sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O que perdi?

            Perdas. Quem não já passou por isso? Estamos vulneráveis a perdas, por mais que a famigerada Teologia da Prosperidade diga o contrário. As mensagens triunfalistas e assoberbadas tem me revoltado de maneira atroz. Muito pelo fato de presenciar pessoas frustradas dentro das igrejas pelo fato da vitória prometida não se concretizar. E quando não acontecem os milagres, o impossível, a responsabilidade é divina. Ele tinha a obrigação de ter realizado meu sonho. Ele é Deus. Ele pode tudo. Está tudo errado. Enganamo-nos profundamente se imaginamos Deus como o gênio da lâmpada de Aladim. Nós é que devemos servi-lo e não o oposto disso.

            Quantas promessas já foram feitas a mim? Perdi a conta. Profetizaram que iria viajar pelo mundo inteiro a cantar. Perdi minhas esperanças que isso aconteça. Perdi também muitas coisas. Sempre estou perdendo. Perdendo a paciência. Perdendo as forças. Se eu estivesse dentro de um videogame, diria que meu "life" está se esvaindo. Preciso achar a caixinha de primeiros socorros, aquela mesma com a cruz vermelha. Preciso mudar.

            Essa era a intenção de um dos filhos de profetas que estavam com Eliseu. Tudo registrado no sexto capítulo do Segundo Livro dos Reis. O lugar estava estreito demais. Precisavam de um lugar maior.  Sabe quando não cabemos mais dentro de nós mesmos? Pois é. Crescemos e as estruturas encolhem. As roupas já não cabem mais nos bebês. Os sapatos não entram mais nos pés infantis. É a maturidade citada por Paulo à Igreja em Corinto. Quando era menino, falava, sentia, pensava como menino. Porém, crescemos e abandonamos as coisas de menino. O mundo parece um bairro. Queremos ganhar o mundo. Viajar, conhecer outras culturas. Não nos conformamos com nossos limites. Queremos mudar, expandir os horizontes.



            Na verdade, todo crescimento exige mudança. É necessário romper o casulo. Deixar de ser girino. Sair do estágio larvar. Deixar pra trás o exoesqueleto. Trocar de pele. Conseguiram entender? Quando nos sentirmos que não nos cabemos mais, quando nos incomodarmos com toda essa estreita prisão, é hora de mudar. Ficamos presos nas angústias do passado, nas lembranças, na saudade. São situações mal resolvidas. São trapos e faixas, resquícios de morte, que mesmo após ressuscitarmos, continuam cerceando nossos movimentos. Temos que resolver as pendências. Pra ontem.

            Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós. Um dos rapazes do texto bíblico sugeriu a Eliseu: "Vamos cortar madeira". Todos concordaram, inclusive o profeta. Enquanto a alegria da mudança, da casa nova, da renovação nutria o coração dos mancebos e do próprio profeta, surgiu um imprevisto. Aconteceu um acidente. Um dos inexperientes lenhadores perdeu seu instrumento de trabalho. O machado caiu no rio. E agora? O que fazer? Que atitude tomar quando aquilo que parecia simples, fácil, tranquilo, torna-se um problema?

            A única coisa que sabemos fazer é reclamar. Gritar. Esbravejar, mesmo que não tenha nenhum ser humano para nos ouvir.  A nossa atitude diante dessas perdas de machados, dracmas, ovelhas ou até mesmo filhos sempre é de um desespero humano. Aprender a respirar fundo é essencial. Na hora do sofrimento, devemos ter a certeza de que o Criador dos seres humanos nos ouvirá. Não podemos jamais ficar só observando nossos machados caírem no rio. Afundando, afundando, afundando...E não fazermos nada. Não vamos inserir um olhar de paisagem em nosso rosto diante dos prováveis fracassos. Precisamos fazer algo. Nem que seja gritar.

            O descuidado jovem gritou. Deve ter sentado ao lado da árvore ou dos pedaços de madeira cortados anteriormente e chorado. Havia uma outra situação complicada para ser solucionada. O machado era emprestado. Não era dele. O dono era outro. Perder o que é seu é uma coisa. Perder o que não lhe pertence é terrível. Tenho que cuidar bem do que é dos outros. Daí me vem uma pergunta. Será que eu me pertenço? Será que eu sou meu? A resposta vem automaticamente. Não! Você não se governa. Há um Deus que é seu dono. Somos propriedades Dele. Precisamos cuidar bem de nós mesmos então. Não podemos nos perder. O mundo é repleto de atalhos, caminhos mais fáceis e atraentes. Um belo par de pernas pode fazer qualquer homem perder a cabeça. Um prato de lentilhas, na hora da fome de colar a barriga com as costas, é um prato estufado de perdas. Disso sempre tive medo. Medo de me perder.

            E se Ele quiser nos procurar? Ele vai nos encontrar? Talvez correremos para o primeiro arbusto, arrancaremos algumas folhas e confeccionaremos trajes para esconder nossa vergonha. Perder causa vergonha. Deus nos deu algo tão precioso que é uma decepção imensa ver escorrer entre os nossos dedos essa dádiva. Por mais que fujamos para as montanhas mais altas ou para os mais profundos abismos, Deus nos encontrará. Porém, tomara que não nos encontre perdidos demais, sujos demais, arrebentados demais pelas consequências de nossos atos.

            Há uma saída. Lembrar onde caiu o machado. Como começou a tragédia? Uma conversa despretensiosa? Uma negociação ilícita? Uma ausência de perdão, fomentada pelas lembranças constantes e até mesmo por vinganças cruéis? Começamos a perder quando temos medo de ganhar, principalmente quando para vencer é imprescindível abrir mão de algo. Saber qual a origem da perda pode ajudar a nos mostrar onde queremos chegar. Eva começou a perder quando ouviu quem não deveria. Adão, ao aceitar a proposta de que poderia ter bem mais do que Deus já tinha lhe garantido. E assim caminha a humanidade até hoje.
           
            Os erros passados explicam as dores de cabeça constantes. São raízes que tem que ser arrancadas. Feridas, ainda abertas, alvos de infecções corriqueiras, que tem que ser suturadas, fechadas, cicatrizadas. Buracos, crateras na alma que pedem para ser entulhadas. Abismos que precisam ser atravessados. 


            E qual a ponte? Como atravessá-la? Como encarar as perdas? Um dia, uma cruz foi erigida. Nela, foi pregado aquele que faz flutuar machados. No mesmo Jordão, onde o machado caiu, Ele foi batizado. Naquela cruz, Ele bradou: Está consumado! Ele tombou. Caiu, mas se ergueu novamente, flutuou, foi assunto aos céus. Esse machado hoje está posto à raiz das árvores para cortar as que são encontradas infrutíferas. Onde nos perdemos? Onde estão nossos frutos? Nós sabemos o que fazer. Nós sabemos o que pedir.

            Que as vitórias não alcançadas não nos façam perder a fé. Que as esperanças não estejam baseadas apenas por vista, mas por crer que Ele não nos abandonará. Que a dor de perder algo ou alguém não possa ser curada transferindo a culpa dos acontecimentos trágicos meramente casuais para a Onipotência Divina. No mundo teremos aflição, essa sim foi uma promessa cumprida.  O mundo é cruel. Que eu possa entender minhas derrotas como lições, provas, e até mesmo conquistas, pois, às vezes, perder pode ser ganhar.
            A vida não é um jogo onde a sorte e o azar se digladiam. Li certa vez um conto interessante. Um homem vivia com seu filho na sua fazenda e possuía apenas um cavalo. Certo dia, este cavalo fugiu. Seus vizinhos vieram consola-lo e diziam: “Você é um homem de azar, possuía só um cavalo e agora perdeu tudo”. Mas o homem, simplesmente disse: “Não sei não. Não sei se foi sorte ou azar... Pode ser que sim pode ser que não...”. Os vizinhos exclamaram: “Mas é lógico que é azar. Você está doido, como pode ser sorte?
            Passou-se um tempo, e o cavalo voltou com vários cavalos selvagens. Os vizinhos voltaram, assombrados e perplexos e disseram: “Você é um homem de sorte, agora ficou rico com tantos cavalos”. Novamente, o homem replicou: “Não sei não... Pode ser que sim, pode ser que não...Desta vez, os vizinhos ficaram bravos com ele: “Mas como pode dizer isto? Evidente que é sorte, pois você se tornou rico. Realmente você está ficando doido”. Mas o homem continuou tranquilo sem se perturbar. Um dia, seu filho único resolveu domar um destes cavalos selvagens, mas caiu do cavalo e quebrou a perna e precisou ficar engessado bastante tempo. Os vizinhos lamentaram a má sorte do homem: “Você é mesmo um homem de azar. Tem somente um filho que é seu apoio, sua ajuda e agora lhe acontece isto. E sabiamente, o homem respondeu: “Não sei não... Não sei se é sorte ou azar... Pode ser que sim, pode ser que não... Os vizinhos se afastaram com raiva e ao mesmo tempo com pena daquele homem que não entendia nada e estava fora de seu juízo.
            Pouco tempo depois, uma guerra violenta foi iniciada e todos os filhos dos vizinhos foram convocados para a guerra. Mas o filho deste homem por estar com a perna quebrada foi poupado. Desta vez, os vizinhos voltaram cabisbaixos e exclamaram: “Você é um homem sábio, é um homem de sorte”. E o homem, tranquilamente, respondeu: “Não sei não, pode ser que sim pode ser que não...
            Não sabemos o que acontecerá hoje, amanhã, daqui a um ano, vinte anos, quarenta anos. Não podemos prever o futuro. Entretanto, entendo que tudo coopera para um bem maior. Os planos de Deus não se frustram e, por mais que eu perca no decorrer da vida, vou me esforçar ao máximo para que os sonhos de Deus na minha vida se realizem. Se tudo der certo, como dizia Confúcio, será ming, o destino. Se nada der certo, também será ming, o destino. Para nós, fica o entendimento. Luto ao máximo para que a vontade de Deus sempre prevaleça. E me sentirei assaz feliz com o resultado final.

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