domingo, 29 de novembro de 2015

Ser penteca ou não? Eis a questão.

A questão musical é apenas a ponta do iceberg. A discussão é bem mais profunda. Já congreguei em várias igrejas diferentes. Como citei anteriormente, tive vários tipos de pastores. Assim, pude pinçar algo de bom em todos. Na verdade, estou sendo até cruel. Pincei as coisas ruins. Retirei-as e as joguei fora. Com cada um aprendi e até hoje aprendo. Grandes mestres, homens de Deus. Pessoas responsáveis pelo mosaico, ou seria colcha de retalhos, que é minha percepção espiritual atual.

Logo aos sete anos de idade, via minha mãe buscando a Deus em orações. Éramos de uma igreja Batista, não das tradicionais. Era o que chamamos de batista renovada. Acho que faltou essa perspectiva tradicional histórica protestante no meu caleidoscópio. A irmã Nicinha sempre fora envolvida na igreja e logo passamos a estar na batalha onde mais o fogo inflama também, como diria o hino da Harpa Cristã. Ah, antes que eu me esqueça, na Batista usávamos o chamado Cantor Cristão. Belas composições. Eu gostava. Ainda gosto. Já falei disso no capítulo anterior.

Como falei, era uma igreja renovada, o que significa que havia uma busca pelo sobrenatural. Outras línguas, não o inglês, espanhol, italiano, russo, mas línguas angelicais eram costumeiramente ouvidas em reuniões de oração. Presenciei minha mãe destruindo obras de arte indiana, queimando bonecas de porcelana, quebrando CDs, por estar certa de que o diabo ou uma força maligna qualquer havia adentrado nesses objetos e que estava provocando sérios problemas familiares. Para quem fazia antes de se converter jogos espíritas, como um com tesouras que invocava uma entidade chamada Jorginho que contava os segredos alheios e se manifestava de maneira horripilante, digna de filmes de terror como Atividade Paranormal, lidar com o sobrenatural era um costume para minha querida mãe. Existe um mundo invisível. Isso eu posso garantir. Já tive várias experiências nele. Discursarei um pouco sobre isso em outro capítulo.

Enfim, fui crescendo nesse meio. Apesar de passar mais tempo fora da igreja, brincando, durante os cultos, o ambiente me fazia bem. Após alguns anos e por causa de alguns problemas de relacionamento, fato comum dentro de toda e qualquer igreja que seja composta por seres humanos (não soube ainda de igrejas de ETs), meus pais passaram por uma legítima peregrinação ministerial. Nesse tempo, meu pai já era convertido. As fitas do Pinduca e do Messias Holanda, aquele que queria se atrepar em um pé de côco, foram gradativamente substituídas por música de crente. Ajudamos em algumas igrejas. Em algumas, hoje grandes potências da fé, usaram o nosso equipamento de som no início. Digo com muita alegria que já contribuímos muito para o evangelho em nossa cidade. Até que a matriarca decidiu abrir um "trabalho de oração" no quintal da nossa casa. Vinha gente de todos os lugares da cidade e até de outros municípios para a Oração da Irmã Nicinha. Foi quando conheci o que era ser pentecostal de verdade.

Vi pregadores jogarem raios de fogo invisíveis e derrubarem quem estava distante. Vi uma das minhas árvores preferidas, um pé de cajarana frondoso, morrer após uma das missionárias de fogo dizer que a planta era linda, uma das mais lindas que já tinha conhecido, com as frutas mais belas do planeta. Pasmem, a planta morreu na manhã seguinte. Podem acreditar. Ah, foi coincidência. Muito estranho. Pragas de inveja? Até hoje tenho minhas dúvidas. Nunca quis que essa mesma irmã dissesse nem mesmo que eu era bonito. Vai que...Deixa pra lá. Ouvi profecias para gestantes, que recebiam em lágrimas as mensagens dos adivinhadores mediúnicos gospéis (não existe essa palavra, eu sei), falando que o fruto do ventre era menino, mas se fosse menina era pra glória de Deus. Incrível, não? Ouvi de mulheres de roupão que Deus estava contemplando meu clamor nas madrugadas, nos momentos em que o meu sono era mais pesado. Visões de muriçocas de biquini, baleias voadoras, chaves, cobras, sapos, ratos, raposas, caixões, martelos. Qualquer coisa que você pensar. Tudo tinha um resultado final. Deus ia dar vitória. Deus ia curar. Deus ia converter. Ele sempre faria algo bom para nós no final. No final das contas, sairíamos vitoriosos.

Claro, havia pregadores bons também. Não era só essa meninice. Darckson Lira foi pregar no quintal da nossa casa. Tudo mudou. Estávamos nos congregando na Vale de Benção, uma das poucas que ainda tinha apreço pela Palavra de Deus. Minha família se tornou parte da história desse ministério. Depois tivemos que sair, passeamos um pouco, voltamos. Aprendi a amar a Bíblia. Aprendi a não ser apenas um "tocador" ou um cantor de hinos evangélicos. Era uma igreja pentecostal. Alguns vários anos depois, saímos da Vale, como chamávamos carinhosamente. Foi insustentável. Talvez fale sobre isso. Talvez não.

Depois de muito tempo, percebi que alguns questionamentos meus dos tempos dos cultos em minha casa tinham razão de existir. Percebi que o movimento pentecostal é gostoso. A efusão de glórias e aleluias, misturada com gritos e saltos quase que acrobáticos de causar inveja nos Hipólitos enche a nossa alma de alegria. Era divertido (não me entendam mal), ver pastores caindo por cima uns dos outros no altar. Estimulava quem estava na platéia a ser "cheio". Paletós suados que caiam sobre os irmãos, os fazendo desabar, como se o chão se abrisse. Certo dia, em um êxtase espiritual inexplicável, fui compungido a cair pelo resvalar de uma tolha jogada por um famoso preletor. Era um mover extraordinário. Uma fase intensa da minha vida. Jovens saiam carregados dos cultos, sem conseguir nem mesmo se colocarem de pé, tanto era o frenesi provocado pela unção derramada. Como era bom.

Entretanto, o tempo vai passando e parece que provamos da famosa maçã e fomos expulsos do paraíso. Perdemos a inocência. A oração do quintal acabou. Os vasos nos deixaram. O conhecimento passava a me dar mais prazer. Conheci mais as Escrituras. Percebi que, por mais que existissem pessoas sérias, que realmente buscavam a Deus de coração, em Espírito e em Verdade como queria Jesus, havia também muito fingimento e auto-promoções. As igrejas estão repletas de pessoas usando a Deus e não sendo usadas por Ele. Aproveitam-se de dons, talentos, para ludibriar, enganar, persuadir. Simulam quedas, piruetas, sapateados e até mesmo línguas para tornar o ambiente mais psicodélico e manipulável. Reitero que conheci servos e servas de Deus verdadeiramente usadas pelo Espírito Santo. Entretanto, a pilantragem está presente. É inegável.

Tudo isso me trouxe muita indignação. Para que mudar a impostação de voz? Por que razão colocar uma música de fundo, na maioria dos casos clássica, secular (isso eles não questionam), durante seus triunfalistas sermões? Por que exigir que todos participem da mesma vibe, taxando os que se eximem de crus, frios? Aqueles que não rodavam, não pulavam, não choravam, não falavam línguas angelicais eram os alvos prediletos das profecias, geralmente apontadoras de pecados ocultos, frieza espiritual ou covardia. Ser afeito às manifestações sobrenaturais é algo particular. Não posso obrigar que todos sintam o que sinto. Jamais posso querer colocar o Espírito Santo numa caixa de fósforo e moldá-lo ao meu bel-prazer. Pessoas são diferentes. Deus age como Ele quer. Não existe um padrão.

Percebi que há um banquete na nossa frente. Uns irão se lambuzar, comer com as mãos, falar de boca cheia, puxar a coxa do peru. Outros irão preferir as saladas, vão comer de garfo e faca. Usarão lenços para limpar a boca e tirar a gordura que estiver a escorrer pelo canto da boca, enquanto outros sugarão a sopa com tanta vontade que talvez queimem a língua. Entretanto, o objetivo final é que todos saiam alimentados. Não posso criticar quem se lambuza ou não, mas quem oferece o prato e não prova dele. De que adianta servir a comida, ver todos satisfeitos e não comer nada? De que adianta pregar o que não vive, querer que sejam o que não é?

Assembleianos, presbiterianos, batistas, universais. Doutrinas e dogmas diferentes. O que fazer? Respeito. Essa é a palavra. Quem quiser gritar, grite. Quem preferir orar no quarto, que ore. Sem palmas, com palmas. Com barba, sem barba. De calça, de saia. Com terno, sem terno. Cante forró, quem gosta do ritmo, mas respeite os roqueiros. Não é faca. É como a utilizamos. Facas matam, mas também cortam o pão e passam manteiga. Que não venhamos a matar quem pensa diferente. Se sou penteca? Sou crente. Isso basta?

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