quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Eu tenho fé?

Pronto. Vão afirmar categoricamente que não fui queimado pelo fogo. Sou cru. Duro, seco, sem cozimento. Ora, como diria o grande Zagallo, vocês vão ter que me engolir, mesmo mal passado. Minhas crenças são um pouco diferente da maioria, confesso. Mas eu tenho fé. O Apóstolo Tiago, na sua carta, fala sobre fé. Ele diz que a fé sem obras é morta. Ou seja, há pessoas que possuem uma fé viva e outras uma fé morta. Há uma fé que salva e uma fé que me deixa estagnado. Há uma fé que transforma e outra que não me muda em nada. Existe a fé que me movimenta e a que me mantém imóvel. A verdade é que não há um conflito entre fé e obras. Obras são consequências.

Ouvi durante metade da minha vida que a fé move o braço do Senhor. Nossas palavras ativam a percepção divina para os nossos problemas. Chamamos a atenção de Deus, pois o nosso Senhor tem uma infinidade de assuntos para se preocupar; logo, eu preciso gritar, balançar os braços como um boneco de posto, dar cambalhotas e piruetas transcendentais para que Ele me note. Engano. A fé não move os braços do Poderoso, até porque seus membros não estão paralisados. Deus não está tetraplégico. A fé serve para colocar as minhas mãos em movimento. É o que me faz atender meus pacientes todos os dias, exceto os domingos. É o que me faz olhar com carinho para os meus irmãos, amar as pessoas ao meu redor, respeitar meus pais, pregar o evangelho, trabalhar. Deus sustenta o Universo com a palma das suas mãos. Ele não está parado. Nós estamos?

Queridos, não precisamos pegar um pedaço de pau, como diria um bom cearense, revesti-lo de fé e ficar cutucando Deus. A fé está naquilo que eu faço e não no que Deus faz. Se alguém está com fome, não adianta nada eu orar: "Senhor, eis aqui a tua filha. Abre as comportas do céu. Prospera a vida dela. Eu libero o poder de Deus agora. Agoraaaaaaa. Recebaaaaaaa." Blá, blá, blá. E o prato de comida, a quentinha, a marmita? Deus não vai mandar um anjo alimentar a pobre irmã faminta. Eu tenho que fazer. Eu tenho que mostrar a minha fé. Eu profetizo. Eu libero a benção. Eu mando. Não mandamos em nada. Somos servos também. Deus nos chamou para servir.

Venham. Podem me estereotipar. Vocês acreditam em Deus? Creem que Jesus nasceu de uma virgem, viveu, morreu e ao terceiro dia ressuscitou? Acreditam que Jesus voltará? Pronto! Você acaba de ser aprovado da mesma forma que o diabo seria. A questão não está no que eu acredito, mas onde isso influencia. São as minhas atitudes. As nossas convicções devem nos mobilizar e não nos engessar de forma que apenas os nossos lábios se mexam. Ter fé é confiar sua vida aos cuidados de Deus. Submeter sua vida à vontade Dele. É sair do volante. Ele dirige.

Em todos esses meus anos de igreja, percebi muita incoerência entre o que é pregado e o que é vivido. Algumas pessoas passam a vida inteira tentando se justificar. Ah, estou bem com Deus. E com seu irmão? A fé que eu acredito, por mais pleonástica que essa expressão seja, inclui algumas variáveis. Como disse anteriormente, não é um relacionamento exclusivamente vertical, de foro íntimo com o Pai. A fé inclui o vizinho chato, a sociedade preconceituosa, o sujeito que riscou o seu carro com uma tampa de cerveja, a mulher rixosa que reclama da toalha em cima da cama, o filho que ficou de recuperação, o obreiro fofoqueiro que adoro abrir as portas do inferno, tudo isso. A fé é relacionamento horizontal também.

É fé. São obras. Ao contrário que muitos pensam, não estão separados assim. É automático. Se eu tenho fé, naturalmente as obras acontecerão. Os frutos são espontâneos. Imagine passar o dia inteiro na praia, ao calor do sol de Fortaleza, tomando uma água de coco, sem proteção alguma. Completamente exposto. Eu, que perdi meus cabelos mais cedo do que eu desejava, ficarei, sem dúvida alguma, tostado, queimado. Minha pele descamará. Meu couro cabeludo, desprotegido pela ausência capilar, ficará vermelho, depois preto. Ficará evidente que passei algum tempo acima do recomendado sob o efeito dos raios solares. Da mesma forma, quando somos expostos a Deus, há uma consequência. Ficamos queimados. Se eu sou cru? Estão por fora, utilizando a pura gíria. Eu fui queimado pelo sol. Contudo, não é a evidência que talvez muitos esperam. Prefiro estar queimado de amor a Deus e ao meu próximo. Assim eu creio. Logo, tenho fé.

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