sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O dia que conheci Nietzsche

CAPÍTULO X

O DIA QUE CONHECI NIETZSCHE


            A própria palavra cristianismo é já um equívoco. No fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz. Não. Não fui eu quem disse isso. Preciso esclarecer de antemão que não concordo com tudo que aquele que cunhou essa frase afirmava. Apenas procurei entendê-lo. Sempre tive vontade de estudar filosofia. Li um pouco de Kant, ainda na faculdade, sob a influência de um estudante de medicina com o qual fiz alguns estágios extramuros. Contudo, Nietzsche sempre foi a pedra de tropeço de toda a igrejada. Não errei a escrita. Igrejada mesmo, pois não posso chamar o que vejo de igreja.

            Perdoe-me o neologismo, mas a tradição pentecostal clássica sempre foi avessa ao estudo teológico, dando preferência às experiências pessoais. A letra mata. Essa era a afirmação, completamente fora de contexto hermenêutico, usada pelos irmãos do reteté para despretensiosamente desincentivar o estudo bíblico. O problema é que eu tenho uma atração incontrolável pela maçã do conhecimento. Curioso, nunca aceitei a resolução do questionário com um sonoro “porque sim”. Queria saber a razão. A fé não me bastava. Tinha que existir uma justificativa.

            Claro, não falo da fé que salva, mas a que é empurrada goela abaixo nos leigos sob o pretexto de impedir que pesquisem, que se informem, que aprendam sobre tal assunto. Somente era necessário ouvir o sacerdote e aceitar a “Cristo”. Fim. Não é preciso saber. Comer da árvore é proibido. Pode dar indigestão. Pode culminar em sua expulsão do paraíso. Que me expulsem então.

            Sempre criticaram São Tomé, o discípulo incrédulo. Tomé queria apenas ter a sua experiência. Queria tocar nos ferimentos, sentir o cheiro de Jesus, ver o local onde a lança o transpassou. Que crime há nisso? Qual o sacrilégio em exigir provas concretas de milagres? As igrejas neopentecostais se estapeiam, exibindo seus prodígios em shows televisivos. Paralíticos se arrastam ao levantar de cadeiras de rodas, amparados pelos braços por obreiros previamente avisados. São alguns pequenos passos. Enquanto isso, os fiéis gritam sob o comando do “apóstolo”, comemorando o pseudo-milagre, sem ser necessário prova nenhuma.

            Onde estão os exames médicos? E a avaliação de um especialista? Se alguém promete dentes restaurados com ouro após uma oração, seria extremamente necessária a chancela de um odontólogo. Assim como a cura de um câncer precisaria de um laudo de um oncologista. Acompanhar o cotidiano de um ex-paraplégico também seria interessante. Entretanto, isso não é feito. Até porque, se for exigido, é sinal de falta de fé. Crer, sem ver. Que absurdo. Se o milagre é autêntico, por que temer a solicitação de provas? Por que marginalizar os Tomés?

            É que há algumas obscuridades por trás desse processo. O óleo usado para ungir o ventre do doente nos espetáculos de cura inexplicavelmente faz o milagreiro retirar “tumores”, vermes, minhocas e até ratos da barriga do paciente. Por que eu não posso achar que aquele malogrado azeite friccionado possa gerar uma gosma horrenda semelhante ao abcesso? Serão trabalhos de terreiros de macumba os tufos de cabelos regurgitados pelos oprimidos? Vi um vídeo estarrecedor onde uma missionária removia o coração de um senhor, sob o pretexto de que o cardiopata receberia um novo órgão. Isso mesmo que você leu, meu amigo. Ela removeu o coração, tal como o Shang Tsung no Mortal Kombat. Não, não metaforicamente. Ela exibia o bolo de carne. Era, para todos os presentes, um coração. Claro, não perguntaram a um cardiologista. Mas pra que, não é mesmo? Só precisa crer.

            Essa é a questão. Jesus nunca foi exibicionista. Seus milagres não eram midiáticos, apesar da atração popular que provocavam. Na maioria dos casos, o Mestre pedia que o curado não contasse pra ninguém. Seus ensinamentos eram tão fora da caixa, sem a massificação atual, sem interesses escusos que, quando vemos o que ocorre atualmente nas catedrais da fé, ficamos com ânsia de vômito. Igrejas mornas, tal como Laodicéia. Ricas, abastadas, melhores estruturas de som, melhores grupos vocais, instrumentos musicais de última geração, melhores assentos, maior templo, santuário gigante, totalmente climatizado. Porém, Jesus chama essas nem quentes nem frias de pobre, cega, nua, infeliz, miserável. Ou seja, o contentamento não deve estar na estrutura, mas na essência.

            O evangelho se perde então na busca pela glória, na tentação do pináculo do templo. A apresentação de uma dança, peça teatral ou os efeitos de um solo de guitarra bem executado ofuscam o que verdadeiramente importa. O sacerdote rouba a cena. A glória é dele. Depois aparecem com um papo hipócrita de que estão fazendo a obra de Deus. Definitivamente não. São obras humanas, eventos humanos, igreja humana, longe de Deus. Ânsia de vômito é o que me dá. Todos precisam obrigatoriamente se enquadrar no padrão. Os que pensam, refletem, questionam são um risco. Não devem ser questionados. Jamais afrontados. São os donos da verdade. Na verdade, são os donos da Eclésia. A igreja deixa de ser de Deus. Jesus fica de fora, batendo na porta, esperando que alguém ouça, abra, porque ele quer sentar à mesa. Pra que comer com Jesus, se podemos jantar com o governador, o prefeito, o empresário, o cantor famoso, não é mesmo?

            Tolos. Na verdade, tolos são os que os ouvem. Tenho pena das pessoas ignorantes que caem na lábia desses artífices da fé. Esses charlatões, interesseiros, inescrupulosos fazem de tudo para enganar as pobres mentes frágeis. Pior que às vezes penso que de tanto mentirem, acabam acreditando nas suas próprias falácias, numa esquizofrenia tosca. Matam em nome de Deus. Selecionam quem pode e quem não pode estar no seio da congregação.

            Apenas os santos participam da linha de frente. Como saber quem é santo? O que é ser santo? Segundo Nietzsche, no seu livro O Anticristo, “é apenas uma série de sintomas de um corpo empobrecido, enervado e incuravelmente corrompido”. Por que essa revolta com esse filho de pastor luterano? Ele abre a caixa de Pandora e expõe a podridão em que o cristianismo tinha se tornado no século XIX.  Essa podridão viaja pelo século XX e seu fedor ainda é insuportável no século XXI.

            É óbvio que a santidade autêntica significa ser separado, estar disponível para o serviço. Santos são aqueles que se doam, sem receber nada em troca, pelo bem estar dos outros, para servir aos outros. Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, São Francisco de Assis foram santos e nem eram evangélicos. O conceito de santidade da maioria esmagadora das denominações está baseado no vertical, quando a perspectiva deve ser horizontal. Ser santo não é receber recados divinos, usar longas saias, não usar bermudas curtas ou compridas. Não é demonizar tatuagens ou piercings. Não é fazer mortificar o sexo, reprimindo-o e tornando-o o mais abominável dos pecados. Não está no que somos por dentro, mas no que externamos. Ora, o fruto do Espírito Santo é para que os outros saboreiem. O próximo sentirá o sabor do amor, da paz, da alegria, da longanimidade, da mansidão, da bondade, da benignidade e do domínio próprio. Ficará evidenciado.

            Comecei a ler Nietzsche e, mesmo não sendo ateu como ele, concordei com vários tópicos de seus escritos. Não sou ateu, nem cru, nem estou apostatando da fé. Apenas faço minhas suas palavras quando proclama a falência do cristianismo que Jesus pregou. Mataram Jesus, não apenas fisicamente. Mataram o que Jesus representava. Aboliram seus ensinamentos, hierarquizando a igreja. Hoje, não há quem se contente em ser um obreiro ou um diácono. Querem mais. Querem reconhecimento ministerial. Querem aplausos, palmas, vestes no chão para passarem por cima. Sem jumentinho, claro. Preferem um carro luxuoso, com blindagem e seguranças armados para fazer a escolta. Enquanto o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, eles exigem hotel cinco estrelas. Se Jesus não tivesse ressuscitado, acho que seus ossos estariam estremecendo na tumba.

            Nietzsche tem seus absurdos, mas guardei o que me apeteceu. Isso é bíblico. Reter o que é bom. O sagrado passou a ser algo tão fútil. Quem seria digno de subir a um púlpito para ministrar um louvor? Quem seria digno de tomar a santa ceia? Quem seria digno de se batizar nas águas? Que poderia ser canal de Deus? Quem merece ser salvo? Pronto. Atingi a ferida. Essas segregações são estúpidas. Ninguém é digno. Somos alvos da misericórdia de Deus. Sem essas misericórdias somos reduzidos ao pó. Não somos nada. Não somos ninguém. Ele é. Jesus é o cara. Não eu, nem você. O que me faz poder pregar? O desejo de tocar no coração das pessoas, de levar Jesus a elas, de ensinar o que aprendi, de colocar pra fora o que tenho dentro de mim. Não palavras vazias, mas palavras vivas. Vida viva.

            Não estou fazendo apologia ao pecado, defendendo que as pessoas vivam vidas prostituídas, até porque viver assim estaria longe do que é viver. Os mortos vivem assim. Os não regenerados vivem mortos. Quem está vivo que viva. Que nossa preocupação com o outro seja baseada na ajuda e não no julgamento. Ou será que essa trave no nosso olho não tem atrapalhado nossa visão? O fato da casa do vizinho estar suja não me dá o direito de pular o muro, arrombar a porta, pegar a vassoura e fazer uma faxina fantástica sem a autorização do proprietário. Eu posso varrer à vontade a minha sala, o meu quarto. Devo orientar, instruir, exortar. Contudo, não sou responsável pela higiene alheia. Devo me santificar, buscar a santidade de Deus para a minha vida e, quando isso acontecer, vou perceber o quanto de bom eu fiz para todos ao meu redor.

            Deixo-vos com outra frase de Nietzsche. “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos ser aos olhos dos que não sabem voar”. Não que esteja me gloriando, afirmando ser um ser mais elevado. Longe de mim. Não sou elevado de maneira nenhuma. Gosto de voar. Meus pensamentos voam longe. Todavia, como as gaivotas, sempre volto ao ninho. O fato é que não retorno de mãos vazias. Trago algo novo, diferente. Um alimento novo. Provo primeiro, para ver se não contém nenhum veneno. Quando me sinto alimentado com aquilo que achei, divido com meus filhotes. Uns desejarão mais. Outros estarão tão conformados com o alpiste padrão que nem vão querer dar uma bicadinha sequer na nova iguaria. E assim vou vivendo, sabendo que os pensamentos de Deus são mais altos que os meus. Sendo assim, como alcançá-los com os pés no chão?
             

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

                                                        Nietzsche

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