sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Que músicas posso ouvir?

Podem achar que eu sou um louco. But I'm not the only one. Jonh Lennon dizia que era um sonhador, claro, mas gostei de jogar com Imagine. Por acaso, também quero falar sobre esse tema. Sou muito seletivo no que diz respeito à música. Desde criança, me acostumei a ouvir minha querida mãe cantando Gigliola Cinqueti para dormir. Ouvia Agnaldo Timóteo, com o clássico Meu Grito. Nélson Gonçalves e A Casa dos Meus Sonhos, com um coral belíssimo e inesquecível. Long Plays de Erasmo e Roberto Carlos, até a relíquia do Festival de San Remo do Rei da Música tínhamos em casa. Até que meus pais se converteram.

Os temas das letras mudaram , mas continuei ouvindo música boa. Grupo Logos, com Autor da Minha Fé, a primeira música que cantei na igreja. Tinha muitas fitas K-7 de Vitorino Silva, que por sinal eu iria ainda realizar o sonho depois de muitos anos de gravar uma música eternizada em sua voz. Ouvia Eula Paula, Jorge Araújo, Milad, Cícero Nogueira, Armando Filho, Eduardo Silva, Embaixadores de Sião. Quanta poesia, quanta qualidade de arranjos e letras profundas e bíblicas. Deleitava-me, mesmo em meus doze ou treze anos com poesias assim:

Quem és tu?
Me perguntaram certo dia com ironia atroz
Quem és tu?
Que até os mortos nos sepulcros ouvem tua voz
A própria morte derrotaste
Oh Imarcescível luz
Eu sei quem és
És o Filho de Deus, Tu és Jesus

Lindo! Lindo! Lindo. Esplendorosa obra de arte do grande Oséias de Paula. Músicas de qualidade insofismável. Fui crescendo. Aprendi alguns acorde na guitarra e outros no teclado. Meu irmão Jorge aprendeu bateria nas panelas da cozinha. Começamos a tocar juntos. Passei a ouvir Rebanhão, Novo Som, Altos Louvores, Oficina G3, Petra, Michael W. Simth. A poesia continuava valorizada, mas os estilos mudaram. Nunca esqueço o CD duplo do Catedral, que tinha as inesquecíveis Carpe Diem e Simplesmente. Aquele álbum mudou a minha visão de música evangélica. Passei a gostar de rock. As letras do Kim eram loucas de pedra, batiam na religiosidade, chamavam os crentes de Filhos de Caim e a gente cantava inocentemente ou tentando achar que não era conosco. Isso até a entrevista distorcida por um site que tirou o Catedral do meio gospel. Que escândalo! Era o preço de dizer o que pensa.

Meio Gospel. Troféu Talento. Festival Promessas. É a ruína da música cristã. Os mantras "valadistas", as letras pobres "cirilantes" e o "hillsonguianismo" violentaram a nossa cultura musical. As letras de dez minutos com "Sopra", "Vem", "Derrama", imbecilizaram os compositores. Todos querem seguir o padrão americano, as levadas do U2, com o pretexto de louvar a Deus. Plágios escancarados, mas com direitos autorais destinados ao trono de Deus, pois se gabam de ter inspiração divina. Deus não escreveria nunca esses dejetos orgânicos, para não usar outra expressão.

E os cantores pentecostais? Eita! Anjos sobem e descem escadas cheias de prego, toscas, comidas de cupim. O fogo desce e infelizmente não queima a língua dos que apregoam a vingança. É uma enxurrada de vitórias, de meninos que rodam, de "peninas" que vão carregar o sofá na mudança (leiam o primeiro capítulo de 1 Samuel para entender). Os irmãos com a glicemia espiritual estratosférica devido ao sabor do mel. São metralhadoras matando os verdadeiros louvores. Ai que saudade! É de partir o coração. Daí quando digo que prefiro ouvir um Roupa Nova, um Jay Vaquer, por mais doido e desconhecido que seja, uma Adele e sua perfeita voz, um Coldplay autêntico ou até mesmo um Cauby Peixoto, a ouvir essas profanidades disfarçadas de santas, me taxam de incrédulo.

Ora! É pecado ouvir música do mundo? A música secular, porque foi composta por um "ímpio", não deve ser ouvida nem muito menos apreciada jamais? E a arte? Se for pecado escutar um Besame Mucho é pecado ler Cantares. Ou Salomão estava falando do amor de Jesus com a Igreja? Nunca! Salomão estava destilando sua paixão por sua amada e vice-versa. Não vou sair com a minha esposa e, num momento altamente romântico e íntimo, até mesmo em um motel ( SOCORRO!!!!), cantar para ela Os Guerreiros se Preparam ou Plena Paz e Santo Gozo, por mais estranhamente ambíguo que o título desses hinos seja para a ocasião. De maneira alguma. Cantaria talvez um Eu Sei que Vou te Amar ou Dona. Estaria eu cometendo um sacrilégio?

Vamos parar de ouvir música secular? Tudo bem. Não veja mais filmes também. Não use o facebook. Não tenha whatsapp. Não veja novelas (ah, isso é pecado mesmo), a não ser as bíblicas da Record. Nada de joguinhos de vídeo game ou de celular. Nada de nada. Subamos às montanhas e vivamos em mosteiros. Se o pretexto é de que as músicas foram compostas por pessoas não santas, não espirituais, não crentes, vamos abolir a tudo o que nos cerca. Nada de teatros, livros, museus, cultura. Apaguem da história Da Vinci, Machado, Vinícios, Tom, Chico, Caetano. Não leiam, a não ser a Bíblia. Quebrem os bibelôs de suas estantes pois podem ter sido feitos por artesãos da umbanda e podem trazer o Zé Pilintra ou o Tranca-Rua para dentro de sua casa. Continuem ignorantes. Não precisa saber de nada. Só precisamos de Deus, não é mesmo? Claro que não! Precisamos crescer na graça e no conhecimento. Deus não quer que sejamos idiotas. Música é cultura.

Ainda há quem se salve. Marcos Almeida, do Palavra Antiga, me fez entender que ainda pode-se fazer música de qualidade e falar de Deus. Leonardo Gonçalves e suas profundas poesias adventistas, sem falar na performance espetacular. Nem tudo está perdido. João Alexandre ainda está por aí. Eu mesmo me arrisco a compor e, modéstia a parte, não faço feio. Tudo que é belo vem de Deus. Quais músicas posso escutar? Não posso ouvir as pentecostais? Claro que pode. E o Guilherme Arantes? Também. Procure o que te convém. Ouça Contemplar (rerere). Ouça, sem esquecer algo importante. Seja seletivo, mas não seja preconceituoso. As mesmas igrejas que proíbem o secular cantam Parabéns a Você, que também é secular. Como fazer com que entendam isso? Sinceramente, não sei.

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