bang, hoje já não tão aceita pelo próprio Stephen Hawkings, a Teoria da Evolução de Darwin e já tive que responder em várias provas que a vida surgiu de uma sopa de coacervados, que formaram as bactérias, que foram se unindo, se multiplicando, evoluindo, até surgir o ser humano. Para mim, isso é muito mais difícil de acreditar do que no conto de Adão e Eva.

Adão, Eva a Serpente. Moisés não estava lá para ver como aconteceu. Não estava no dia do "Haja", quando pelo poder da palavra o Criador fez tudo. Contudo, a história ou mito, como queiram, foi divinamente inspirada e contada lindamente pelo escritor. Não posso negar que creio no primeiro casal. Mas, e se eles tiverem sido apenas o primeiro casal do povo do Deus judaico-cristão? Os outros povos, chineses, africanos, anglo-saxões, egípcios, aborígenes, índios americanos, esquimós surgiram de que forma? Como os não-ocidentais/gentios/não-judeus encaram a criação?

Por exemplo, o mito chinês da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo. Com muita determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu. Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir. Depois de dezoito mil anos, Panku descansou. Sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas, piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo.  

Que belíssima percepção, não é mesmo? Cada qual com seu modelo de criação. Não quero de maneira nenhuma que me interpretem mal. Creio na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus. Porém, não devemos fechar os olhos para as outras civilizações e suas crenças peculiares. Creio que o Adão é simbólico, é a humanidade sendo criada. A humanidade que precisa de alguém ao seu lado, que se sentia solitária no jardim, que precisava viver em comunhão verticalmente e horizontalmente, com Deus e com os outros seres humanos. O homem então peca, cai, começa a conhecer o bem e o mal e descobre que fez algo auto-destrutivo, é expulso do paraíso e passa a viver fora do jardim de Deus. O prognóstico para a raça adâmica passa ser o pior possível. Ele morrerá. O ser humano se destrói. Irmão mata irmão. O Caim, que deveria peregrinar, constrói uma cidade. A cidade é o jardim humano. E assim a desgraça começa.

Guerras, fome, morte. Cavaleiros soltos. Besta reinando, sob a ótica anti-cristã. O apocalipse é vivido hoje, como o foi nos tempos de João, na Ilha de Patmos. Babilônia, Roma, Londres, Rio, São Paulo, Fortaleza. Cidades sob o domínio do mal. Entretanto, cremos no novo Adão, Jesus, que morreu na cruz do Calvário, derrotou todas as forças do mal e nos deu o direito imerecido de viver novos céus e nova terra, mesmo em meio ao caos. O Paraíso, o Jardim de Deus, volta a existir dentro de nós. Minha interpretação do apocalipse se torna então com dragões dominando humanos em todos os tempos. Ou Hitler não teria sido um anticristo para os cristãos da época da segunda guerra mundial, assim como Nero fora para os devorados pelos leões nas arenas romanas? 

Tudo depende dos óculos com os quais enxergamos as Escrituras. Podemos ver Deus como um carrasco, um Zeus grego, com raios na mão para exterminar os humanos, ou o Alá que oferece virgens para quem explode infiéis com bombas no próprio corpo. Por outro lado, podemos vê-lo como um amigo, um Pai, alguém que nos ama, que não nos julga, que entende nossas fraquezas e limitações. Eu preferi me relacionar com Ele por meio dessa última opção. 

Ah...e o Calvinismo? Quanto eu relutei contra ele. Quantas discussões tolas sobre a injustiça de Deus em mandar pessoas para o inferno e resgatar outras para viver no céu. Acabei me rendendo a irresistível graça. O favor imerecido, tão incompreendido pela multidão, acalentou minhas neuroses espiritualistas. Há quem diga que crer na predestinação é ganhar um passaporte para o pecado. É ser relaxado, não afeito à busca de dons, não gostar de evangelizar. Ora, pra que pregar se Deus já escolheu os salvos? 

Tolos. Pregamos porque somos escolhidos para isso. Amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. Não vou comprar ingresso para a esbórnia, pois o Espírito Santo que escolheu habitar em mim me faria vomitar após as primeiras doses de tequila. As relações sexuais com prostitutas trariam um asco tão violento que não suportaria o cheiro do pecado impregnado em minha pele. Isso sim é ser escolhido, ser eleito. É ter a coragem de dizer não para algo tão gostoso e deliciosamente atraente.

Carne e espírito. Briga feia. Quem estiver mais alimentado, vence. Não sou perfeito. Apesar da esbórnia não ser o nosso lugar, vez por outra nos encontraremos tentados por ela. Cairemos, talvez, em alguns casos, mesmo por pensamentos. Esse é o diferencial de quem tem um pai carinhoso. Somos castigados sim, punidos até, mas o olhar da graça sobre as nossas vidas nos faz estudar para tirar nota máxima nas próximas provas e, dessa forma, azulamos o rubro boletim nos bimestres seguintes. Não devemos esquecer que o que nos torna aprovados não são nossos feitos mirabolantes e miraculosamente perfeitos. Creio que Jesus me justifica. É por Ele. Suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos, já dizia o profeta em suas lamentações.  

No que posso crer? A pergunta certa seria: No que me deixam crer? Percebem o quanto o exterior influencia nosso interior? Tantas questões. Sexo antes do casamento, por exemplo. Nossa conduta religiosa exige que um casal de jovens namorados, diagnosticados de fornicadores por terem exagerado nas carícias e penetrado em áreas impróprias a navegação corporal, tenham que se casar.
Por que, meu Deus? Por que????

continua

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