Desde que aprendi a tocar e cantar, em meados dos anos 90, sou convidado para participar de casamentos. Das cerimônias mais refinadas em luxuosos buffet às mais simples, sempre fui com carinho. Primeiro pelo fato de que a música é um hobby pra mim. Gosto de música. Em casamentos, podemos tocar de tudo um pouco. Desde as românticas canções do Novo Som, até Ilariê e Balão Mágico. Nunca esqueço o dia que tentei até imitar o Fábio Jr., mexendo nos poucos cabelos que restavam na minha nuca e gritando "Brigadú" para o delírio da platéia. Quero deixar claro que era um casamento de evangélicos, mas o casal queria fazer média com os convidados. Contudo, em noventa por cento dos casos, animava as festas de graça. Pois é. As noivas pagam tudo. Comida, decoração, roupas, filmagem, fotografia, mas geralmente me pediam para abençoar o casal com meus dotes artísticos. Passei então a usar essa frase polêmica. Casamento não é obra de Deus. Como ousas dizer algo assim, pastor?
Quero deixar claro que nunca cobrei pra tocar em nenhum evento evangelístico, congresso, culto de senhoras, de adolescentes, de jovens, de idosos, em praças, em casas, no sul, no norte, viajando ou não, desde que essas programações fossem com o intuito de adorar ao Senhor. Constrangia-me participar de feijoadas, cachorradas, sorvetadas. Cantávamos enquanto as pessoas comiam, conversavam, namoravam (até nos fundos de igrejas ou dentro delas). Era incoerente. Contudo, cansei. Desde então, passei a cobrar para cantar em cerimônias. Os convites diminuíram assustadoramente por sinal. Ainda fizemos algumas festas pagas com cheques voadores. Como não vivo disso, fiquei tranquilo.
Não apenas toquei em casamentos. Casei muita gente também. Como pastor, essa também é uma das minhas possibilidades. Eu posso ministrar bençãos sobre um casal. E fiz isso. Muitas vezes. Gosto de usar algumas frases em meus sermões. Nas alianças, por exemplo, sempre falo da matemática, onde o anel sozinho não representa nada, mas os dois juntos formam o símbolo do infinito. O ouro passou pelo fogo para tornar-se uma aliança, personificando as lutas e tribulações pelas quais o matrimônio deve passar e se manter de pé. É um círculo, onde não há começo, nem meio, nem fim, confirmando a indivisibilidade e a longevidade do casamento. Não são clichês. Eu acredito mesmo nisso.
Entretanto, todo esse desvio, falando da festa de casamento, serviu apenas para que chegasse ao ponto central. Casamento é obra de Deus, mas é bem mais obra do casal. Quero dizer com isso que é falta de vergonha culpar Deus pelas tragédias nupciais. As brigas sempre acontecerão, mesmo nas famílias mais tradicionais, pentecostais, religiosas que possamos imaginar. E não é culpa de Deus. Cônjuges maquiam a união de mãos dadas levando os filhos à igreja, quando em casa vivem uma legítima zona de guerra. E pasmem. Na maioria esmagadora das vezes, os problemas ministeriais e a absurda super espiritualidade travestida são as principais causas das desavenças familiares. Homens extremamente autoritários submetem suas esposas à submissão hiperbólica aconselhada por Cristo e desvirtuada por eles próprios. Santas mulheres regentes de coral transformam a vida de seus rebentos num verdadeiro inferno, enchendo as pobres criaturas de proibições e surras homéricas, escandalizando toda uma vizinhança. Não são belos testemunhos?
A realidade é que casar não é comer cajá, já diziam os antigos. Relacionamento é uma arte difícil. Encontros de casais tentam ensinar o que realmente aprendemos sozinhos. O casamento é uma escola particular. Apesar das mulheres acharem que homem é tudo igual e vice-versa, não é bem assim. As experiências compartilhadas nesses grupos e ministérios de família são muito importantes. Contudo, uma das principais falhas dessas pseudo-terapias é o fato de estabelecerem uma relação tipo "Eu sou o fulano da ciclana" e " Eu sou a ciclana do fulano". Essa premissa "eu sou dela e eu sou dele" não engloba a âmago do relacionamento de respeitar as individualidades. Não casamos para nos completar. Devemos ser felizes ou realizados em nós mesmos, até porque essa felicidade é algo pessoal. Minha esposa me complementa. Ela é uma adjutora, ajudadora. Além disso, o marido não é propriedade da esposa, mas sim um adendo, um anexo, um apêndice. Dessa forma, essa mutualidade deve existir sem cobranças ou dependências, sem barganhas ou exigências esdrúxulas.
Ah, mas a Bíblia diz que são uma só carne. Sim. Ser uma só carne não é ser igual. Somos diferentes. Nossa mente masculina nunca entenderá a famosa TPM, que transforma a mulher numa bomba relógio, manuseada delicadamente e com a convicção que os diálogos nesse período devem ser de forma a que o fio correto seja cortado. Qualquer erro pode gerar uma hecatombe. As mulheres jamais entenderão nossa "Caixa do Nada", como ouvi certa vez do Pr. Cláudio Duarte. Há momentos que simplesmente não pensamos em absolutamente nada. Queremos apenar viajar no vazio de nossa imaginação, onde as contas a pagar se misturam com as imagens dos carros vistos nas concessionárias ou dos gols perdidos pelo time do coração. Vivemos mundos diferentes, essa é a verdade. Por isso, casamento é difícil.
O que fazer então? Uma palavra define isso tudo: Respeito. Preciso respeitar minha esposa, assim como ela deve me respeitar. Não devemos invadir o espaço particular. Dizem os psicólogos que nos sentimos constrangidos em um elevador porque cada um de nós tem um espaço de 1m² que nos pertence no mundo e termos esse espaço invadido por desconhecidos nos causa esse incômodo. É o que chamam de invasão da bolha. Quando essa liberdade é cerceada dentro do relacionamento, a tendência é um desgaste sem controle. A bolha estoura e pode ser traumático. Quer ser feliz no casamento? Seja feliz mesmo sem o casamento.
Certa vez, um amigo me contou uma bela estória. Diz a lenda que um casal chegou para um grande sábio e perguntou qual o segredo do amor eterno. Eles queriam ficar juntos para sempre. O mestre pediu de que a esposa fosse à floresta e o trouxesse um gavião. Logo depois, pediu o marido para ir às montanhas e voltasse com uma águia. Os dois assim o fizeram. Voltaram ao sábio, cada um com a sua ave. O guru então pediu que o casal amarrasse os pés das aves em uma mesma corda, de modo que não pudessem se desvencilhar. As aves foram soltas. A águia ia para um lado. O gavião para o outro. Não conseguiam voar, pois estavam presos. Um preso ao outro. Perceberam então que só haveria uma forma de liberdade. A águia atacou ferozmente o gavião. O gavião revidava. Após inúmeras bicadas e sopapos, os dois estavam exaustos, feridos, despedaçados. As aves morreram. O sábio então olhou para o casal e disse: "Querem viver juntos para sempre? Sejam livres."
O amor não é um sentimento. É uma decisão. É uma escolha. Não deve ser mensurado pelo momento, pelo presente de aniversário, pelo abrir as portas do carro, pela caixa de chocolate inesperada em um dia qualquer. Claro, tudo isso é importante. É regar a planta. Todavia, não é o mais importante. Amar alguém é conhecer a outra pessoa de tal forma que não há surpresas. Não há nada que a outra parte venha a fazer que cause espanto. Vocês se conhecem. Vocês se amam. Deus nos ama exatamente por conhecer nossas fraquezas e vicissitudes. Ele sabe das nossas necessidades. Isso é amor. Isso é casar. Casamento é obra de Deus. Manter o casamento é responsabilidade do casal. Não devemos fugir disso.
Se eu ainda toco em casamentos? Sim, claro. Podem me convidar. Acertaremos o cachê e lindas músicas serão cantadas em sua cerimônia. Porém, não esqueça. Honre os músicos. Pague o que merecem. Afinal de contas, mesmo que eu não precise, há músicos profissionais que devem ser valorizados. Por causa dessa ideia de "fazer por amor a Deus" é que muitos músicos fantásticos acabam por tocar secularmente, onde verdadeiramente são reconhecidos, principalmente financeiramente. Falarei sobre isso depois. Até porque isso também me engasga.
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