sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Do que sinto falta?


            Saudade é uma palavra que existe apenas na língua portuguesa. Contudo, é algo tão forte, tão intenso que pode gerar dores lancinantes na alma de alguém. Parece que pedaços nossos vão ficando no percurso da vida. Partes que se desprendem, deixando vazios quase impreenchíveis. Sinto falta de muita coisa, de muita gente. As brincadeiras no recreio no Colégio Felipe dos Santos, onde lutávamos pela artilharia de um campeonato de futebol de salão com tampinhas de refrigerante substituindo a tão importante bola. As medalhas que eu ganhava, não atléticas ou esportivas, mas em olimpíadas de matemática. De quando cantava o hino nacional sobre a mesa da sala de aula, com apenas cinco anos de idade, para toda a escola ouvir e se admirar. De quando era convidado para ser o orador, patrono ou paraninfo das formaturas colegiais.
            Saudade de ver as corridas do Ayrton Senna nas madrugadas de domingo, deitado no colo do meu pai. Dos banhos de chuva, principalmente nas biqueiras (chamamos assim por aqui) que se formavam a partir dos telhados e das calhas das casas. De jogar bola no quintal da minha casa, de comer seriguela diretamente da árvore, de caçar calangos para dissecá-los e apresentar na semana cultural do colégio. Lembro-me de minha mãe nos levando ao colégio e puxando minha mochila num carrinho, para não danificar minha coluna. Mal sabia que anos mais tarde a odontologia estragaria minha coluna do mesmo jeito. Sinto falta do Conjunto Filadélfia, onde comecei a gostar de louvar a Deus. Da Banda Quarta Dimensão, das viagens e dos eventos inesquecíveis, de quando tínhamos que empurrar o carro que transportava o nosso som quando íamos tocar em algum lugar ou quando ficávamos espremidos na carroceria, segurando as caixas e os instrumentos para que chegassem intactos ao destino e fizéssemos o que mais gostávamos de fazer.
           
            Quanta saudade. Da minha primeira viagem de avião, dos micos que paguei em hotéis, sem saber que o cartão que me fora entregue servia para ligar a energia do quarto. De ficar abraçado com meu irmão, ainda bem pequeno. De abraçar meu filho, mesmo que ainda faça isso, mas não deixo de querer repetir sempre. Lembro como se hoje fora do primeiro beijo que Helane, minha esposa, roubara de mim. Sinto saudade dos telefonemas eternos, das músicas românticas compostas, das paqueras adolescentes. Cada momento é guardado com tanto carinho que poderia passar dias e horas tentando descrever todas as minhas recordações.
            Saudade. Saudade da Igreja Batista Vale de Benção. Dos Congressos, Aniversários, Festas de Israel. Dos amigos pastores e principalmente de um dos melhores amigos que tive em toda a minha vida. Alguém que não era só um amigo. Ele era, como costumava dizer, um irmão mais velho. Tivemos que deixar o ministério e, consequentemente e dolorosamente perdi um grande amigo. Mantenho de forma indestrutível o apreço que tenho pela sua família. Pastora Damares, uma segunda mãe. Débora, Jonatas, irmãos com outro sangue.  Estivemos juntos nos momentos felizes. Estivemos abraçados nos momentos de dor.
            Se eu o amava tanto, por que o abandonei? Não preciso responder. Durante metade da minha vida servi ativamente no ministério ao qual Deus me confiou. Nunca usurpei por poder ou títulos. Sempre achei estranho ser chamado de pastor, como já desabafei anteriormente. Responsabilidades grandes me foram confiadas desde jovem. A pressão sempre foi gigantesca. Muitas vezes, esperavam perfeição de onde apenas pode sair uma mera natureza humana, verdadeiramente regenerada, mas ainda assim em obras. Estamos realmente em obras.
            Todavia, o meu processo de reforma sofreu uma baixa. Perdi um mentor espiritual. Alguém em quem me inspirava. Vi um castelo erigido por anos ruir diante dos meus olhos. Ele era uma referência pra mim e para muita gente. Antes que os incautos ou ignorantes sob a capa do gospelmente correto ou da conduta "espiritualmente" ilibada, venham com acusações de que minha inspiração deve ser Cristo, quero deixar claro que tenho consciência disso. Não apenas sigo a Cristo. Não apenas sou inspirado por Jesus. Eu o sirvo. Contudo, aqui na terra existem pessoas dignas de aplausos e admiração. Eu me espelhava nele. Ele foi meu grande mestre. Pr. Darckson partiu. Ele foi tirado de mim. Um crime horrendo, inexplicável, inaceitável. E eu sofri. Até hoje sofro. Ele será inesquecível.
            Dessa forma, não preciso responder aos que dizem que meu sofrimento foi falso. Não preciso responder aos que dizem que eu o abandonei. Não preciso responder aos que dizem que fui um falso amigo. Não preciso responder aos que me interromperam durante à minha última homenagem. Sim, fui quase expulso do velório do meu amigo por pessoas que não compreendiam e que jamais compreenderão que o verdadeiro amigo não é o que encobre erros, mas o que apresenta direções para que sejam corrigidos. Não preciso responder aos que pensam que eu não amava aquele que foi meu pastor por mais de 15 anos. Não preciso responder.
            Apenas sinto falta. Confesso que ainda sinto muito. Sinto muito não ter falado uma última vez com ele. Não ter dado um último abraço. Não ter assistido com ele um show do inconfundível Cauby Peixoto (isso estava na nossa lista de coisas a fazer antes de morrer). Não ter cantado Meu Universo uma última vez. Ele ficará eternizado no meu primeiro CD, cantando a música És que cantamos juntos durante anos e anos. A saudade é infinita. Muitos podem não entender quando separações são necessárias. Porém, a história, o passado ninguém vai apagar.

            O que somos hoje é o resultado dessa saudade. Os fragmentos restantes do nosso ser são nossas experiências, o que sobrou das perdas. Não preciso responder. Preciso apenas viver. Aos que permanecerão me acusando, sinto muito. Aos que continuarão rancorosos, sinto muito. Continuarei os amando como sempre amei. Como aprendi certa vez, Jesus continuou sendo Jesus apesar de Judas. A gente dá o que a gente tem. E não consigo ter outro sentimento a não ser amor.
           


            Quando a voz do homem é como um trovão, sua vida é como um relâmpago. Nossas lembranças são como flashes. Rápidas, nos cegam. Depois, precisamos de algum tempo, segundos, minutos, para nos recuperar. Devemos trazer à memória o que nos dá esperança, já dizia o profeta. Fechamos os olhos por achar que num piscar o tempo voltará. Mas não volta. A partida dói porque parte de nós é arrancada. A vida continua. Compreendo a marcha e vou tocando em frente, como na letra de Almir Sater. Continuo a nadar, mesmo que já tenha quase me afogado antes. Esse é o segredo da vida. A saudade não deve nos assombrar. Pelo contrário. O passado deve nos encorajar a continuar a viver. 

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