Saudade
é uma palavra que existe apenas na língua portuguesa. Contudo, é algo tão
forte, tão intenso que pode gerar dores lancinantes na alma de alguém. Parece
que pedaços nossos vão ficando no percurso da vida. Partes que se desprendem,
deixando vazios quase impreenchíveis. Sinto falta de muita coisa, de muita
gente. As brincadeiras no recreio no Colégio Felipe dos Santos, onde lutávamos
pela artilharia de um campeonato de futebol de salão com tampinhas de
refrigerante substituindo a tão importante bola. As medalhas que eu ganhava,
não atléticas ou esportivas, mas em olimpíadas de matemática. De quando cantava
o hino nacional sobre a mesa da sala de aula, com apenas cinco anos de idade,
para toda a escola ouvir e se admirar. De quando era convidado para ser o
orador, patrono ou paraninfo das formaturas colegiais.
Saudade
de ver as corridas do Ayrton Senna nas madrugadas de domingo, deitado no colo do
meu pai. Dos banhos de chuva, principalmente nas biqueiras (chamamos assim por
aqui) que se formavam a partir dos telhados e das calhas das casas. De jogar
bola no quintal da minha casa, de comer seriguela diretamente da árvore, de
caçar calangos para dissecá-los e apresentar na semana cultural do colégio. Lembro-me
de minha mãe nos levando ao colégio e puxando minha mochila num carrinho, para
não danificar minha coluna. Mal sabia que anos mais tarde a odontologia
estragaria minha coluna do mesmo jeito. Sinto falta do Conjunto Filadélfia,
onde comecei a gostar de louvar a Deus. Da Banda Quarta Dimensão, das viagens e
dos eventos inesquecíveis, de quando tínhamos que empurrar o carro que
transportava o nosso som quando íamos tocar em algum lugar ou quando ficávamos
espremidos na carroceria, segurando as caixas e os instrumentos para que
chegassem intactos ao destino e fizéssemos o que mais gostávamos de fazer.
Quanta
saudade. Da minha primeira viagem de avião, dos micos que paguei em hotéis, sem
saber que o cartão que me fora entregue servia para ligar a energia do quarto.
De ficar abraçado com meu irmão, ainda bem pequeno. De abraçar meu filho, mesmo
que ainda faça isso, mas não deixo de querer repetir sempre. Lembro como se
hoje fora do primeiro beijo que Helane, minha esposa, roubara de mim. Sinto
saudade dos telefonemas eternos, das músicas românticas compostas, das paqueras
adolescentes. Cada momento é guardado com tanto carinho que poderia passar dias
e horas tentando descrever todas as minhas recordações.
Saudade.
Saudade da Igreja Batista Vale de Benção. Dos Congressos, Aniversários, Festas
de Israel. Dos amigos pastores e principalmente de um dos melhores amigos que
tive em toda a minha vida. Alguém que não era só um amigo. Ele era, como
costumava dizer, um irmão mais velho. Tivemos que deixar o ministério e,
consequentemente e dolorosamente perdi um grande amigo. Mantenho de forma
indestrutível o apreço que tenho pela sua família. Pastora Damares, uma segunda
mãe. Débora, Jonatas, irmãos com outro sangue. Estivemos juntos nos momentos felizes.
Estivemos abraçados nos momentos de dor.
Se
eu o amava tanto, por que o abandonei? Não preciso responder. Durante metade da
minha vida servi ativamente no ministério ao qual Deus me confiou. Nunca
usurpei por poder ou títulos. Sempre achei estranho ser chamado de pastor, como
já desabafei anteriormente. Responsabilidades grandes me foram confiadas desde
jovem. A pressão sempre foi gigantesca. Muitas vezes, esperavam perfeição de
onde apenas pode sair uma mera natureza humana, verdadeiramente regenerada, mas
ainda assim em obras. Estamos realmente em obras.
Todavia, o meu processo de reforma sofreu uma baixa. Perdi um
mentor espiritual. Alguém em quem me inspirava. Vi um castelo erigido por anos
ruir diante dos meus olhos. Ele era uma referência pra mim e para muita gente.
Antes que os incautos ou ignorantes sob a capa do gospelmente correto ou da
conduta "espiritualmente" ilibada, venham com acusações de que minha
inspiração deve ser Cristo, quero deixar claro que tenho consciência disso. Não
apenas sigo a Cristo. Não apenas sou inspirado por Jesus. Eu o sirvo. Contudo,
aqui na terra existem pessoas dignas de aplausos e admiração. Eu me espelhava
nele. Ele foi meu grande mestre. Pr.
Darckson partiu. Ele foi tirado de mim. Um crime horrendo, inexplicável,
inaceitável. E eu sofri. Até hoje sofro. Ele será inesquecível.
Dessa forma, não preciso
responder aos que dizem que meu sofrimento foi falso. Não preciso responder aos que
dizem que eu o abandonei. Não
preciso responder aos que dizem que fui um falso amigo. Não preciso responder aos que me
interromperam durante à minha última homenagem. Sim, fui quase expulso do
velório do meu amigo por pessoas que não compreendiam e que jamais
compreenderão que o verdadeiro amigo não é o que encobre erros, mas o que
apresenta direções para que sejam corrigidos. Não preciso responder aos que pensam que eu não amava aquele
que foi meu pastor por mais de 15 anos. Não
preciso responder.
Apenas sinto falta. Confesso que ainda sinto muito. Sinto muito não ter
falado uma última vez com ele. Não ter dado um último abraço. Não ter assistido
com ele um show do inconfundível Cauby Peixoto (isso estava na nossa lista de
coisas a fazer antes de morrer). Não ter cantado Meu Universo uma última vez.
Ele ficará eternizado no meu primeiro CD, cantando a música És que cantamos
juntos durante anos e anos. A saudade é infinita. Muitos podem não entender quando separações são
necessárias. Porém, a história, o passado ninguém vai apagar.
O que somos hoje é o resultado dessa saudade. Os fragmentos restantes do nosso ser são nossas experiências, o que sobrou das perdas. Não preciso responder. Preciso apenas viver. Aos que permanecerão me acusando, sinto muito. Aos que continuarão rancorosos, sinto muito. Continuarei os amando como sempre amei. Como aprendi certa vez, Jesus continuou sendo Jesus apesar de Judas. A gente dá o que a gente tem. E não consigo ter outro sentimento a não ser amor.
Quando
a voz do homem é como um trovão, sua vida é como um relâmpago. Nossas
lembranças são como flashes. Rápidas, nos cegam. Depois, precisamos de algum
tempo, segundos, minutos, para nos recuperar. Devemos trazer à memória o que
nos dá esperança, já dizia o profeta. Fechamos os olhos por achar que num piscar
o tempo voltará. Mas não volta. A partida dói porque parte de nós é arrancada.
A vida continua. Compreendo a marcha e vou tocando em frente, como na letra de
Almir Sater. Continuo a nadar, mesmo que já tenha quase me afogado antes. Esse
é o segredo da vida. A saudade não deve nos assombrar. Pelo contrário. O
passado deve nos encorajar a continuar a viver.
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